Em Caixa-preta, Ivan Sant'Anna reconstitui três desastres que entraram para a história da aviação brasileira: O Boeing 707, que decolou do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, para um voo de 14 horas rumo a Orly, na França (1973); Ponte aérea Brasília-Belo Horizonte-Rio pilotado por Murilo de Lima e Silva, que naquele dia comandava o VP-375, até que um dos passageiros, armado, ordena que o avião seja espatifado no Palácio do Planalto (1988) e o desastre do avião que ficou perdido em algum ponto entre Marabá e Belém, num voo cego comandado por Cezar Augusto Garcez (1989).
Partindo de um amplo trabalho de pesquisa e uma série de entrevistas, faxes, e-mails, telefonemas, cartas, documentos e laudos, o autor reuniu informações inéditas sobre os episódios e traçou, com mestria de ficcionista, os instantes que antecederam os vôos, acompanhando os principais personagens, retratando os momentos de pânico em que cada um viu a própria vida em risco.
Trata-se de uma obra de não ficção que retrata de forma detalhada três acidentes aéreos emblemáticos envolvendo o Brasil ou ocorridos com voos que partiam do país. A narrativa do livro é altamente envolvente, apoiada em uma pesquisa minuciosa que combina jornalismo literário com apuração rigorosa, trazendo uma reconstrução vívida e respeitosa de cada tragédia. Iva Santana é apaixonado por aviação e possui experiência como piloto amador, o que contribui para a profundidade técnica e a sensibilidade emocional presentes na obra. A escrita dele consegue transmitir toda a angústia, medo e revolta que as vítimas, passageiros e tripulação sentiram durante esses momentos críticos, fazendo o leitor se sentir dentro da cena, quase como se estivesse assistindo a um filme ou vivenciando a situação.
O primeiro caso abordado é de um voo de 1973 que saiu do Brasil com destino a Paris e que, devido a uma bituca de cigarro descartada de forma incorreta, pegou fogo dentro da aeronave. O incêndio se espalhou rapidamente devido aos materiais utilizados na construção do avião, levando a uma emergência de pouso em uma área rural na França. A descrição detalhada do autor faz o leitor quase sentir a fumaça tóxica e o desespero dos passageiros, com uma narrativa que dá a impressão de que o incidente durou horas, embora tenha acontecido em poucos minutos. Foram 123 mortos nesse acidente, e apenas um passageiro conseguiu sobreviver, além de toda a tripulação. O piloto tentou ao máximo evitar vítimas, realizando manobras de emergência que demonstram seu senso de responsabilidade e heroísmo. A escrita de Santana torna essa experiência angustiante ainda mais vívida, mostrando não só os aspectos técnicos do acidente, mas também o impacto emocional de quem viveu aquele momento.
O segundo caso é de um sequestro ocorrido em 1988, envolvendo um avião que viajava entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O sequestrador era um trabalhador comum, um tratorista do Maranhão, desesperado contra o governo brasileiro na época, que invadiu a cabine armado e ameaçou o piloto, obrigando-o a voar até Brasília. O sequestrador era inexperiente e nervoso, e o medo e o nervosismo dele acabaram levando à morte acidental de uma pessoa a bordo, o que aumentou a tensão da situação. Nesse episódio, a narrativa destaca a estratégia psicológica do piloto para manter o controle, enquanto as autoridades lidaram de forma desastrosa com a crise. A situação revela a coragem do piloto, que realizou manobras inéditas com o avião — ações consideradas até então impossíveis para aviões comerciais — na tentativa de salvar vidas. O caso evidencia também a fragilidade das normas de segurança da época e o impacto emocional de uma situação de extremo risco, além de explorar a complexidade psicológica do piloto, que tinha que equilibrar emoções, medo e responsabilidade numa situação desesperadora.
O terceiro episódio, que fecha o livro, é de um voo de 1989 que se perdeu por causa de uma vírgula mal interpretada na rota de voo. O piloto, ao interpretar erroneamente uma instrução, desviou-se da rota correta, levando o avião a ficar desaparecido por horas. Os passageiros perceberam a confusão ao longo do voo, o que gerou uma ansiedade crescente, e a narrativa retrata esse clima de tensão, medo e angústia, que se intensifica até o voo ser localizado. Santana consegue transmitir toda a angústia dos passageiros, que enfrentaram horas de incerteza, além do esforço do piloto para tentar retomar o controle e evitar uma tragédia maior. O episódio mostra como um erro aparentemente banal — a interpretação errada de uma vírgula — pode gerar consequências catastróficas, além de abordar o sofrimento das famílias envolvidas e o papel da mídia na cobertura dos acidentes.
Ao longo do livro, temas como responsabilidade, nervosismo, erro humano, fatores técnicos e o impacto emocional das tragédias são explorados de forma sensível e profunda. A narrativa de Santana destaca o papel do fator humano na condução das aeronaves, a importância do treinamento e a pressão psicológica enfrentada pelos pilotos em situações extremas. A obra também revela as falhas das autoridades na tentativa de negociar com sequestradores, além de mostrar a coragem e o senso de justiça dos pilotos que, muitas vezes, precisam tomar decisões rápidas e difíceis para salvar vidas. A escrita do autor é altamente visual, quase cinematográfica, fazendo o leitor imaginar cada cena com detalhes vívidos, o que provoca emoções intensas e até sonhos relacionados às histórias narradas.
A obra é recomendada para quem gosta de histórias reais, bem escritas e que envolvem o universo da aviação, embora possa não ser indicada para pessoas com medo de voar, devido à carga emocional. O livro está disponível na plataforma Kindle a um preço acessível, o que torna a leitura ainda mais atrativa. A resenha destaca também a importância de reconhecer o talento de Iva Santana, que além de autor, foi roteirista de programas de televisão, incluindo o famoso Linha Direta, o que demonstra seu talento para apurar crimes e histórias dramáticas com rigor e sensibilidade. A obra "Caixa Preta" se apresenta como uma leitura impactante, que combina investigações minuciosas, emoções humanas e uma visão técnica aprofundada, contribuindo para resgatar e refletir sobre a história do Brasil na aviação e os limites do ser humano diante de situações extremas.
Um avião em chamas pousa em um campo de repolhos, a apenas alguns minutos do aeroporto de Orly, na França; um piloto ameaçado por um sequestrador armado realiza manobras impossíveis em um avião comercial para evitar um "11 de setembro" à brasileira; um avião se perde na noite em cima da floresta amazônica, a mais de 1.000 km de seu destino final, sem nenhuma indicação de onde estava, apesar de ter se mantido o tempo todo em contato com a torre de comando e com outras aeronaves. Ivan Sant'Anna narra 3 dos mais famosos acidentes aeronáuticos brasileiros: o voo Varig 820, que seguia em direção à Londres, com escala em Orgy, e teve que realizar um pouso forçado, praticamente às cegas, devido a um incêncio causado por uma bituca de cigarro no banheiro do avião; o sequestro do voo VASP 375 que seguia de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, quando Raimundo Nonato, de arma em punho, sequestro o avião e matou o copiloto Salvador Evangelista, exigindo que o piloto Murilo levasse o avião para Brasília e o jogasse no Palácio do Planalto; e o pouso de emergência no meio da floresta amazônica, após um erro impensável na rota, ter guiado o avião para o lado completamente oposto de seu destino, ao invés de completar sua rota Marabá-Belém, os pilotos levaram o avião para a região do Xingu e rodaram às cegas até o combustível acabar. Com uma maestria excepcional, Ivan nos transporta a cada uma das aeronaves, nos guiando segundo a segundo pela tensão que se espalha aos poucos pela tripulação e passageiros até chegar em um clímax insuportável. Conhecemos um pouco de cada um dos personagens da história. Nos envolvemos com os verdadeiros heróis que cada uma das narrativas trazem, pessoas altruístas ultrapassando seus próprios medos e dores para ajudar seus companheiros, as vítimas que tinham tanto para contribuir, para viver. Tantos planos interrompidos, tantos rumos inesperados a serem tomados. Um livro muito emocionante, magistralmente narrado e pesquisado com afinco. Uma leitura da qual não se sai da mesma maneira que começou!
A riqueza de detalhes de Ivan Sant'Anna ao narrar os acidentes é um soco no estômago dos mais sensíveis e de imaginação fértil. É impossível não querer saber mais sobre os desastres após ler cada uma das histórias. Impossível não sentir empatia com os sobreviventes de qualquer um dos desastres após a leitura.
Que livro! Você que ama aviação não pode deixar de lê-lo. São três acidentes ricos em detalhes, em que leigos podem compreender. Me marcou muito, tirou lágrimas e aumentou meu amor pela aviação.
O relato de três acidentes aéreos marcantes da aviação brasileira: o pouso forçado de um voo com destino a Paris pouco antes de chegar ao aeroporto por conta de um incêndio; um avião sequestrado que o captor desejava ver atirado sob o palácio do planalto cujo destino fatal foi evitado pelas ousadíssimas manobras de seu comendante; e um voo em que o piloto errou na navegação e conseguiu realizar um pouso forçado em plena selva amazônica. O autor se esforça para humanizar as histórias, conseguindo criar um livro interessante, apesar de alguns erros de revisão do livro, como escrever briefing como breafing. Recomendo a quem goste de aprender sobre aviação por meio dos erros havidos.
"Comecei hoje, dia 14/10/2021. Não me recordo em ler algum livro com teor investigativo além do título sobre a ditadura militar. Mas, espero muito gostar." "Achava que era "mais um livro". Não me recordo se o autor é jornalista, mas ele tem um cunho investigativo muito bom... Diga - se de passagem. Estou adorando, ele narra todos os detalhes que ele conseguiu apurar e olhem, não é por nada não, mas é muito bem escrito." "Está sendo muito gostoso a leitura." "Maravilhoso, rico em detalhes." "Muito bom." "Na vdd, na minha avaliação o total é de 3,5 estrelas".