Em meados do século XIX, a população negra seguia construindo seus espaços na cidade de São Paulo. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos conseguira construir a Igreja do Rosário, e em torno dela promovia celebrações com grande presença africana. A área de matas conhecida como Campos do Bexiga, em torno do córrego Saracura, um refúgio para fugitivos da escravidão, já se transformava em base de uma comunidade negra. Graças ao trabalho escravo, o café enriquecia a cidade, mas nas fazendas surgiam mais e mais quilombos, mais e mais rebeliões…
Ainda que o poder estivesse totalmente nas mãos dos homens brancos (vários deles nem tão brancos assim…), nas ruas milhares de pessoas negras – escravizadas ou livres – trabalhavam em diferentes ofícios – carregadores, lavadeiras, quitandeiras e outros. Entre essas pessoas estava Tiodora, uma mulher escravizada que procura, através da palavra escrita, alcançar sua alforria. Este livro inspira-se nesse momento.
Marcelo D’Salete (São Paulo, 1979) é autor de histórias em quadrinhos e professor de artes visuais na Escola de Aplicação, instituição pública de ensino fundamental e médio, do Museu de Arte Contemporânea da USP. É autor ainda dos títulos Cumbe, que aborda a resistência negra contra a escravidão no Brasil colônia, Encruzilhadas, que retrata a juventude negra marginalizada das grandes cidades, e do épico Angola Janga - Uma história de Palmares, criado a partir da pesquisa de onze anos a respeito dos antigos mocambos da Serra da Barriga, o Quilombo dos Palmares.
Que bom existe o Marcelo d'Salete (e a pesquisadora Cristina Wissenbach). Assim, pode-se fazer um pouco de justiça à memória de uma mulher escravizada que teria sido completamente apagada da história, não fosse sua perseverança em colocar seu apelo e sua promessa em cartas que ecoam até hoje e ajudam a decifrar o que era o Brasil na perspectiva dos escravizados. Não só um excelente retrato histórico e material de consulta, Mukanda Tiodora é também um espetáculo de narrativa em quadrinhos. Gibizaço!
Mais que a narrativa em quadrinhos cheia de ação como a maioria dos livros do D’Salete, esse livro conta com artigos, tabelas e fotos de época que enriquecem toda a história. Prato cheio pra historiadores ou qualquer um que queira ter mais do contexto de Tiodora.
Brasil, 1866. A escravidão institucionalizada ainda era uma dura realidade e milhões de seres humanos pretos, escravos, livres ou libertos eram cotidianamente submetidos a humilhações, explorações e a um racismo abjeto cujas pérfidas sementes ainda se fazem germinar entre nós mais de 170 anos depois. Nesse ano, em São Paulo, vivia Teodora Dias da Cunha, africana de nascimento, trazida à força de sua terra além mar e escravizada no Brasil. Detida como suspeita de cumplicidade num roubo cometido pelos “escravos de ganho” Claro Antônio de Santos e um certo Pedro, “Tiodora” como era conhecida, teve apreendidas pelas autoridades cinco cartas, escritas a seu pedido por Claro, em que ela tentava se comunicar com seu marido (vendido para outro fazendeiro) para obter recursos com o intuito de comprar a sua alforria. As cartas nunca chegaram ao seu destinatário mas, hoje em poder dos historiadores e autoridades no assunto escravidão, constituem importantes fontes históricas pois dão voz a uma mulher preta escravizada que, assim como suas irmãs, era simplesmente silenciada por uma realidade escravocrata e patriarcal. Marcelo D´Salete, autor de HQs, ilustrador e professor, graduado em Artes Plásticas e mestre em História da Arte, autor do excelente “Angola Janga” (2017) e artista premiado, imaginou um final alternativo para a epopeia das cartas de Tiodora neste também excelente livro ilustrado (ou graphic novel) “Mukanda Tiodora” (Mukanda = carta, missiva em Quimbundo, uma das línguas de origem Banto faladas em Angola). Quadrinizada com esmero e com um excelente material de apoio (textos, tabelas, quadros comparativos, cronologia da escravidão em São Paulo), “Mukanda Tiodora” nos emociona e nos cativa mesmo ambientado num contexto histórico brutal como aquele e surpreende de forma positiva ao incluir como um de seus personagens, numa espécie de “participação especial”, o advogado, cronista e ativista anti-escravidão Luiz Gama (1830/1882). Mais um grande trabalho do artista e professor Marcelo D´Salete.
Mukanda Tiodora parte de las cartas de la esclava Tiodora que se encuentran en el Archivo de Sao Paulo. Un documento histórico del siglo XIX que retrata parte de la historia y el sentimiento de ansia de libertad de la mujer. Inspirado por estas cartas, el autor dibuja el viaje que hacen para llegar a su destinatario.
Tio fue una esclava africana en Brasil que siempre quiso volver a su país y cumplir la promesa que hizo. Separada de su marido y su hijo, utilizaba su poco dinero para escribirles cartas pidiéndoles que reunieran el suficiente dinero para pagar su libertad. El libro incluye al final varios apéndices que tratan la historia real y te dan un vistazo más amplio de esta historia.
Por parte del cómic, Tiodora no es tanto la protagonista, sino la razón que mueve la historia. Vemos cómo dicta una carta a otro esclavo que sabe escribir y pide que la entreguen. La carta llegará a manos de Benedito quien hará un viaje desafiando a quienes quieren oprimirle para llevar la carta de esa mujer que fue amable con él. Es una historia corta en la que no es tan importante la trama, sino lo que representa.
Siendo mi primera vez leyendo a Marcelo, no conocía nada de su estilo. Todo en blanco y negro, con dibujo a mano como de carboncillo y líneas imprecisas, retrata la sociedad de la época enfocada en la población negra y esclava. Su dibujo es oscuro y con detalles en las expresiones faciales. Gran parte de la historia no se lee, sino que se ve, con muy poco texto -incluso para un cómic- hay que mirar a las expresiones para saber qué está pasando.
En general, ha sido una historia interesante aunque no lo que esperaba. Se centra más en la carta en sí, que en el propio personaje de Tio quien da nombre a la novela. Igualmente, ha sido una ventana para que conozca parte de una historia de la que no sabía nada.
“Nova obra de Marcelo D’Salete, Mukanda Tiodora joga luz sobre a São Paulo da década de 1860. Época em que circulavam nos corredores da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco não apenas as ideias abolicionistas, mas também intelectuais negros como o aluno Ferreira de Menezes e esse vulcão chamado Luiz Gama, que ousava enfrentar o escravismo nos tribunais e também em publicações como o Diabo Coxo, que fundou com Angelo Agostini, pioneiro dos quadrinhos brasileiros.
Uma história emocionante, baseada em fatos reais, em uma edição rica em materiais de apoio, que inclui textos das historiadoras Maria Cristina Cortez Wissenbach e Silvana Jeha, uma cronologia da luta abolicionista em São Paulo e, pela primeira vez, a reprodução integral das cartas de Tiodora!”
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A arte é muito bonita, aparentemente feita com técnica mista. Gostei especialmente do design de personagem: todos os personagens são facilmente identificáveis e o estilo não é nem simples e caricato demais, nem super realista. Os cenários são muito bonitos, dão aquela sensação gostosa de reconhecimento para gente que já foi em cidade histórica ou que conhece o interior paulista. A história em si é bem simples. A carta de Tiodora acaba servindo mais como uma desculpa para d'Salete nos mostrar como era a vida no período e as mudanças que estavam acontecendo. Acaba dando um retrato muito completo, mas sem cair em didatismo. Mostra a brutalidade da escravidão e do racismo, mas não tem nenhuma cena pesada demais que não possa ser lida por alguém mais jovem.
Muito mais que a reconstrução de uma história apagada pelo poder hegemônico, Mukanda Tiodora nos mostra um pequeno, silencioso e muito impactante retrato da São Paulo na segunda metade do século XIX a partir das cartas de Tiodora, uma mulher escravizada que lutou até o fim, da forma que podia, por sua liberdade.
Já bem conhecido o seu papel de educador/contador de história , D'Salete aqui complexifica a perspectiva rasa de que o negro no Brasil possui "apenas" registros dentro da oralidade . Mukanda é uma carta a todos os que buscam respostas sobre o nosso passado , e um grito sobre a emergência de mais Tiodoras. Mais um obrigatório do mestre.
Já é difícil ler sobre temas tão pesados quanto a escravidão. O formato de HO não diminui a intensidade. E, certamente, tendo uma história real ali, é mais tenso ainda. Não diria que vou sentir saudades desse livro, mas é sempre bom ler sobre as atrocidades do passado para garantir que ninguém tenha a parva ideia de repetir os mesmos erros, ainda que com nova roupagem.
Narrar as pessoas e uma cidade pela trajetória de uma carta. O desenho da palavra escrita se mescla às imagens em que nada pode ser falado mas tudo está dito.
Excelente pesquisa e materiais complementares para pensar a trajetória de Sao Paulo, especialmente, mas da escravização no Brasil.
Recomendo
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Quadrinho com traços tristes sobre a carta que Tiodora, negra e escrava, escreveu e a saga para entregar ela. Segunda metade conta a historia real das cartas e sobre os escravos no Brasil
Incrível. Marcelo d'Salete é gênio, tem o molho. Já levou Jabuti, agora deveria levar o Camões ou o Pulitzer (mas sabemos que prêmios não devem ser levados a sério).