Não é possível desassociar um livro chamado “Opostas em Guerra” dos fatos históricos da guerra que o cerca, mesmo com menções do autor afirmando não ter compromissos com os fatos históricos. Se o título da história, assim como a divulgação e a marcação na Amazon como ficção histórica, foram criados em cima desse cenário e faz referência a guerra que acontecia. Como a nota do autor expõe, o livro tem a intenção de ser um romance de época, mas isso apenas é destacado através de menções ao momento que existem. Os personagens raramente transmitem comportamentos e características do período em que elas vivem. Elas agem como meninas contemporâneas, com algumas exceções como quando a personagem Russa, Zoya, parece viver em uma caverna e constantemente dando a impressão de que a Rússia é atrasada em relação aos Estados Unidos.
O cenário das olimpíadas também tem diversas mudanças, que poderiam até ser convincentes se a autora dedicasse algum tempo a trabalhá-las, mas isso não acontece. Como, por exemplo, os profissionais das próprias olimpíadas, com seus fisioterapeutas, treinadores, nutricionistas, etc, não terem visto a situação física dela, mas todas as adversárias percebendo só de olhar? Os atletas são pagos pelas olimpíadas, independente ou não de receberem pódio, por que a Zoya, que é descrita como tão boa que não queriam deixá-la sair do país, não receberia um pagamento como atleta de alto rendimento? As jogadoras têm clubes que jogam profissionalmente, ela não teria dinheiro dele? A Rússia sempre foi pioneira em direitos dos trabalhadores, mas mesmo que não fosse, todos os atletas são pagos sem precisar de pódio. A licença poética não parece convencer o leitor dos problemas individuais dessas personagens.
O principal problema do livro, entretanto, é a falta de pesquisa e embasamento sobre a guerra, sobre os movimentos LGBTs na época, desinformações sobre a guerra e a URSS fundadas em anticomunismo, revisionismos históricos. Alguns deles foram absurdos, como se referir a guerra como “rixa política” e as menções à epidemia da AIDS foram completamente jogadas e sem nenhuma construção alguma por trás, parecia feito apenas para lembrar que isso existia. O único personagem negro foi descrito seguido de um “ele tem um irmão com HIV, entende de discriminações”, o que eu achei muito estranho. Por mais que a autora evidencie na nota que não pretendia se aprofundar muito no assunto, quando você escolhe retratar isso em sua obra, você acaba tendo um compromisso com a forma que você vai abordar certas coisas. Mesmo que algo não seja condizente com a realidade, a sua escrita tem o poder de convencer as pessoas daquele cenário, eu consegui ser convencida pelo universo de “Amor sob protocolo”, mas não por “Opostas em guerra”. No fim, o livro parece uma ideia aesthetic e um conjunto de tropes (onde o romance é só uma ideia de enemies to lovers) que não foram bem desenvolvidas, talvez se ele se passasse em um cenário contemporâneo seria uma leitura melhor por não precisar de tanto embasamento histórico.