ler esse romance inédito – e póstumo – de Carolina Maria de Jesus é estar diante de uma autora multifacetada e também reconhecer que sua escrita proverbial aponta em nós condições inescapáveis e profundas.
somos escravos de tudo aquilo que desejamos e possuímos, ao mesmo tempo que somos cativos inquietos daquilo que não somos. “Has de sofrer! Até morrer!”. o tom novelesco e marcadamente proverbial insere essa ficção como um dos livros mais realistas que já li; é possível se ver nele, nos personagens e nas ilusões que os acompanham.
o livro é uma tentativa engenhosa da Carolina de nos dizer que, se nas experiências da favela do Canindé, retratada através do seu diário intitulado “Quarto do despejo – diário de uma favelada”, os mais pobres e vulneráveis são escravos do custo de vida, por outro lado, nos contextos mais abastados da classe média alta e de elite do contexto paulista, onde Carolina passou a viver depois que se mudou, a escritora nos diz: ter dinheiro não significa ser livre, assim como ter mais possibilidades não é sinônimo de mais liberdade.
ninguém é livre neste mundo, eis o eco proverbial e contracultural de Carolina. enquanto Renato e Rosa encontram-se acorrentados pelas expectativas sociais, a mãe de Renato, natural de uma família rica, não permite que ele se case com Rosa, e assim demonstra sua condição de cativa das suas próprias ilusões e egoísmo. tenta viver a vida do filho, e logo se desilude com o peso das consequências de suas escolhas.
são muitas as escravidões. o livro nos provoca o quanto de nós existe na vida que levamos… nas dores, sofrimentos e ilusões que cultivamos.
a tentativa de controlar a vida, e até mesmo o futuro, esconde, nos mostra Carolina, as nossas fragilidades e medos diante da própria experiência humana; não importa o tamanho da possibilidade, nunca poderemos escapar da inevitabilidade da própria vida, da dor e do sofrimento.