A obra de Habermas é uma análise crítica da intersecção entre ciência, técnica e sociedade, destacando como esses elementos se combinam para perpetuar a dominação de classe. Desde o início, Habermas ressalta que ciência e técnica se unem em uma racionalização autoritária, formando um campo que serve ao 'progresso' (desenvolvimentista), bem como à manutenção de estruturas de poder.
O autor reformula conceitos do materialismo histórico dialético, focando menos em contradições e mais em simbioses, e destaca que, no capitalismo tardio, as interações sociais são mediadas simbolicamente, resultando em uma complexa relação entre economia, Estado, família e parentesco. A crítica que ele faz à ideologia, sempre com aspas, revela sua visão de que esta não surge da base do trabalho social, mas da incapacidade de reduzir a lógica institucional a uma mera lógica de fins.
Habermas também se depara com o desafio de dialogar com as tradições filosóficas de Hegel e do marxismo, reconhecendo a importância da linguagem e da intersubjetividade. No entanto, ele critica o idealismo absoluto hegeliano, rejeitando a ideia de um espírito totalizante e teleológico. A consciência, segundo Habermas, se forma na interação social e histórica, transformando a dialética em um processo democrático de discurso.
Apesar de suas contribuições relevantes, sua linguagem é hermética e muito crente nas instituições democráticas do sistema que diz se opor. Fica a sensação de que sua teorização, de tanto subverter o materialismo histórico, se torna mais subserviente ao capital do que realmente agente de mudança. Afinal, estamos falando de um autor reformista. Sobra filosofia e falta pesquisa empírica para corroborar boa parte de seus supostos teóricos.
O alerta de Habermas sobre as pressões da modernidade, que instrumentalizam as relações familiares e transformam ambientes de comunicação em estruturas de consumo, destaca sua preocupação com a despolitização e a alienação do indivíduo. Embora Habermas tenha uma pretensão crítica, não consegue enxergar a família como um ponto de origem de diversas problemáticas. Tenho que discordar, não vejo a família como um lugar passível de reforma, mas de abolição. A família não existe sem exploração, sem desigualdade de gênero. O conceito de família, que só existe a partir do conjunto de escravos, servos e patriarca, é tratado pelo autor como um espaço vitimado pela modernidade. Como se a família fosse meramente transformada pelas dinâmicas econômicas do capitalismo tardio e não ela que organizasse a divisão do trabalho e de classes. Há uma interdependência dialética de influência mútua, é claro, mas falta muito materialismo na análise de Habermas.
Isto tudo é extremamente irônico já que para Habermas, a distinção entre interação e trabalho é crucial na análise das dinâmicas sociais. A interação refere-se ao aspecto comunicativo das relações sociais, no qual os indivíduos se engajam em diálogos e negociações, permitindo a construção de significados e a formação da opinião pública. Por outro lado, o trabalho está relacionado à produção material e às relações de produção, refletindo as dinâmicas de poder que permeiam a sociedade.
Habermas acertadamente critica a neutralidade axiológica da ciência, argumentando que essa postura contribui para uma alienação que distancia os indivíduos das estruturas sociais que os moldam. Em Conhecimento e Interesse, Habermas pontua que todo conhecimento é influenciado por interesses humanos, moldando tanto a investigação quanto a interpretação dos dados. Essa perspectiva critica a redução do conhecimento ao interesse técnico, subestimando suas dimensões práticas e emancipatórias.
O autor também examina a fenomenologia, reconhecendo sua ênfase na experiência subjetiva, mas argumentando que ela não abrange a análise das estruturas sociais que moldam essa subjetividade. Em última análise, seu trabalho convida o leitor a refletir sobre a autoalienação e a necessidade de resgatar a capacidade de agir criticamente em um mundo onde ciência e técnica frequentemente são usadas como instrumentos de controle. A ciência é usada para moldar a opinião pública em vez de fomentar uma compreensão mais ampla das questões políticas. Os diversos especialistas que aparecem opinando pela grande mídia demonstram este fenômeno.
De fato, a ciência e a técnica não são neutras. Este ponto não é necessariamente um argumento original de Habermas.