Ao acompanhar a vida de Francisco, o personagem central deste romance, ao longo das suas escolhas, da sua procura, ao acompanhá-lo ao longo das suas deambulações pelo mundo, pela história, ao sabor dos acasos e encontros e, muito especialmente , da intimidade de algumas mulheres cúmplices da mesma procura, o autor instaura uma forma de questionamento radical. Radicalidade que decorre do facto, inédito na sua escrita, de ser toda uma vida que é posta em balanço, tendo por contraponto esse limite que é a morte. Deus? Possivelmente. Mas um deus que ri, joga, um deus apaixonado pela pura alegria de existir.
António Alçada Baptista nasceu em 1927 na Covilhã e faleceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 2008. Licenciado em Direito, esteve ligado ao jornalismo e à edição. Em 1971 publica o seu primeiro livro de reflexões Peregrinação Interior; Peregrinação Interior II, publicada em 1982. Seguiram-se entretanto as obras O Tempo Nas Palavras; Conversas Com Marcello Caetano e Os Nós e os Laços. Catarina ou o Sabor da Maçã; Tia Suzana, Meu Amor e O Riso de Deus. A Pesca à Linha - Algumas Memórias, um livro que se assume como uma obra de memórias, recordações, lucidez e ironia, e à qual não é alheio o profundo sentido afectivo que caracteriza a escrita deste autor. Como cronista e defensor da liberdade Alçada Baptista publicou em Outubro de 2002 Um Olhar à Nossa Volta, o testemunho de uma vivência colectiva registada na década de 70 e 80 marcada por inquietações político-sociais. Mais recentemente A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações.
Confesso que andei a procrastinar neste livro. A inicio prendeu e despertou o interesse por mais, tendo por base a história, memória e sentir de um homem com um gosto próprio pela vida. A meio foi quando a coisa começou a complicar e a coisa ficou meio enfadonha. O fim foi, para mim, uma delicia. A simples forma de vida com a compexidade do pensamento humano, faz deste um livro que deve estar visivel na cabeceira.
Francisco estava no início de uma carreira promissora como Delegado do Ministério Público em Goa, quando por notícia da morte de seu pai decidiu mudar o rumo da sua vida.
Estabeleceu a partir desse momento uma busca pelo equilíbrio do seu íntimo, procurando-o na intimidade das relações que foi cultivando com diversas mulheres, a quem tinha a capacidade de transmitir imensa tranquilidade.
António Alçada Baptista, um nome incontornável da literatura portuguesa, leva-nos ao longo da sua análise das questões fundamentais da vida, ela própria finita, àquilo que poderá ser o maior prazer de Deus: Rir-se com tudo aquilo que nos acontece.
“A energia que cada um possui e o faz ser o que é, tem um potencial e uma qualidade diferente de pessoa para pessoa, é mais do que uma aptidão ou uma vocação: é um acervo de conhecimento que já foi aprendido e que, muito possivelmente, vamos transmitir a alguém”
De António Alçada Baptista (AAB) lera o ternurento Tia Suzana, Meu Amor (1989) e a breve evocação da infância Uma Vida Melhor (1984), de que guardo, em especial do segundo, uma boa memória de leitura. Este Riso de Deus, enquanto obra literária é trágico; como tese, patético. AAB não tem oficina. O estilo é paupérrimo, croniquetas marie claire, de resto, muito praticado pelo autor; a estrutura do romance é um desastre, um pastelão que provoca um longo bocejo; os diálogos são aborrecidos solilóquios. Passamos a metade do livro e perguntamo-nos por que raio estamos a perder tempo com ele. Depois, umas banalidades perigosamente próximas do tom auto-ajuda e umas angústias muito marcadas pelo peso da religião que, para quem como eu é ateu se tornam risíveis e/ou irritantes, embora as compreenda, criado que fui em ambiente de catolicismo formal. É um livro de um agnóstico com remorsos ou, pior ainda: a autojustificação (auto-desculpabilização) de um crente. No meio deste bocejo, algumas partes conseguidas (a carta a Rosa, por exemplo) e umas quantas ideias interessantes: o elogio da inutilidade, contraposta à fúria competitiva emanada da ideologia utilitária das sociedades mercantis modernas; as memórias da infância (ponto forte do autor) e dum tempo provinciano já morto; o enaltecimento do género feminino, com sensibilidade e/ou intuição assinaláveis e consequente rejeição do estereótipo marialva, bem presente na nossa cultura; uma necessidade de transcendência que não se fica pela Igreja, mas que vai mais além, ao simbólico e ao metafísico. São estas ideias que valem o livro -- nada que não se possa encontrar em grande literatura.
Este livro inquietou-me. O que me incomodou não foi a promiscuidade de Francisco, mas a forma como ela é romantizada e transformada numa espécie de procura existencial. Um jovem burguês que pode fazer do desejo e da sucessão de mulheres uma aventura filosófica. Há ainda, na atitude de Francisco, uma espécie de noblesse oblige aplicada à própria vida sentimental,uma consciência quase aristocrática do seu lugar no mundo, que acaba por tornar a personagem ligeiramente afetada, como se até a sua promiscuidade tivesse de assumir uma forma nobre para ser justificada. Mais do que machismo, senti aqui uma romantização do privilégio masculino e uma certa afetação na maneira como esse privilégio é transformado em inquietação filosófica.
"Possivelmente, o amor continua a chamar-nos do centro do labirinto e nós andamos às voltas sem sermos capazesde o encontrar. Porque o labirinto não é um jogo: é a defesa mágica dum centro, duma significação, e talvez seja necessário despojarmo-nos de muitas coisas e tornar a vestir as vestes da inocência para que o amor nos possa ser revelado."
"Porque nós não nos pomos no lugar do outro: temos é que descobrir o que o outro acorda em nós."