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#WIT Month
Fazer promessas uns aos outros parece um gesto antigo. Uma atitude romântica ou cavalheiresca que desaparece entre as recordações da inocência juvenil. Fazer uma promessa verdadeira tornou-se hoje um acto entre o incómodo e o inesperado. Prometer é uma acção que se faz com a palavra e que, do nada, faz nascer um vínculo e um compromisso capazes de percorrer o tempo e de reunir, numa única declaração, passado, presente e futuro.
“Lembras-te da última promessa importante que fizeste ou te fizeram?” É com esta pergunta que Marina Garcés, filósofa e ensaísta catalã, inicia a sua obra e que, por isso, me intrigou de imediato. Pessoalmente, não me lembro de prometer nunca nada a ninguém nem me recordo que mo tenham feito alguma vez, e se não fosse “O Tempo da Promessa”, não pensaria sequer no assunto, já que não é algo a que dê importância, provavelmente porque, a fiar-me na sabedoria popular, as promessas são basicamente palavras ditas da boca para fora: “Promessas não pagam dívidas”, “De promessas está o inferno cheio”, “Promessas leva-as o vento”, “Quem nada promete nada deve”, “Quem promete com pressa arrepende-se com vagar”. E se ouvir a palavra “prometo” me parece tão esvaziada de sentido como um “juro” ou um “amo-te” porque se diz como frase feita para tranquilizar os mais cépticos, dizê-lo tem algo de pueril, como se pode ver na última parte desta obra, em que a autora colige promessas de jovens que participaram numa actividade do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona.
Prometo à minha mãe que a partir de agora e até sair de casa reduzirei os resíduos, os porei no sítio certo e reciclarei mais.
Prometo que o futuro será um mundo onde não haverá preconceitos e todos seremos iguais.
Para explanar a sua tese, Marina Garcés socorre-se de três livros de ficção intitulados “A Promessa” que, por sinal, conheço: o de Silvina Ocampo (promete a Santa Rita escrever um livro se se salvar de morrer afogada), o de Damon Galgut (uma patroa branca promete a uma velha empregada negra deixar-lhe a casinha onde mora em testamento) e o de Friedrich Dürrenmatt (vi a adaptação cinematográfica, protagonizada por Jack Nicholson, um detective que promete a uns pais encontrar o assassino da filha).
Uma promessa dada pode alterar uma vida: pode salvá-la ou condená-la, e nem sempre escolhemos as promessas que fazemos ou que recebemos. A liberdade e a obrigação são as duas faces inseparáveis de qualquer promessa: obriga quem a faz a mantê-la e obriga o seu receptor a ser o seu guardião.
Não é, porém, tanto a promessa pessoal que Marina Garcés pretende discutir aqui como a promessa institucional, criando assim uma tríade formada por Deus, Estado e capitalismo.
A palavra que promete tem tanta força que, desde o início, “os senhores” se apropriaram dela: Deus prometeu a salvação, o Estado criou o corpo político com a promessa de protecção e o capitalismo mobilizou as aspirações individuais na base de uma promessa ilimitada de crescimento e de acumulação. Nenhuma destas três promessas se cumpriram, embora, durante séculos, tenham organizado o tempo comum e o seu sentido. Ainda o fazem, talvez sob uma sombra crescente de perigo e desespero.
Quando essas promessas não se concretizam, dá-se o que autora chama “o tempo do acidente”: Deus não salvou, o Estado não protegeu e o capitalismo não tem mais por onde crescer. Como a maioria dos ensaios que leio, este abusa da hospitalidade. Se se pode transmitir uma ideia forte em 10 páginas, porquê enfraquecê-la com 100 que se traduzem em extrapolações, repetições e tangentes? No final de “Tempo da Promessa”, chega-se ao aguardado busílis da questão, as repercussões da desilusão que se sente na sociedade actual por se prometer tanto e se fazer tão pouco.
Estes componentes emocionais, relacionado com a frustração das expectativas de um futuro melhor, parecem ser a causa de uma boa parte dos fenómenos políticos e sociais mais preocupantes do nosso presente, com políticas e lideranças autoritárias, atitudes de discriminação, incremento da violência quotidiana no espaço público e privado e aumento das patologias mentais. (…) Tudo sintomas da humilhação provocada pelas promessas quebradas de uma vida melhor, mais feliz e mais justa.