Elas ousaram ser médicas, advogadas, jornalistas, professoras universitárias, cineastas, intelectuais, numa época em que essas actividades estavam proibidas às mulheres. Desobedecendo aos estereótipos do «feminino», dizendo-se ou não feministas, elas fizeram avançar o mundo. Foram pioneiras, desbravadoras, valentes, ousadas e solidárias.
A escritora Maria João Lopo de Carvalho investigou a fundo a vida e a obra de doze extraordinárias portuguesas que fizeram a travessia do século XIX para o século XX e da Monarquia para a República. São elas Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Angelina Vidal, Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida, Carolina Beatriz Ângelo, Virgínia Quaresma, Irene Lisboa, Regina Quintanilha e Maria Lamas. Muito diferentes entre si, todas elas se cruzaram em algum momento dos seus aventurosos voos existenciais, que Maria João Lopo de Carvalho nos revela com rigor histórico e encantamento revolucionário.
Maria João Lopo de Carvalho nasceu em 1962 e licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Professora de Português e de Inglês no ensino público e privado, representante em Portugal dos colégios ingleses Pilgrims, fundou e dirigiu a Know How, Sociedade de Ensino de Línguas e a Know How, Edições Produções e Publicidade destinada à tradução e à criação de livros personalizados para crianças e à conceção anual do Guia da Criança. Publicou o primeiro romance, o best-seller Virada do Avesso, em 2000 e Acidentes de Percurso, em 2001. Divorciada, mãe de dois filhos, fala e escreve pelos cotovelos e tem sempre tempo para tudo, sobretudo para os amigos.
[Após a temerária estreia de Carolina Beatriz Ângelo em 1911] Durante longos anos, até 1931, nunca mais as mulheres tornaram a votar na República Portuguesa. Quando o fizeram, só as que tivessem completado cursos secundários ou superiores seriam consideradas aptas para exercer o direito de voto. Já para os homens, dispensava-se o canudo: bastava que soubesse ler e escrever. Uma mulher com estudos equivalia a um homem sem eles; uma mulher sem estudos não tinha qualquer direito de cidadania.
Se há algo que retiro desta leitura, é a descoberta de que não sou apreciadora do discurso de Maria João Lopo de Carvalho que torna este conjunto de pequenas biografias muito pouco entusiasmante. Apesar do incentivo para este livro (escrito ao abrigo de uma bolsa de criação literária), o certo é que fica evidente algum esforço para conseguir elaborar estas 12 biografias de cerca de 30 páginas cada. E cada uma acaba, em consequência dessa dificuldade, por resultar num relato árido, monocromático e impessoal que aborda de forma algo confusa e aleatória momentos fulcrais da vida de tão distintas mulheres.
A escolha é prometedora:
• Maria Amália Vaz de Carvalho: 1° mulher com assento na Academia das Ciências de Lisboa; • Carolina Michaelis de Vasconcelos: 1° mulher a leccionar numa universidade portuguesa; • Angelina Vidal: autodidata e defensora das mulheres operárias; • Adelaide Cabete: médica, fundadora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas; • Domitila de Carvalho: 1° mulher a frequentar a Universidade de Coimbra; • Ana de Castro Osório: responsável pela inauguração da literatura infantil nacional, fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; • Virgínia de Castro e Almeida: 1° guionista portuguesa e 1° mulher portuguesa a recorrer à lei do divórcio de 1910; • Carolina Beatriz Ângelo: 1° eleitora portuguesa; • Virgínia Quaresma: 1° jornalista portuguesa; • Irene Lisboa: única voz feminina na Seara Nova; • Regina Quintanilha: 1° mulher portuguesa licenciada em Direito, primeira procuradora Judicial e conservadora do Registo Predial; • Maria Lamas: resistente anti-fascista, ativista política.
Todavia, há determinados aspetos na abordagem da história destas mulheres que ensombram o resultado final. Desconheço se o estilo factual é típico da autora, mas, aliado à (muito curta) extensão das biografias, à ausência de foco temático (segundo M. J. Lopo de Carvalho, o seu critério de escolha assentou em: contar-vos a história de doze outras mulheres, portuguesas, do início do século XX, cuja determinação contrariou a «natureza a que estavam destinadas». Escolhi doze mulheres, doze lutadoras exemplares, doze sobreviventes que, em 5 de Outubro de 1910, tivessem, pelo menos, dezassete anos.) e ao que parece uma tentativa bem intencionada, mas mal conseguida de manter a imparcialidade narrativa, resulta num produto morno, pouco relevante (na medida em que não apresenta novas informações sobre estas mulheres — apenas compila factos já conhecidos), informativo mas pouco literário, e nada entusiasmante.
Sobre isto, pesa o facto de que muitas destas mulheres não são revolucionárias no sentido com que hoje (re)vestimos este termo. Grande parte delas — apesar de seguir ideais liberais e republicanos — ainda se subjuga a um parceiro a quem obedece e por quem se sacrifica, a maioria ainda se apega à ideia da maternidade como concretização do potencial feminino; muitas não se vêem como feministas, não acreditam na causa nem no sufrágio, continuando a defender o privilégio sobre a igualdade. Com pouquíssimas exceções, colaboram com o regime fascista, apaziguam-se e sujeitam-se, com a idade, à atribuição de papéis de género contra os quais começaram por se manifestar. E, se é verdade que tudo isto é sintomático de se ser humano, — as contradições, afinal, fazem parte da vida — o estilo adotado por M. J. Lopo de Carvalho parece tanto querer-se distanciar da exaltação mitológica das biografias masculinas que resulta, mais do que numa evidência de feitos admiráveis (e há tantos nestas vidas!), num longo desfiar de azares, misérias e descrições que recuperam figuras martirizadas mais do que heróicas.
Tenho, além disso, outros problemas com este livro — não entendo a referência a fotografias/imagens que não constam da edição ou a não referência às que constam, e também não entendo porque é que a autora frequentes vezes se contradiz na interpretação que faz dos documentos que consulta. Pelo meio, também não se ganha nada com as frequentes repetições entre intervenientes e situações (a maioria destas mulheres tinha relações comuns, pelo que as suas histórias se entrecruzam — essa dificuldade, todavia, não é devidamente resolvida pela autora). Num todo, o livro acaba por resultar repetitivo, maçudo e dececionante. Cada uma destas 12 mulheres foi grande, verdadeiramente grande, com contradições, reinvindicações, resignações e tudo o mais à mistura. Mas isso não é o que fica evidente após esta leitura. Louvo a intenção, mas não consigo apreciar o resultado.
Como ponto alto, fica a recuperação de alguns textos e testemunhos destas 12 heroínas portuguesas de princípios de século XX — esses sim capazes de lançar luz sobre a sua vida e personalidade. Recolho alguns que me deliciaram:
A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e a sociedade lhe impõem. No dia em que se assentar este ponto, como verdade incontestável, o mundo terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade. A vida da sociedade é uma vida toda de egoísmo e de vaidade, a vida de família é uma vida de renunciamento e de abnegação. Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente agradável, para viver na família a mulher precisa de ser forte. A mulher que tem o tic da independência, sabe o que tem a fazer: não se casar. Maria Amália Vaz de Carvalho
As ideias feministas que me atribui são verdadeiras, de algum modo desejo que a mulher não seja mera imitadora e concorrente do homem, a sua missão é bem diferente. O desaproveitamento de tantas forças latentes, tanto amor caridoso, tantas mãos habilidosas é um crime de lesa humanidade. Carolina Michaelis de Vasconcelos
(...)o saber ler não dá cultura, é apenas um dos meios para a adquirir. O grande mal da nossa gente é que não sabe servir-se desse meio de se instruir, cultivar e de se habituar a pensar profundamente. Ana de Castro Osório
A literatura verdadeiramente feminina é suficiente para manter o nosso país à altura dos mais cultos. Desejaria poder aqui enumerar todas as que em Portugal têm erguido bem alto a honra do nosso nome, como escritoras, artistas, eruditas e propagandistas, como educadoras, como agricultoras, como comerciantes, como operárias [...] Não me é possível fazê-lo, tão grande seria a lista de nomes a lembrar [...]. Ana de Castro Osório
«No dia 1 de Maio de 1968 lembro-me de estar na rua a comprar raminhos de muguet, como era da tradição. Dois dias depois caiu-nos uma revolução no colo», conta Alice [Vieira]: «O Quartier Latin ardia, os automóveis ardiam pelas ruas, para onde quer que se olhasse, tudo ardia. E nós ardíamos pelo meio das barricadas gritando palavras de ordem como "é proibido proibir" ou "a imaginação ao poder" e chamando "SS" aos polícias que nos batiam [...] A minha prima, que já não era nova, andava a correr pelas ruas, a insultar a polícia, a gritar quando alguém era ferido. E ninguém conseguia que ela ficasse em casa.» Maria [Lamas] tinha setenta e quatro anos.
Muito interessante este "As revolucionárias" onde Maria João Lopo de Carvalho nos dá a conhecer estas 12 admiráveis mulheres portuguesas que fizeram a diferença e que foram contra tudo e contra todos noutros tempos bem mais difíceis. Recomendo.
Tenho sentimentos muito contraditórios em relação a este livro. Adorei ficar a conhecer estas doze mulheres. Apesar de ter ouvido falar de quase todas antes, aprendi imenso sobre cada uma delas e isso vai sempre ser a mais-valia desta experiência. Mas há uma coisa que tem de ser dita e que me parte um pouco o coração por ter de a dizer de uma autora portuguesa. O livro não está particularmente bem escrito nem editado. Há um exagero de advérbios, de adjetivos e de frases intermináveis. A escrita é desnecessariamente complicada e de difícil leitura. Estive várias vezes muito perto de desistir, mas, como não há nenhum livro que o substitua, acabei sempre por persistir. E estou muito contente por isso, especialmente porque as histórias que mais me interessaram foram as últimas. Se recomendo "As Revolucionárias"? Sim, sem dúvida. Estas mulheres são magníficas e é fascinante descobrir mais sobre a vida delas. Se vai ser uma experiência agradável? Nem sempre.
𝑨𝒔 𝑹𝒆𝒗𝒐𝒍𝒖𝒄𝒊𝒐𝒏á𝒓𝒊𝒂𝒔 não é apenas um livro sobre mulheres que fizeram história — é um testemunho da coragem que desafiou as estruturas rígidas de uma sociedade que queria as mulheres em casa, confinadas ao silêncio e à invisibilidade. Estas doze portuguesas (Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Angelina Vidal, Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida, Carolina Beatriz Ângelo, Virgínia Quaresma, Irene Lisboa, Regina Quintanilha e Maria Lamas), que ousaram dizer não ao silêncio, à exclusão, à norma, foram as pioneiras na recusa de papéis impostos, desobedecendo aos estereótipos do “feminino” e abrindo caminhos limitados e bem pedregosos.
Cada uma delas, à sua maneira, com a sua linguagem em construção, foi uma desobediente contra o sistema que negava às mulheres o direito ao saber, ao trabalho, à voz pública, à autonomia e à liberdade. Temos médicas que desafiaram a exclusão das faculdades, advogadas que lutaram por direitos legais, jornalistas que deram visibilidade às causas femininas, professoras que abriram portam nas universidades, cineastas que captaram realidades silenciadas, intelectuais que questionaram o estabelecido.
A desobediência destas mulheres, a quem muito devemos, não foi um acto isolado, mas um movimento colectivo de resistência que atravessou o século XIX e o início do XX, da Monarquia, à República, ao Estado Novo. Todas enfrentaram censuras, preconceitos, exclusões sociais e políticas, mas mantiveram-se firmes na luta pelo reconhecimento do lugar da mulher na sociedade. Entre as doze mulheres que Maria João Lopo de Carvalho convoca, duas representam, para mim, exemplos de uma travessia: Carolina Michaëlis, filóloga e professora universitária, e Maria Lamas, jornalista e ativista política.
Carolina, estrangeira por nascimento e íntima da língua portuguesa por vocação, ensinou-nos que o rigor pode ser gesto de amor. Foi a primeira mulher a lecionar numa universidade portuguesa, e fê-lo com uma delicadeza que desafiava o masculino institucional. A sua desobediência foi silenciosa, mas fundadora. Maria Lamas, por outro lado, fez da palavra uma arma. Escreveu, traduziu, dirigiu revistas, enfrentou censuras e prisões políticas. Em 𝑨𝒔 𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒐 𝑴𝒆𝒖 𝑷𝒂í𝒔, percorreu Portugal com o corpo e com a escuta, fotografando vidas invisíveis. A sua desobediência foi pública, ruidosa, política — e profundamente poética. Estas duas mulheres são as minhas preferidas. Não apenas pelo que fizeram, mas pelo modo como encarnam duas formas distintas e complementares de desobediência: a do silêncio que funda e a do grito que transforma. Mas todas, as doze, foram desbravadoras e construíram um legado de ousadia, solidariedade e transformação.
Em suma, este livro não é uma biografia colectiva. É um manancial de memórias. Em cada capítulo (breve biografia) encontramos não apenas factos, mas feridas, dúvidas, receios, gestos de coragem e cumplicidades entre mulheres. Este livro é, assim, um convite para escutar essas vozes que recusaram o silêncio, para reconhecer a luta que continua, e para celebrar a desobediência como força vital que faz avançar o mundo. Lê-lo é um acto de resistência e de possibilidade de futuro.
Recomendo a sua leitura. Gostaria que houvesse uma continuação porque houve mais mulheres corajosas e desobedientes no nosso país.
Um livro absolutamente maravilhoso!! Comecei por achar este livro fascinante, apenas pelo título e contracapa. Gostei muito do começo, tanto o prefácio como as notas introdutórias cativaram-me. Porém, foi sem dúvida alguma o primeiro capítulo que me deixou fascinada… Será, seguramente, um livro para regressar.
Obrigada Maria João pela incansável pesquisa que fez para nos dar a conhecer a vida e obra deste “conjunto de 12 pequenas histórias narrando o percurso invulgar de doze, igualmente invulgares, mulheres portuguesas da República”.
Livro muito interessante. A autora dá-nos a conhecer um pouco da vida destas 12 mulheres de forma leve e focando, nalgumas mais do que noutras, aspectos importantes das suas vidas, tendo sempre como pano de fundo o momento histórico que se vivia. Embora alguns destes nomes me fossem familiares, desconhecia quem era a mulher por detrás do nome e fiquei fascinada com a força e a coragem destas mulheres. Gostei muito do livro.