A Noite do Cordeiro me conquistou pelo ritmo surpreendentemente fluido e pela atmosfera sombria, quase ritualística, com um pé firme no folk e no imaginário da bruxaria. A escrita é envolvente a ponto de tornar a leitura compulsiva; não consegui largar o livro. O embasamento histórico sustenta muito bem a narrativa, e a construção do padre Vicente é um dos grandes acertos. Um personagem cheio de camadas, atravessado por culpa, fé e contradições, que carrega boa parte da tensão moral da história. O mistério se desenvolve de forma envolvente, sempre cercado por críticas sociais afiadas e um uso inteligente do simbolismo religioso. Com descrições de cenários e acontecimentos que constroem imagens vívidas e perturbadoras. É um livro que se enxerga enquanto se lê, sem economizar no desconforto.
Ainda assim, o final me deixou com a sensação de interrupção abrupta. Quando a história termina, a impressão é de que ainda havia páginas a serem viradas. Um encerramento repentino diante da força do percurso.
Mesmo com esse final um pouco decepcionante, é uma leitura muito bem escrita, atmosférica e marcante, daquelas que continuam reverberando depois de fechadas.