Maria Archer foi uma verdadeira descoberta. Nunca imaginei que pudesse haver mulheres do tempo do Estado Novo a escreverem desta forma, tão audaz! É mesmo imperativo retirar estas mulheres escritoras da gaveta onde foram injustamente colocadas e disponibilizar outra oferta, menos “politicamente correta”, aos apreciadores de literatura portuguesa.
Mas, regressemos ao livro. Ele reúne quatro novelas, que apresentam duas versões da mulher portuguesa dos anos 30. Por um lado, a mulher citadina, coquette, que gosta de se sentir bonita, admirada, e até ousa ter amantes. Por outro, a mulher rural, a criada saloia que é explorada na casa burguesa ou a vendedora de peixe, que passa simplesmente da posse do pai para a posse do marido, sem voto na matéria.
Nestas novelas, a mulher é a personagem principal tem sentimentos, tem desejos, tem ambições e não é apenas um “enfeite”, como em muitas narrativas masculinas, que adoram atormentar, enlouquecer ou matar as personagens femininas, como se fossem verdadeiras insignificâncias.
Por vezes, achei o texto demasiado poético, a abusar da adjetivação, mas uma leitura revolucionária, que vale a pena descobrir.
Delicioso. Novelas/contos discorrendo sobre a mulher, os seus papeis e a sua complexidade. A Mulher, como poucas vezes vemos explanada em literatura. Delicioso.
'Ida e volta duma caixa de cigarros' é uma colecção de curtas histórias sobre mulheres. Em cada uma, Maria Archer revela-nos o horizonte emocional das protagonistas.
Na primeira história, homónima do livro, Marietta, uma jovem da zona do Estoril/ Lisboa, divide a sua atenção entre dois homens, Manuel e Vítor. Começa com o primeiro uma relação íntima (certamente algo muito arrojado para o ano em que foi escrito, 1937), e ao longo dos encontros vai-se enamorando dele; apesar de frisar inicialmente que ele não é um homem atraente, nem interessante, nem bom conversador, a pouco e pouco a sua perspectiva perde-se num turbilhão de sentimentos que a leva a pensar numa vida a dois. Finda a relação, guarda a caixa de cigarros de Manuel, que nada tem de especial para além de lhe ter pertencido, e leva-a consigo para onde vai. O nosso primeiro contacto com a protagonista é já depois desta relação terminada, quando conhece Vítor. Este é mais atraente do que Manuel, e por isso vemos o entusiasmo de Marietta em encontrar alguém novo. O espectro de Manuel continua presente, simbolizado pela caixa de cigarros. Ao longo desta nova relação, vai estabelecendo comparações entre os dois, de tempo a tempo. Vítor é bem mais generoso do que Manuel, melhor amante, e quer genuinamente casar com ela. No entanto, Marietta escapa-lhe, e acaba por dizer que irá encontrar alguém de quem goste mais do que os dois, e finalmente por repudiar a ideia de casamento.
Marietta surge inicialmente como uma mulher que sonha com um príncipe encantado, desiludida com o homem com quem está, e que gradualmente, provavelmente virtude da conjugalidade, se apaixona por ele, ou talvez por uma vida a dois. O discurso de Marietta em relação a Manuel suaviza-se ao longo da narrativa, o que contrasta com o seu discurso relativo a Vítor, que começa por um enorme deslumbramento e acaba por não ser suficiente, muito embora ela reconheça nele uma série de qualidades que lhe agradam. Não sei se a resistência que oferece a Vítor se deve a sentimentos residuais por Manuel, ou a um desejo inconsciente de que o amor seja um acto de profundo romantismo, trágico; uma vez que quando Vítor se afasta, dadas as suas rejeições, ela se arrepende e volta a reatar o romance.
É uma mulher complexa, cujos sentimentos relativos a si e ao amor são difíceis de perscrutar. Navega uma sociedade conservadora, apesar de não se mostrar escrava da moralidade. Creio que assistimos gradualmente ao seu crescimento emocional, dum amor idealizado que se concretiza inicialmente na relação com Manuel, com todos os problemas que a vemos ignorar até que termina, a um amor mais frio (?) na relação com Vítor, onde as suas acções são quase todas calculadas e existe uma certa desonestidade emocional, ao final, em que ela decide que terá de encontrar alguém que dê resposta precisa ao que ela quer, ou que ficará sozinha. Existe uma libertação da necessidade de viver em casal que revela um carácter independente e corajoso.
A segunda história, 'Cai no mar a gota de água', é sobre Julinha, uma criança de 16 anos que trabalha numa casa em Lisboa, para onde um estudante do Funchal vai viver enquanto tira o curso de Direito. Luiz, mais velho, é enfermo, e Julinha é encarregada de lhe fazer alguns tratamentos. À medida que a história se desenrola, Luiz e Julinha ficam amigos, e a saúde dele vai melhorando. Quando se sente mais forte, começa a olhar para Julinha com desejo, até que um dia a agarra e a viola. Ela, que até aí era virgem, e simpatiza com ele, cria a ilusão de que está apaixonada por ele, e por isso esta 'relação' continua até que ela finalmente engravida. Quando os pais descobrem, obrigam-no a dar-lhe casa, e então vivem conjugalmente durante algum tempo, até que ele a deixa. Ela tem de regressar à sua terra, onde é vítima de tratamento deplorável por toda a gente, e vive obcecada com Luiz e a possibilidade de o ver de novo (como ele prometera, sem qualquer intenção de alguma vez o fazer). Quando tem o bebé dá-o, acreditando que é ele o obstáculo a estar com Luiz, e acaba por viver toda a sua vida à espera dele.
É difícil ler esta história e não ficar furiosa com a maneira como Julinha é tratada por todas as pessoas na sua vida. Não existe ninguém que a veja ou trate como uma criança, e ela é levada numa corrente de maus actores que acabam por destruir a sua vida. Cada laço genuíno que cria mostra-se não o ser quando a ligação com ela se revela potencialmente desvantajosa para a outra pessoa, ou seja, não existe ninguém que a proteja para além de interesses próprios. Para conseguir lidar com tudo isto, ela prende-se emocionalmente àquele homem e vive toda a vida a sonhar com a versão idealizada de quem ele é. Claro que o homem real é um escroque.
Uma coisa interessante nesta história é a maneira como o narrador é omnisciente mas se concentra numa personagem de cada vez, e cria o cenário emocional de cada um deixando os outros opacos, até se centrar neles. Achei uma técnica interessante de avançar a narrativa.
A terceira história, 'Entre duas viagens' passa-se em S. Pedro da Cova, e é sobre um grup de mulheres numa comunidade pesqueira. O tema da história é a construção da relação de Maria e Manel, dois jovens que querem casar, e cujas famílias arranjam o casamento. As mães do casal é que tratam de organizar isto, e são as mulheres cujas vidas nos são inicialmente reveladas, na relação que tem com os maridos, que é certamente a história de muitas mulheres nas mesmas condições. O casamento demora, e os noivos estão ansiosos por casar. No dia da festa de S. Pedro, desaparecem no mato e começam imediatamente boatos do que aconteceu entre os dois - o risco de desgraça para ela é grande, mas acaba por se resolver aprresando o casamento. Maria passa da casa dos pais para casa do marido, trata dele e da lide doméstica, e Manel parte para a pesca na Terra Nova. Tudo indica que ali existe amor.
Gostei do facto desta história ser muito simples e não precisar de um grande evento ou enredo para a acção se desenvolver. Não foi necessária uma enorme tragédia, é só um quadro do quotidiano deste grupo de pessoas. Claro que há nestas casas, nestas pessoas, dramas internos que se desenrolam, grandes tristezas e injustiças, mas o olho clínico da autora não julga o que acontece, e dá espaço a estar mulheres de existirem sem serem objecto de pena.
A última história, 'Uma mulher como outras' é muito curtinha e maravilhosa, sobre uma mulher de mais de 40 anos (choque! Horror!) que vai a uma festa de entrudo, e de todos os preparativos. À medida que a acção se desenrola, sente-se a urgência de completar os preparativos, as coisas que têm de ser feitas à pressa ou deixam de ser feitas, o corropio para chegar a horas. As horas passam depressa demais e ela acaba por falhar todos os encontros que tinha, e decide finalmente ir para casa, a pé, apesar de exausta.
É linda na maneira como mostra a quantidade de tarefas que esta mulher tem de cumprir, a vontade de que tudo seja perfeito, e a maneira como as coisas vão deslizando, ficando cada vez menos bem feitas, mais à pressa à medida que o tempo vai escasseando. Tudo para não haver concretização de toda a antecipação relativa à festa, excepto em sonhos.
Maria Archer revela-se neste livro uma observadora nata, com uma capacidade de descrição admirável. A maneira como ilustra o ambiente, as cores é muito bonita, e ainda que a mim pessoalmente me apareça filtrada pelo véu do tempo, não deixa de criar uma perspectiva interessante do quotidiano destas suas contemporâneas. Tem expressões absolutamente sublimes, como por exemplo: 'O champanhe punha uma mancha de topázio no fundo de cada taça' ou 'Do escuro viam o risco doirado dos foguetes subir no céu e dos ouriços de fogo estalarem as castanhas ribombantes' entre outras, vou ter de procurar melhor para as adicionar aqui. Também gostei muito do facto de ela utilizar a expressão 'de chofre' pelo menos uma vez em cada história, mas certamente mais do que uma - é como cruzarmo-nos com um velho conhecido de vez em quando.
É ainda interessante como em todas as histórias as mulheres existem quase em função de homens, ou como a sua existência é completamente inseparável de homens, que é na maior parte das histórias (excepto talvez a última, ainda que de certa forma sejam os homens a força motriz da acção). São relações diferentes, mas que mostram que seria difícil na altura ter uma história completamente divorciada do sexo masculino, dada a dependência económica de que as mulheres padeciam.
To be continued?...
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