Uma denúncia contundente da armadilha ideológica que responsabiliza as mulheres pelo cuidado com as próximas gerações.
Notória especialista no tema da parentalidade, a psicanalista Vera Iaconelli apresenta sua contribuição mais radical para a crítica da ideologia que considera as mulheres insubstituíveis no cuidado com as crianças. Com clareza e concisão, a autora sublinha a dimensão política do trabalho reprodutivo, já que cuidar das novas gerações é uma tarefa imprescindível para a manutenção da sociedade. Neste Manifesto antimaternalista, ela lança nova luz sobre a teoria psicanalítica, revisitando autores como Freud, Lacan e Winnicott, e incorporando contribuições vindas dos estudos de gênero e das relações raciais, do pensamento decolonial e das reflexões sobre os efeitos do neoliberalismo na construção das subjetividades. O livro aborda a diferenciação entre gestar, assumir o parentesco e cuidar de uma vida, e, sem homogeneizar a categoria “mulher”, reconhece que a experiência da parentalidade é determinada por fatores como raça, classe, gênero e faixa etária. Para Iaconelli, os embates sobre o cuidado e a reprodução da vida são embates políticos ― e a psicanálise é uma arma da qual não podemos abrir mão.
Vera Iaconelli é psicanalista especializada em psicologia parental. Graduada pela em Psicologia pela Universidade São Marcos (UNIMARCO), é mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisa temas como a depressão pós-parto, o infanticídio e o período perinatal.
É conhecida do público por debater de forma aberta e livre de tabus os principais desafios enfrentados pelas mães na sociedade contemporânea. Vera denuncia as pressões para que as mães sejam infalíveis em seu papel e questiona como os filhos são afetados por uma educação cada vez menos comunitária, em que toda a responsabilidade recai sobre pais que muitas vezes não estão devidamente preparados para cumprir esse papel.
Em suas colunas para o jornal Folha de São Paulo, debate angústias e enfermidades psíquicas típicas de nosso tempo, partindo de assuntos do cotidiano para investigar como a vida em uma sociedade marcada pela aceleração e pelo enfraquecimento de muitos laços sociais pode afetar a saúde e o bem-estar dos indivíduos. Também é autora de livros como Manifesto antimaternalista, no qual desconstrói o lugar-comum segundo o qual as mulheres nascem prontas para a maternidade, como Criar filhos no século XXI e Felicidade ordinária.
Vera é diretora do Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal e Parental, o Gerar, e integra o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, além de participar dos Fóruns do Campo Lacaniano de São Paulo.
Eu nunca quis ser mãe e, com uma didática inconteste, alguns conceitos psicanalíticos e dados da sociedade brasileira atual, Vera me mostrou o por quê. Foi um alívio ler algumas partes desse livro e em outras não encontrei muitas novidades, mas me fez entender quase tudo o que eu penso sobre maternidade. Hoje essa afirmação inicial ganhou algumas dúvidas e outros contornos, mas consigo dizer que se um dia existir desejo, eu acho possível me ver sendo uma mãe possível.
avalio essa leitura com as cinco estrelas porque a autora fez um trabalho maravilhoso na escrita e ao cumprir, de forma magistral, o que é proposto na abertura. é um livro de uma tema magnífico que inclui, dentre as possibilidades de leitores, pessoas fora do círculo dos estudos psicanalíticos. tudo é muito bem amarrado e explicado!
“A reivindicação, muito eloquente por sinal, é de que as mulheres preferem ser pais de seus filhos. Ou seja, ocupar junto a eles o lugar reservado aos homens: amar, prover, cuidar, podendo se ausentar quando quiserem e manter uma vida pessoal. Entre a sexualidade, a liberdade e a ocupação igualitária do espaço público, de um lado, e a maternidade, de outro, as mulheres pós-revolução sexual de classes mais abastadas não encontram nem a expectativa social tão maciça nem as vantagens para escolher a identificação com a maternidade. Quando desejam ter filhos, não estão dispostas a fazê-lo sacrificando mais do que os pais sacrificariam.”
Impressionante como só conheci a Vera hoje. Ela tem tudo que eu gosto num livro de não ficção, robustez teórica, contrapontos a grande autores canônicos, uma penca de citações a outros livros (inclusive de ficção, especialmente um que estou lendo agora e ela me fez o favor de destrinchar o final) e, claro, ideias mastigadinhas para você massagear a nuca dos amigos em futuras discussões de bar.
Temos aqui sem dúvidas uma bela dissertação sobre como nossa sociedade encara a maternidade. Vera expõe as nossas hipocrisias com muita praticidade e embasamento. E faz isso com tanta assertividade que você termina o livro pensando: “mas é tudo tão óbvio, por que seguimos nesse caminho primitivo e ineficaz?”.
Uma aula! Nesse livro, Vera Iaconelli traz conceitos da psicanálise e do direito sem assustar quem não é da área. Com certeza ampliou minha visão sobre como enxergamos a maternidade e o porquê de a encararmos dessa forma.
Não existe família tradicional, nem "instinto" materno. São construções sociais que precisamos entender para estabelecer novas formas de parentalidade que incluam todos (pais, mães, cuidadores) e aliviem a carga emocional e social sobre mulheres. Embora seja baseado na prática da psicanálise, Vera Iaconelli criou um texto acessível mesmo para quem nunca estudou o tema. Recomendo principalmente a cuidadores que buscam exercer da melhor forma possível este papel de criar novas gerações.
Um livro necessário. A sociedade hoje cobra mulheres que sejam (e queiram ser) mães, profissionais, com sucesso e cuidado, e de preferência sem ajuda. A maternidade impossível carrega gerações na ilusão do papel único da mãe como detentora do poder de cuidar. A única teoricamente biologicamente armada para fazê-lo. Partindo do século XVII, o livro desconstrói a ideia do maternalismo pré-destinado a mulheres, propondo uma sociedade mais equilibrada. Embora o livro responda a certo estilo acadêmico, que infelizmente o afasta do alcance geral, traz ideias que tocam a todos. Me tocou profundamente. A sociedade das mães exaustas e pais frequentemente ausentes é insustentável, mas repetidamente real.
vera iaconelli consegue dispor de forma clara um grande percurso pela formação do humano em nós, consegue defender com clareza seu ponto de vista, consegue nos mostrar como o maternalismo se embrenha em tudo que vivemos na nossa criação e na nossa sociedade. gostei muito das referências em paul preciado, angela davis, silvia federici, entre outros teóricos que vão além da psicanálise pura, mantendo um diálogo constante com o social, com o estar no mundo real e material. ótimo livro
Gostei muito da leitura, alguns lugares-comum para quem já lê bastante sobre feminismo, maternidade compulsória, racismo etc. interessante as chaves de entendimento da psicanálise sobre o nascituro. Cansativo o esforço durante todo o livro de adoção uma linguagem politicamente correta.
Gostei da temática e da abordagem, mas como ela se repete durante o livro. As vezes parece que eu tinha lido exatamente a mesma frase em outro capítulo, e uma dessas vezes não foi só a sensação mas um fato de realidade.
Gostei muito, mas esperava mais do último terço do livro. Achei a conclusão um pouco pro forma, ainda muito restrita a um espaço seguro. De toda forma, me esclareceu vários detalhes sobre a construção do maternalismo no imaginário social.
‘’Manifesto Antimaternalista’’, escrito pela psicóloga e psicanalista Vera Ianconelli é um grito feminista, que tenta ser radical mas não consegue, sobre as ideias ‘’concretas’’ que temos em relação a parentalidade, maternidade e o que é ser uma mãe de fato, partindo de pressupostos sociais já estabelecidos como a responsabilidade que a mulher possui perante ao parto e cuidado das crianças. Sua forma de escrita e condução é tranquila, claro que por ser obra de uma mestrando em psicologia apresenta sim alguns (na realidade vários) momentos de dificuldade, onde se preza que o público tenha um conhecimento prévio em Lacan, Jung e Freud ou que pelos menos tenha dado uma olhada de relance em outros livros de psicanalise ou psicologia semelhantes. Não é um livro feminista, mas sim um livro que aborda o feminismo sobre a questão psicanalítica e de análise antropológica. Infelizmente, notasse um tom embargado por uma política de identidade puramente capital e neoliberal durante as frases do texto, o que gera uma certa despersonalização da palavra MULHER em troca da identificação de certos grupos que contribuem sistematicamente e subconscientemente CONTRA os direitos femininos básicos. Em resumo sincero, se fosse um livro sobre feminismo radical, seria um livro perfeito, como não é, é ruim. Seu conteúdo é longo em tamanho e seu léxico é exagerado, possui partes desnecessárias com o contexto anexado ao estudo e existem melhores recomendações para se procurar. Se me esforçasse na defesa da obra, poderia dizer que este exemplar é sim uma boa recomendação de introdução a um publico novo no ramo do direito público/privado feminino ou até da psicanálise sobre um viés feminista. No fim, o livro vale a pena dependendo do tipo de público que você se categoriza.
Com um imenso alívio e olhos cheios de lágrimas termino esse lindo manifesto.
Necessário para aliviar a culpa, as noites sem dormir tentando dar conta de uma expectativa irreal e injusta ao trabalho invisível da mulher. Ler historicamente a construção desse plano tão bem desenvolvido da lenda do instinto materno e do amor que vem assim que vemos o positivo que serve a um líder e tem um nome: patriarcado. A injustiça da sobrecarga feminina e do papel secundário que se coloca o homem na maternidade / parentalidade, que é alívio para uns e injustiça para outros e que não servem mais nem as mulheres, nem a sociedade. O respiro de ler que o amor e instinto feminino ao lugar único do cuidado é uma construção social e se eu não sinto, não me faz menos mulher. Alívio em ver que estamos repesando e discutindo esses papéis. Maravilhoso, emocionante e muito interessante.
Meu primeiro contato com a escola de pensamento da psicanálise, então foi enriquecedor para além do tema tratado em si. O livro é super didático, não tive nenhuma dificuldade apesar de não conhecer os conceitos sendo empregados. Queria que alguns pontos tivessem sido um pouco mais desenvolvidos, como a questão do instinto materno e do trabalho não remunerado das mulheres, mas acho que isso caberia a um outro trabalho que complementasse essa visão psicanalítica sobre o tema. Muita coisa não é novidade, mas é bom para organizar o pensamento sobre o tema, que é super relevante. Recomendo!
Esplêndido. Bastião de uma psicanálise contemporânea alinhada com reivindicações sociais feministas, do movimento negro e LGBT+. Dotado de uma linguagem sensível, cuidadosa, acessível que ilustra um trabalho de pesquisa muito preocupado e traz apontamentos importantes para a humanidade - de como cuidar das gerações futuras - em um momento que o pacto simbólico que nos une parece na iminência de ruir diante de uma cultura individualista e neoliberal.
Que livro maravilhoso! Vera nos presenteia com um panorama histórico e psicanalítico que explica e nomeia os desafios da maternidade nos dias de hoje. Sempre considerando a diversidade de classe, gênero e raça, ela traz questionamentos importantes, muitos ainda sem respostas, que exigem a nossa reflexão e crítica para que possamos construir uma maternidade mais possível. Achei a linguagem acessível para leigos/as e entusiastas da psicanálise, como eu! Recomendo muito a leitura!
O livro me intrigou primeiramente pelo título, e conseguiu me prender com a argumentação do porquê esse manifesto é mais do que necessário. Pensar a maternidade como uma movimento cultural, capitalista é de suma importância para construirmos um lugar de maternidade que seja sustentável e possível para as próximas gerações. Amei demais!!!!
Achei bastante teórico e pode nao agradar a todo mundo, mas como eu estava com saudades de ler livros assim, eu adorei! Ela traz algumas informações históricas que eu não conhecia e fiquei bastante chocada (sobre a forma como viam crianças e maternidade na Europa do século XVIII por exemplo). Vale muito a leitura para quem, assim como eu, questiona a maternidade.
Leitura densa, indigesta, mas muito necessária. Apesar de um discurso bem focado na psicanálise, o que pode ser mais difícil para quem não tá familiarizado com o tema, traz pontos relevantes de reflexão sobre a maternidade.
Fraco. A autora fala em déficit populacional. Mal sabe que vivemos num mundo hiper povoado. Uma ignorância sem tamanho. Como todo psicanalista, vive nas nuvens do inconsciente sem sentido. Uma decepção.
as contradições do maternalismo, as ideias-padrão do cuidado e de instinto materno, a capacitação para a parentalidade e distinção entre genitoridade, perinatalidade e parentalidade.
Maravilhoso. O livro busca responder a questão se a maternidade é instintiva, sempre em um contexto histórico econômico e social e a luz dos conceitos psicanalíticos.