Forçado a deixar a cidade natal na companhia do pai para morar em um território estranho no sul do país, João, de apenas 11 anos, passa a acumular do dia para a noite uma sucessão de abandonos. Envolto subitamente pelo desamparo total, o jovem herói se esforça em desviar das paredes que emergem no novo cotidiano, repleto de personagens esquecidos. Cavando pequenos espaços de sobrevivência, João promove o improvável encontro entre o niilismo e a cor exuberante das coisas - nativa apenas na mente de uma criança. Jeferson Tenório constrói um narrador singular e tocante nessa sua primeira obra, um verdadeiro arquiteto do invisível, capaz de reposicionar a dor, extrair, entre lágrimas e sorrisos, o sopro de vida de personagens que aparentam esta r mortos, ou simplesmente derrubar as paredes mais duras da existência com um beijo, deixando uma alternativa real para a esperança em seu lugar.
Jeferson Tenório was born in Rio de Janeiro in 1977. Based in Porto Alegre, he is a doctoral student in Literary Theory at PUCRS and a lecturer in literature.
Sei que O Avesso da Pele está sendo lido pelos quatro cantos do Brasil (e isso é muito bom), mas por favor…
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Conheçam O Beijo na Parede.
Esse é o primeiro romance de @jeferson.tenorio.9 e - olha! - estou ainda arrepiada. Olhando para o teto. Não porque esteja perdida em mim, mas porque ainda não me desprendi da história de João (e do seu Ramiro, de Verônica, de Estela…)
Tem alma, esse livro. A gente sabe que tem alma porque ele se engancha fundo no peito enquanto lemos. Isso é raro, sabe? Tem muito livro bom sendo lançado, tem muito escritor brasileiro que vale a pena ser lido hoje, mas…
Tenório é dos grandes. Prestem atenção nele. O que ele escreve tem vida, e um livro que tem vida é precioso, porque transforma que lê.
(Estela sem Deus, o segundo romance do escritor, está chegando pelos correios, devidamente encomendado. Meus dedos já coçam, ansiosos. Mas quem mora por essas bandas precisa desenvolver certas paciências.)
Vejam só… nem sei como resenhar O Beijo na Parede. Vou tentar: o narrador, menino João - Quantos anos ele tem, o menino? Dez, onze anos. - compartilha sua trajetória marcada por uma sucessão de perdas e abandonos. Seu luto valente feito de luta incansável e sensível. É um herói, João: um herói grandioso, porque sabe ser pequeno e frágil, ainda que pense que homens não choram. Dá vontade de pegar João no colo e embalar. E quando a gente se dá conta de que tem também um tanto do desamparo de João, e que talvez falte quem nos embale, entendemos que, apesar de tudo, apesar de tanta falta, até as paredes podem nos dar algum afago. Até as paredes a gente pode amar um pouquinho.
(O chá que me acompanhou foi, mais uma vez o Russian Caravan. Uma xícara só. Depois esqueci até do chá, tão atenta fiquei a João. Li num domingo. Quero relê-lo num sábado, pois João é menino cuja voz deve ser ouvida mais de uma vez.)
o que será que tem nas crianças que sempre pode nos encantar? os sentimentos, os desafios de alguém ainda tão jovem, as perdas, a procura da felicidade no simples… me emocionei mais uma vez lendo um livro de jeferson tenório.
Órfão da mãe e do mar, João, um menino de apenas 10 anos, é forçado pelo pai a abandonar o Rio de Janeiro para morar numa cidade triste e chuvosa. Mas chegando em Porto Alegre, ele já nos avisa: gosta da chuva. Com parentes que se negam a querer conviver com um negro em sua família, João percebe desde cedo a força do racismo na sociedade, que está até onde não existe quase nada.
Envolto em sucessivas tragédias, encontra num dramaturgo sua maneira de lutar: "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis."
Querendo ser homem e querendo ser bom, João enfrenta a fome diariamente, vivendo na margem invisível ao lado de personagens como velhos, prostitutas e travestis em um enredo onde parece não haver progresso, mas sim uma vida estacionada ou em plena decadência.
Assim surgem como ondas os temas da solidão, do desamparo, do racismo, da prostituição, de doenças mentais, das diversas formas de violência e também de amor. Percorremos a vida de minorias pouco representadas na literatura. Jeferson Tenório nos entrega em seu primeiro romance uma obra tocante e necessária.
Crueza, lirismo e espontaneidade: tudo que uma criança como o João tem para lutar contra a vida. O beijo na parede é o último ato de quem não tem nada, mas ainda assim, continua lutando. Diante de um analfabetismo afetivo, quando não resta ninguém, é imprescindível amar além das paredes que nos cercam.
Como a vida, O beijo na parede é interrompido em um momento propício a continuidade, uma cena que deixa perguntas, sugere sucessões, perdas, desgastes emocionais, pequenas vitórias, a (in)existência de Deus? João é um bom menino com bagagem que excede a idade que tem: seu senso de comprometimento e as muitas histórias trágicas que lhe acompanham fazem deste garotinho o olhar ideal através do qual acompanhar esta realidade. A maturidade adquirida por ele pelos cumulativos traumas lhe confere ares de adulto e em muitos momentos nos vemos questionando suas reflexões: como pode que alguém com tão pouco tamanho, tão tenra idade, guarde consigo tamanha perspicácia na observação do mundo? A dor em mim por esta leitura permanece latente. O coração aperta diante dos - infelizmente - muitíssimo prováveis momentos experienciado por este garotinho. Seu contexto é de uma crueza espantosa, de uma desesperança desoladora.
Tristíssimo, meu deus. Also sensível, honesto. Um excelente olhar sobre uma classe social, um grupo de pessoas extremamente real e invisível na literatura brasileira -quase que uma obra de Lima Barreto. Semelhante à "O acesso da pele".
Esse livro é tocante de uma forma que me lembrou um pouco A Hora da Estrela. Nele conhecemos João, um menino pobre de 1o anos, carioca, órfão de mãe e obrigado a viver da própria sorte quando sua família em Porto Alegre se nega a cuidar dele, por ser negro.
João desde essa idade conhece o racismo e a dimensão da tristeza de se viver, que, como o mar que deixou para trás no Rio de Janeiro, avança sobre tudo, por mais que se tente evitá-la, como seu pai havia lhe ensinado que um homem deve fazer.
A partir de um olhar infantil de sensibilidade e sabedoria tão imensas quanto a solidão que carrega, acompanhamos João na sua luta contra a fome, nas relações que cria com outros personagens à margem e na forma comovente como tenta enxergar sentido no próprio mundo a partir dos poucos e vagos ideais que lhe restaram. Um livro muito necessário, que, como o choro de João, fica preso na garganta.
não sou de lisboa, portanto não tenho a sorte de poder ir à livraria da travessa e trazer comigo livros brasileiros que não foram editados cá. ainda bem que, ainda assim, eles trouxeram este livro do brasil para a minha caixa do correio.
tinha lido no kobo o “avesso da pele” de jeferson tenório e adorei tanto a história como a escrita, que é o que faz um autor, para mim, se tornar favorito. por essa razão fiquei muito curiosa com este seu primeiro livro.
“o beijo na parede” é a história de joão, uma criança negra, vítima da sociedade, do mundo e da vida. com apenas 11 anos já sofreu mais perdas, luto e dores que a maioria das pessoas, porque “a vida não escolhe idade quando quer doer”. joão nasceu sem infância e aprendeu a estar só que, para ele, era fim pior que a morte.
joão é obrigado a mudar de cidade, acompanhando a tristeza – aquela que “não costuma fazer barulho” – que a vida lhe entrega, porque “as coisas não precisam de motivos para serem tristes”. lida com a vida de forma madura, tentando ser o homem que o pai diz que deve ser, sem nunca chorar, porque os homens não choram.
queria crescer rápido, porque não o “deixavam ser simplesmente uma pessoa”, “só podia ser preto”. sentia raiva do mundo e por isso queria ser homem, porque “as crianças que têm raiva nunca são levadas a sério”. mas agarrado ao seu livro “dom quixote”, teimando não o terminar de ler para que pudesse sonhar, aprendeu “que é o sonho que nos faz continuar vivendo”. por isso vivia sonhando, tinha esperança: queria derrubar a vida e ganhar à tristeza. queria ser imprescindível.
esta história, contada pelas suas próprias palavras, é dura, sensível e bonita. só posso recomendar.
João é um rapaz, em suas próprias palavras, "meio precoce". Todos os adultos que ele encontra se encantam com suas falas filosóficas, afirmando que ele é "maduro para sua idade". João não se vê criança, pois foi obrigado a se tornar homem cedo.
No entanto, João ainda é, sim, uma criança.
O Beijo na Parede traz à tona diversas tensões das relações criança-adulto, enfatizando nas problemáticas das infâncias vulneráveis, esquecidas. As reflexões deste garoto são, ao contrário do que dizem a maioria dos adultos da obra, extremamente pertinentes a um menino de sua idade, especialmente tendo em vista suas vivências, sua experiência com o abandono e sua exposição à morte. Esta obra protagoniza a resiliência da sensitividade humana perante circunstâncias extremamente cruéis e injustas. João, mesmo amargurado e ciente de sua própria miséria, em momento algum perde seu carinho e zelo pelos outros. É um livro muito triste, mas carrega em si toda a humanidade de seu protagonista.
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Que livro incrível! Ja tinha lido o avesso da pele do Jefferson Tenório, e esse livro é tao incrivel quanto.
O livro fala da história de João, um menino negro d 11 anos, que perde a mãe pro cancer e o pai para o suicídio, passando a morar em um cortiço com um idoso, Ramiro, uma ex prostituta, doma Dinorah, um travesti, Verônica, e Stella que passa a cuidar dele como se fose sua mãe.
Essa história é principalmente sobre uma criança que é obrigada pela vida a perder a sua infância e a amadurecer cedo. Embora joão viva dizendo que ele já é homem, no fundo ele ainda tem a esperança de voltar a ser criança. Esse livro é escrito de uma forma tão boa, tão sensível, tão real e direta, que você fica triste de acaba-lo.
4.5 🌟 O livro é narrado por João, um menino pobre de 10 anos que fica órfão e tem que sobreviver na pobreza.
A leitura é dolorosa e nos faz lembrar dos privilégios que temos, além de relembrar o que muitas vezes nos esquecemos em nosso lugar de privilégio: o quanto a vida para alguns (que são a maioria do Brasil) é difícil e sofrida.
Cheio de ensinamentos e reflexões lindas, "o beijo na parede" é um livro curtinho, mas que merece ser lido!
Leitura obrigatória do ensino médio, no começo não estava entendendo nada, mas depois percebi a importância do livro. Uma coisa relevante é que se passa na minha cidade, e consegui perceber como a minha vida é diferente da do João :(
Jeferson Tenório é um grande escritor. Não dá para começar a ler e não querer mais. Só fiquei com algumas questões no tratamento da personagem Verônica, acho que o livro requereria um cuidado maior nas próximas edições (está na 6ª).
Uma história cheia de verdades e dificuldades. João, menino de 11 anos que não teve chance de ser criança (assim como tantas outras). Ensina como a sociedade não sabe lidar com a desigualdade.
Como a vida, O beijo na parede é interrompido em um momento propício a continuidade, uma cena que deixa perguntas, sugere sucessões, perdas, desgastes emocionais, pequenas vitórias, a (in)existência de Deus? João é um bom menino com bagagem que excede a idade que tem: seu senso de comprometimento e as muitas histórias trágicas que lhe acompanham fazem deste garotinho o olhar ideal através do qual acompanhar esta realidade. A maturidade adquirida por ele pelos cumulativos traumas lhe confere ares de adulto e em muitos momentos nos vemos questionando suas reflexões: como pode que alguém com tão pouco tamanho, tão tenra idade, guarde consigo tamanha perspicácia na observação do mundo? A dor em mim por esta leitura permanece latente. O coração aperta diante dos - infelizmente - muitíssimo prováveis momentos experienciado por este garotinho. Seu contexto é de uma crueza espantosa, de uma desesperança desoladora.
É comovente a forma como o pequeno João tenta rearranjar o mundo a partir de seu grande repertório de tragédias, e Tenório tem o mérito de conduzir a narração criando metáforas de um lirismo tão agudo quanto o drama de seu personagem: o de não poder rearranjar o desarranjável, e levar o desarranjo como experiência para toda a vida.
Não sei do que gosto mais no livro, se é a representatividade de uma minoria pouco protagonista na literatura, a densidade palpável de personagens improváveis ou a linguagem de menino que domina o livro e absorve a gente de um jeito que só crianças fazem com tanta crueza e com tanta verdade. Lindo e foda.
Eu poderia dissertar por horas e horas o quanto eu amo esse livro. Existe o "eu" antes e depois dessa obra. Com certeza, levarei esse livro para minha vida.