Em plena aridez alentejana, onde o clima não permite desenvoltura, a admiração surge quando um pessoa tão nova tem o arcaboiço suficiente para expressar o sofrimento, a morte, o amor e a vida com tão trágico sentimento. Menosprezando a segregação que a mulher sofria numa época de constrangimentos sociais, Florbela espanta pelas múltiplas personalidades que encerra em si, como escritora prematuramente maturada, confundindo por isso relações ambíguas.
Numa idade mais precoce, o coração é energificado pelos amores: os de enganos que atraem a lâmina e a cravam na pele até à última gota de sangue; os perdidos nos cruzamentos do destino mas que, quando menos esperado e sem aviso prévio, quase abalroam por virem em contramão; os que são suplantados pelo vislumbre de um amor maior; ou aqueles que superam a distância do esquecimento ainda que as brumas da memória os ofusquem.
Mas, toldada pela surpreendente morte prematura do irmão, carne da sua carne, a obra transmuta-se com o passar do tempo e aborda os mortos que vivem até que os vivos, deixados em terra, morram por sua vez. E, imiscuída neste espírito fúnebre, relata histórias de Ícaros, que devido às suas asas, abandona a mesquinhez da terra e se entrega aos mistérios do ar, sem garantias de encontrarem um rumo definido e outras sobre mortas, que insatisfeitas com o descanso eterno, abandonam o seu jazigo para ver o azul do mar que contrastava com a brancura que a envolvia.
E, assim, são arrancadas uma a uma as pétalas da flor que compõe a própria morte: a da mágica oportunidade de viver o que nunca se conseguiu; a da perda eterna sem possibilidades de retrocesso; a da herança de conhecimentos seculares mantidos qual perfume que permanece no ar à passagem; a da folha perene que permanece na árvore apesar das adversidade e das intempéries meteorológicas; a da companhia requerida para gozar a adrenalina de um vida vivenciada num extremismo permanente; a da oração luxuriante, tantas vezes silenciada, mas em pecado bajulada.
Tantas vezes adulado e expresso o amor incompreensível a esse sono eterno, a companheira da foice em punho acabou por mostrar o gume mais cedo do seria esperado mas no momento em que Florbela sentia um sentimento saudosista pela sua carne que já havia esmorecido, enclausurada num jazigo, a apodrecer...