E um dia o carrasco foi executado. A noite anterior foi de tormentos e de luz intensa. Nada estava ainda preparado para o golpe final, e já não era ele que o teria que preparar. Técnica. Não se sabe. Parece que houve um momento em que se apercebeu de tudo o que não tinha sido. É esse o momento em que se é outra pessoa. E deu-se conta das notas soltas da sua cabeça ainda intacta, muito embora as não tivesse sequer, nunca na vida, formulado. Parece.
Sérgio Godinho é um poeta, compositor e intérprete português.
Como autor, compositor e cantor, personifica perfeitamente a sua música “O Homem dos 7 Instrumentos”. Multifacetado, representou já em filmes, séries televisivas e peças teatrais. A Dramaturgia surge com a assinatura de algumas peças de teatro assumindo-se também como realizador.
Este conto pode resumir-se logo na primeira frase. “E um dia o carrasco foi executado.” É a reflexão de um homem que mata e, como é natural a todos os homens, também morre. Há aqui alguns momentos de escrita que valem apenas por aquilo que dizem, em termos filosóficos, mas, como um todo, o conto não chega a ser verdadeiramente interessante. Poderia ter sido se, por exemplo, o autor tivesse desenvolvido/clarificado um pouco mais as circunstâncias específicas que ditaram a morte do carrasco.
Primeira experiência na leitura de ficção do conhecido cantor, compositor e actor Sérgio Godinho.
Narra os pensamentos de um carrasco antes da sua própria condenação à morte. Da vida que teve, o ofício que teve e a relação funcional com a Morte:
"No momento de dar alguém à morte, apago todas as circunstâncias. Não há choro nem prece nem pensar nem rebate furioso da culpa nem resignação nem vontade de viver e muito menos presunção de inocência ou gritos de instigação que me façam estremecer. ‘A ética está na lei.’ Acredito por contrato nisto. Executo à hora marcada."
"Ou não fosse o meu trabalho uma forma assistida de suicídio."
Após executar um condenado à morte que conhecia, comete o seu primeiro crime de homicídio e é condenado à morte. Essa situação coloca-o na posição do Outro e força-o a ponderar sobre o seu passado, a vida, a morte, o significado do seu trabalho como carrasco.
Este conto, narrado na primeira pessoa por um carrasco condenado à morte, é uma reflexão sobre o valor da vida e da morte, sobre o não questionar, sobre sobreviver. Este carrasco conta ao leitor o que o levou a aceitar a profissão, como se imunizou para o que fazia não o afetar e algumas ideias sobre a evolução da profissão.
Gostei especialmente da escrita neste conto. Não conhecia Sérgio Godinho como escritor e fiquei bem impressionada. Não fiquei plenamente cativada pela personagem principal ou muito convencida pelos seus motivos, mas prossegui a leitura, embalada pela musicalidade das palavras. Fiquei com vontade de ler mais coisas do Sérgio Godinho.
Este conto é uma leitura interessante em que se explora a mente de um carrasco que revê a sua vida no momento em que está prestes a ser submetido à pena de morte. A ironia da vida parece fazer algum sentido na cabeça do homem que vai ligando os pontos e explicando a si mesmo - e ao leitor - como é que tudo levou a esta situação. Não é um conto que me traga especial novidade, mas é sem dúvida uma leitura agradável na qual alguns pensamentos se destacam da narrativa e suscitam uma reflexão sobre o matar e o morrer.
Os meus comentários a todos os contos da colecção estão publicados no meu blog.
Achei um enredo bastante original e Sérgio Godinho surpreendeu-me com a sua escrita fluída e muito fácil de seguir. É um texto com algumas afirmações que convidam a reflexões mais cuidadas e no final, acabamos por perceber que por muito que lutemos, o tempo acaba sempre por passar por nós.