Um livro bom para refletirmos sobre o que é a viagem, que está dividido nas suas diferentes fases: antes, espaço intermédio I, durante, espaço intermédio II, depois. Uma abordagem ao mesmo tempo prática e filosófica, tendo a segunda muito mais peso, o que faz sentido tendo em conta que o autor um filósofo francês.
Michel Onfray vai dando a sua opinião sobre alguns assuntos relevantes atualmente, como a forma como a tecnologia aumentou bastante a facilidade e rapidez com que materializamos uma data de memórias (fotográficas por exemplo), ou a questão do turismo desvirtuar a essência dos países. Acompanhando estas suas reflexões, refere vários filósofos e escritores, e confesso que esse name-dropping não me agradou muito, por ser demasiado recorrente mas também pela minha ignorância nesta área. Houve opiniões suas com as quais não concordei (como a de a forma ideal de viajar é com um, apenas um, amigo - acho que viajar sozinho é incrível e tem vantagens também). Achei a escrita por vezes exaustiva, mas no geral valeu a pena!
Primeira vez que sublinhei um livro:
"Génesa da errância: a maldição. Genealogia da viagem eterna: a expiação." - acerca da origem da viagem, na história católica de Abel e Caim.
"Todas as ideologias dominantes exercem o seu controlo, o seu domínio ou mesmo a sua violência sobre o nómada. Os impérios constroem-se sempre sobre o aniquilamento das figuras errantes ou dos povos nómadas."
"Uma mera linha de um autor mesmo que mediano desperta mais o desejo pelo lugar descrito do que fotografias ou mesmo filmes, vídeos ou reportagens. Entre nós e o mundo, coloquemos prioritariamente as palavras." - achei delicioso e acertado.
"(...) existe um momento singular, identificável, uma data de nascimento óbvia, um gesto que assinala o início: o gesto da chave na fechadura da porta do nosso domicílio, quando damos a volta à chave e deixamos para trás a casa, o nosso porto de abrigo. É nesse preciso momento que a viagem propriamente dita tem início."
"(...) nunca retemos na íntegra a perpétua torrente e o fluxo de informações. Com efeito, a viagem oferece uma oportunidade para desenvolver os cinco sentidos (...)."
"A substância da recordação é aquilo que deslumbra o espírito depois de abandonada a geografia."
Note to self: "Não há nada pior do que um dilúvio de indícios, uma abundância de fotografias - a não ser a histeria contemporânea e turística que recorre à câmara para registar tudo o que vê incorrendo no risco de reduzir a sua presença no mundo à mera atividade de filmar... Nada mais inútil que uma quantidade astronómica de aguarelas, poemas, desenhos, páginas que para além de impossibilitarem o trabalho da memória a baralham e confundem, transformando o que já era diverso e confuso em algo ainda mais diverso e confuso."
"Reduzir os povos e os países a tradições elas próprias reduzidas a duas ou três míseras ideias pode ser tranquilizador, porque é sempre aprazível submeter a multiplicidade inalcançável à unidade facilmente compreensível (...)"
"A invenção da inocência necessária à viagem exige, portanto, o abandono das opiniões sobre o espírito dos povos, a recusa do olhar egocêntrico e missionário (...)"
"Um bom viajante revela uma capacidade de registar as mais ínfimas variações, torna-se sensível aos pormenores, à informação microscópica."
"Evidentemente, todas as cidades do planeta se assemelham a ponto de se confundirem. Mas o real do planeta não se resume somente a elas. Pensar o mundo sem os rurais e as paisagens, eis a visão e a obsessão urbanas. Pois a paisagem permanece, persiste, mesmo quando colocada em perigo pelos homens. E o Diverso reside nela, nos campos, visível e identificável nas epifanias rurais, longe dos artifícios da cultura."
"À semelhança das aves migratórias cujos movimentos são decididos pelos seus relógios internos, metabolismos e magnetismos, viajar pressupõe ficarmos à escuta daquilo que, em nós próprios, provém da eternidade do sistema solar e que jaz no mais profundo da nossa harmonia atómica."
"O barco contraria a superfície plana dos oceanos, o submarino a dos fundos, dos abismos, o avião troça da resistência do ar, o comboio e o automóvel ignoram os imperativos e os imponderáveis da terra: todos os elementos encontram no artifício correspondente uma forma de superação, de negação."
"Nós próprios, eis a grande questão da viagem. Nós próprios e nada mais. Ou pouco mais, Pretextos, ocasiões, múltiplas justificações, sem dúvida, mas de facto fazemo-nos à estrada movidos unicamente pelo desejo de nos reencontrar-mos, ou mesmo de nos encontrarmos."
"O destino da viagem coincide inevitavelmente com o núcleo indestrutível do ser e da identidade."
"nenhum ser humano consegue deslocar-se pelo planeta sem um ponto de referência, sem uma tomada ligada à terra, fixa e suscetível de ser reencontrada."
"O vazio das sensações e o leque de hipóteses da partida dão lugar ao leque de sensações e ao vazio de hipóteses: vimos, sentimos, provámos, tocámos, experimentámos o contacto com um real completamente sussurrante e reluzente."
"Quando a eflorescência finalmente desabrocha, as raízes voltam a ter o seu significado. Nesse momento, encontramos o equilíbrio da árvore."
"Ordenar os vestígios desentorpece e agiliza a alma. (...) À compilação dos documentos pode somar-se a narração de um terceiro. Contar é também organizar."
"Apenas a experiência escrita permite dar conta da totalidade dos sentidos."