Se nas comemorações dos 500 anos do descobrimento as atenções se voltam para Portugal e os descobridores, Antônio Torres joga um holofote sobre a violência e arrogância dos primeiros portugueses que por aqui aportaram e a brava resistência dos índios. Em Meu querido canibal, Torres se debruça sobre a vida do líder indígena Cunhambebe para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Considerado o mais valente dos nativos que lutaram contra a "escravidão ou morte" proposta pelos colonizadores, Cunhambebe, que, presumivelmente, morreu entre 1554 e 1560, era o mais temido e adorado guerreiro índigena e sua vida acabou sendo envolta em mitos.
E para contar a história deste homem-lenda, Antonio mergulhou nos arquivos da história do Brasil. Com rigor histórico, mas narrada com a verve literária de Torres, o livro acompanha a criação, apogeu e massacre da Confederação dos Tamoios, a organização social das tribos, o modo de vida, a ligação com os piratas franceses, o papel ambíguo de Anchieta, as mentiras e trapaças dos conquistadores, a fundação sangrenta da cidade do Rio de Janeiro, entre muitos outros temas que não estão nos livros escolares.
Antônio Torres nasceu em 13 de setembro de 1940 em Junco, um povoado no interior da Bahia. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde ingressou no Jornal da Bahia. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem do caderno de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator publicitário em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972,com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, que já foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto e Meu querido canibal. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts et des Lettres. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e em 1997 o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 2000, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Meu querido canibal lhe rendeu o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Literária de Passo Fundo, em 2001.
A história das guerras indígenas entre o que é hoje os estados do RJ e SP é interessante, sobretudo quanto à Confederação dos Tamoios. Porém, os recursos estilísticos empregados simplesmente não funcionam, com destaque para as forçadas tentativas do narrador de soar coloquial ou "descolado". A narração historiográfica e a contemporânea não são harmonizadas, o recurso de narrar parte desta na terceira pessoa (você), não faz o menor sentido, além de incluir clichês como (sim, acreditem) descrições da orla da cidade do RJ.