Sr. Verde, poeta!
É absolutamente delicioso ler e reler a poesia de Cesário Verde, naquela que é a sua única obra publicada, ainda que postumamente. De facto, Cesário Verde morreu cedo demais, sem nunca obter reconhecimento literário em vida, e morreu com a dúvida se o mundo se lembraria dele pela sua poesia ou pela sua actividade comercial.
Felizmente, é um daqueles que "se vão da lei da morte libertando", graças à acção do seu amigo Silva Pinto, que fez publicar os primeiros 200 exemplares do seu livro.
A sua obra poética é marcada pelo seu olhar atento e despretensioso, tratando os assuntos quotidianos com simplicidade, sem nunca ser vulgar, mas revelando sempre a agudeza do seu espírito e a urgência dos seus temas.
Com o poeta deambulamos "nas nossas ruas, ao anoitecer", numa realidade observada ao detalhe, onde vemos personagens reais, autênticas, nas suas tarefas do dia-a-dia, num mundo imprimido de movimento, no qual as injustiças são gritantes e se sente a morte a aproximar.
Por oposição à cidade infecta, Cesário refugia-se na pureza da vida natural e nas memórias da sua infância. Os campos cheios de vida são a utopia da sua vida, nos quais deposita a sua esperança e anseia pelo restabelecimento da sua saúde, pois "o campo (...) é todo o meu amor de todos estes anos!".
"A mim o que me rodeia é o que me preocupa".
É, sem dúvida, uma leitura obrigatória!