Ah... As pequenas revoluções que a literatura faz na gente.
Esse livro já começou me deixando em crise. Ele abre com uma frase de Clarice Lispector que ficou na minha cabeça o mês inteiro: "Perder-se também é caminho". Essa citação dá o tom da história: a protagonista perde a mãe subitamente aos 15 anos, e vai viver por um tempo com pai que não vê há anos. O pai dela pesquisa a terra preta no Alto Xingu, um tipo de solo escuro e fértil encontrado na região Amazônica, alterada pela ação humana e que comprova a ocupação milenar do território por povos indígenas e a relação harmônica destes com o lugar onde vivem — logo, instrumento importante para processos de demarcação de terras, por exemplo.
É na aldeia que Ana vai descobrir que a natureza não é nada silenciosa: o barulho dos rios, das árvores, dos ventos e dos animais torna-se o som ambiente. É lá também que ela vai descobrir um jeito de ver o mundo que considera a sabedoria ancestral, as histórias contadas e os astros. Participa dos rituais, como o kuarup, para a despedida dos mortos e o encerramento do período de luto. Encara, principalmente, a própria ignorância: há tanto que ela não sabe sobre o mundo, sobre a vida, sobre o que significa ser mulher, sobre a sobrevivência, sobre o uso de ervas... Não sabe de nada das coisas práticas da vida, como ela narra.
"O tempo na aldeia é outro; existe um antes e um depois, mas eles rodam, como o dia e a noite, as chuvas e as secas, a hora de plantar e a de colher. O passado e o futuro não estão separados pelo presente, ambos moram nele: para lançar uma flecha, a corda do arco recua."
Apesar de toda a jornada, que se estende por décadas, corresponder a um amadurecimento dela própria, o livro não se limita a falar da pobre menina branca órfã de mãe, muito menos tenta pintar a vida na aldeia como ideal e perfeita. Há personagens indígenas com suas próprias narrativas, como uma garota que passa por um período de reclusão antes de virar mulher e poder se casar. A cultura e o modo de viver da aldeia tornam-se protagonistas do romance também, pois, apesar da protagonista observar tudo, ela ainda é a peça estranha ao quebra-cabeça. Ainda assim, observa tudo com respeito, encarando o sentido da vida e de estar viva. Além disso, especialmente na terceira parte do livro, as queimadas devastadoras, o genocídio dos povos originários, a ignorância da imprensa e as consequências do turismo em regiões que deveriam ser mais protegidas ganham as páginas.
"Terrapreta" ainda conta com uma orelha escrita por Ailton Krenak, que o recomenda: "um romance de formação para leitores que vislumbram outras cartografias do país, um livro para quem ainda não sabe o que é Brasil."