Descalabros descritos por pena tranquila
É leitura bastante diferente e ouso dizer, rara leitura. Crónica do rei Pedro I, de Fernão Lopes, escrita por volta dos anos 1430. É um texto bem curioso sobre dois reis Pedro, o português e o castelhano. Ambos cruéis e dados à violência. O Pedro castelhano é particularmente perverso. O livro inteiro é uma longa coleção de pessoas sendo terrivelmente punidas, enforcadas, decapitadas, flechadas, afogadas, esfaqueadas, espancadas, amassadas, queimadas e mais coisas que o valha. No entanto tem algum charme nisso tudo, não só no conteúdo mas em como Lopes nos relata os descalabros. Usa um estilo muito casual e preciso e nos informa de tudo sem cerimônia. Não esperava esse tom num documento oficial do século XV.
Alguns dos eventos que ele nos conta são bastante memoráveis. Em um episódio particularmente interessante o Pedro castelhano usa caravelas e batéis para transportar seu exército para sitiar uma determinada cidade. O cerco não sai como planejado e ele ordena logo que todos os homens, incluindo os marinheiros, fossem à terra ajudar. Passado um tempo, ao anoitecer, vento forte empurra a maior parte dos barcos contra as rochas e como ninguém estava de piloto na frota, perde a maior parte dela neste acidente idiota. Outros tantos barcos ele acaba por queimar por temer que seu inimigo seja capaz de aproveitar depois da sua retirada. Lopes informa-nos casualmente que alguns daqueles barcos eram de Génova e os marinheiros genoveses tiveram de regressar a pé para casa 'e ficaram muito aborrecidos com isso'.
Também interessante é seu senso de justiça. Não passa da pura vontade de punir. Conta-nos vários episódios em que o Pedro português sai a castigar adúlteros, ladrões e assassinos. Esse Pedro gostava de percorrer seu reino, perguntando se andava ali algum criminoso agendado para ser punido naquele dia e se houvesse, ele mesmo, com muito gosto, executava a punição. Acontece que este rei Pedro andava com um porrete para todo lado que fosse, sempre preparado para o caso do lugar visitado haver criminoso precisando de trigosa surra. Ele também gostava de assistir aqueles castigos sendo executados enquanto jantava. Imaginem só. Lopes também é rápido em apontar que os ricos, poderosos e mesmo aqueles próximos ao próprio rei não estavam livres de sua justiça. Ele nos conta sobre dois dos escudeiros reais que roubaram e mataram um judeu e como Pedro mandou decapitar ambos, mesmo sendo escudeiros seus e a vítima um judeu. Também castrou vários homens por dormirem com mulheres casadas. Às vezes ele enforcava as mulheres também, só pra garantir.
As pessoas retratadas são tão pitorescas em seu comportamento que é fácil esquecer que foram reais e a maioria dos eventos se passaram realmente. Fernão Lopes não foi só o cronista oficial do reino de Portugal, mas também o guardião da Torre do Tombo e tudo o que nos conta encontrou descrito com muito cuidado em documentos legais. A barafunda toda é fascinante. Não é das mais fáceis de ler porque o seu português tem 600 anos mas vale a pena. Gosto bastante do seu porte, da sua escolha de palavras e das histórias. Duas outras crônicas por sua mão sobreviveram. Crônica do rei Fernando I, que continua após a morte de Pedro I e a coroação de seu filho Fernando, e Crônica do rei João I, rei de outra dinastia de quem Lopes foi contemporâneo. Estou planejando ler ambas.