[Spoilers] A morte não é no estádio e o romance acaba por ter muito pouco a ver com o mundo da bola. A minha antipatia começou logo aí, não gosto de ser levado ao engano e tudo no título e capa sugere um policial futebolístico e no máximo roça o futebol e roça o policial.
Os dois inspetores da PJ, que se confundem, estão mais interessados em comida do que em investigar o homicídio em mãos. O gerente do bar, que ganha um destaque inusitado no livro, está interessado em partilhar conhecimentos aleatórios sobre a Irlanda. Tudo isto, seja a Irlanda, culinária ou ainda os Açores, é referido com uma nostalgia chata e um pedantismo insuportável. Os "outros" nunca sabem apreciar a boa cozinha, valorizar um bom vinho ou reconhecer um bom wiskey irlandês, todo um mundo de coisas boas no limiar do desaparecimento e já só valorizado pelos próprios.
Os personagens são muito pouco convincentes, os inspetores ora são uns duros pouco interessados na vítima, ora impressionam-se muito com sangue e outra morte de um desconhecido os obriga a exéquias fúnebres.
Toda a gente no livro tem uma filosofia de pacotilha pronta a ser partilhada por meias-palavras, chega-se ao prédio da vítima e a porteira filosofa também, sempre por indiretas, nunca ninguém dá uma resposta objetiva. Pelo meio há ainda algum name-droping e elogios a colegas (do autor) da imprensa, que soam a product placement.
Só não desisti da leitura, tentação que se manteve aliciante até às últimas páginas, porque olhando para o pequeno volume pensava no alívio que seria escrever este texto a maldizê-lo. Frases do último capítulo como "acabara de iniciar a fritura da cebola numa frigideira que retirara, previamente, de um armário" (não fosse o leitor pensar a retirada do armário foi posterior à fritura) mostram que foi um erro insistir na leitura até ao fim.
Mas se o ambiente e tom do livro podem ser uma questão de gosto, e admito que haja quem goste destas melancolias pedantes a sugerirem crise masculina de meia idade, creio que será indiscutível classifica-lo como um péssimo policial. Nunca existe uma amostra de suspense, vagos indícios de resolução do crime surgem só depois de mais de 2/3 da trama, cujo desenlace fica também no ar, para o leitor que o quiser imaginar como lhe apetecer.
Escrito o texto fica claro que o alívio proporcionado não compensou o tempo perdido com esta leitura que apenas atrasou outras mais aprazíveis. Às vezes abandonar é mesmo o melhor remédio.