Sabia que, em Portugal, o setor público paga dois terços da despesa em saúde, mas o setor privado é o prestador de mais de metade dos cuidados? Sabia que Portugal foi o segundo país da União Europeia com a maior taxa de necessidades de saúde não satisfeitas acumuladas durante a covid-19? E que a tendência de longo prazo aponta para a redução do peso do Estado como financiador e como prestador de cuidados de saúde? O presente ensaio radiografa a evolução e a situação atual do sistema de saúde português. Aborda as falhas que têm conduzido à degradação da acessibilidade e qualidade do Serviço Nacional de Saúde. Analisa o aumento do número de pessoas com coberturas de saúde adicionais e a expansão do setor privado, em particular na área hospitalar. Traça um diagnóstico urgente — pela nossa saúde.
"Quais são as falhas que têm conduzido à degradação do SNS? A comunicação social refere, em particular, a falta de financiamento, de médicos ou de enfermeiros. No entanto, análises recentes mostram que o número de médicos e de enfermeiros tem vindo a subir e que o próprio financiamento do SNS tem crescido. Por outro lado, o que se tem deteriorado é a produtividade destes recursos, uma consequência das políticas de saúde adotadas, bem como de falhas de gestão. Por exemplo, a queda da produtividade por hora trabalhada continuou a ocorrer mesmo depois da alteração, em 2019, dos horários de trabalho, que passaram das 40 para as 35 horas semanais para a generalidade das profissões no setor da saúde. (...) Um terceiro cenário, mais reformista, implica que os governos despendam mais recursos com o SNS e sobretudo mais capital político na sua reforma, na procura de uma utilização mais eficiente dos dinheiros públicos e de melhor saúde para os Portugueses. Além de melhorar a gestão dos recursos na prestação pública e na contratualização interna, requer-se capacidade do Estado para saber usar as estratégias de contratualização com o setor privado. Isso significa investir mais em recursos humanos especializados nas questões de contratualização, na recolha de dados e em sistemas de informação e de avaliação, e em dar prioridade política às decisões tomadas com base na evidência recolhida. Esse investimento contribuirá para o Estado se tornar um gestor mais eficiente."