Quando, há pouco menos de três anos, com ele me cruzei pela primeira vez, J. Rentes de Carvalho constituiu uma extraordinária descoberta. “Montedor”, “O Meças” ou “Ernestina” deram-me a ver uma escrita cuidada, marcadamente autobiográfica, muito generosa do ponto de vista cénico, a vida olhada sob o filtro da memória e transformada em paisagens romanceadas de uma enorme consistência e verdade. Vieram depois “Com os Holandeses”, “Mazagram” e, muito recentemente, “No Pais do Solidó”, e fui sendo tomado pela desilusão. Destas leituras sobraram ideias repisadas sobre o inevitável embate entre portugueses e holandeses, deixando a descoberto a visão de um homem aparentemente mal-humorado, desagradável, agastado com ninharias, pouco à vontade com a realidade do presente, conservador, retrógrado. “La Coca”, porém, veio reconciliar-me com o autor.
Percorrendo os meandros do contrabando que, ainda hoje, unem o Minho e a Galiza, o livro remete para uma investigação jornalística levada a cabo pelo próprio autor. Narrado na primeira pessoa, “La Coca” vem mostrar-nos como se passou do tabaco e do whisky para o narcotráfico, a ganância a determinar esse desvio. Sem rodeios, aproximamo-nos de nomes como o Feio, o Tito Cadafé, Sito Miñanco, Oubiña, Galeano, o Zézé Cadaval, o Pepe Mustafá, o Laurestim, os Viriatos, os Charlines, todos iguais, todos parentes de sangue, tendo na vida apenas um fito, a riqueza, reconhecendo uma única lei, a sua própria. Viajando entre os dois lados da fronteira, o autor mostra-nos as casas luxuosas de quem, ainda ontem, esmolava pelas ruas, leva-nos a uma sala de audiências onde decorre o julgamento de um suspeito de narcotráfico, faz-nos perceber de que forma os traficantes exploram as falhas na lei, apresenta-nos as “voadoras”, os locais de embarque e desembarque da droga, os pontos de encontro dos indivíduos ligados ao tráfico, as artimanhas para ludibriar a vigilância da polícia.
Esta vertente de investigação na qual o livro assenta, bem como as revelações que encerra, não são, porém, os grandes trunfos de “La Coca”. Visitando os “locais do crime”, o autor reencontra-se com o seu próprio passado, a aventurosa adolescência entre Lanhelas e Gondarém, o Minho espraiado aos seus pés, os relâmpagos de memória “tão vivos como se os factos acabassem de acontecer”. Nessa viagem no tempo encontra o leitor o melhor de J. Rentes de Carvalho, as versões do passado agora “meigas como ternura de amante, embelecendo a lembrança, colorindo e tornando duradouro o que foi cinzento, o que foi fugaz”. Habilmente construído, “La Coca” vive de constantes saltos no tempo, confrontando versões antigas e modernas da mesma história, o passado desfilando em cenas que não são de vida vivida, antes painéis desbotados num panorama de artifício. O lado jornalístico deste livro dificilmente resistirá ao passar do tempo. Mas a ficção, tornada real à força de sonhada, essa subsistirá, trazendo-nos um sorriso ao rosto de cada vez que pronunciemos “La Coca”.