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Qui est "Je" ? Sociologie clinique du sujet

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Les sociétés hypermodernes exacerbent la nécessité de s'affirmer comme individu autonome pour se conformer à l'idéologie de la réalisation de soi-même. Beau paradoxe puisque chacun doit cultiver son identité personnelle en se conformant à l'injonction d'être un sujet responsable de lui-même, de ses actes, de ses désirs, de son existence sociale. Mais que signifie vouloir être soi-même?
Cet ouvrage explore les conditions sociales et psychiques du processus de subjectivation par lequel un individu cherche à advenir comme sujet. Entre sociologie et psychanalyse, l'exploration porte sur les notions d'individu, d'identité, de sujet, adossée à des vignettes cliniques à partir de récits de vie. Il prolonge les réflexions de l'auteur sur une sociologie clinique attachée à comprendre, au plus près du vécu, comment se tissent les relations intimes entre l'être de l'homme et l'être de la société.
D’autres livres ont abordé la question. Celui-ci a le mérite d’offrir, avec clarté, un parcours passionnant à travers les diverses approches du sujet (philosophiques, psychologiques et sociologiques). Il dessine les contours d’un être humain unifié, où psychique et social interagissent au lieu de s’opposer, où les déterminismes sociaux sont aussi les ingrédients de l’autonomie.

232 pages, Paperback

First published January 1, 2009

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Vincent de Gaulejac

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Profile Image for Marcos Henrique Amaral.
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February 24, 2019
O que é a sociologia clínica do sujeito?
A expressão sociologia clínica ― presente já no subtítulo da obra Qui est “je”? ― aparece como uma proposta epistemológica que, navegando nas fronteiras entre sociologia e psicanálise, considera o sujeito como uma totalidade bio-psico-social. Assim, o autor buscar retomar a dimensão psíquica do sujeito e sua interface complementar e contraditória em relação às determinações sócio-históricas. Com isso, o universo reflexivo do sujeito ganha relevo, trazendo consigo questões referentes à “autopoiese” de tal sujeito: o desejo, os afetos, os sentimentos, as emoções, a sexualidade, as fantasias e, por fim, a subjetividade. A noção de sujeito aparece na sociologia clínica de Gaulejac como elemento mediador entre o “ser do homem” [o psíquico] e o “ser da sociedade” [o social] (GAULEJAC, 2009, p. 13). Diante desta tentativa de síntese entre determinações sociais e auto-determinação feita por Gaulejac, podemos elencar alguns pontos que parecem elucidar sua proposta teórica:


(1) O sujeito é formado por dois polos irredutíveis e indissociáveis: um irredutível social e um irredutível psíquico

“O sujeito é formado por um movimento duplo que conduz o indivíduo a se definir, de um lado, a partir da maneira que ele é representado por outrem, pelas comparações e normas que definem a existência social e, de outro lado, a partir de uma vontade pessoal, uma escolha, uma afirmação de seu ser próprio. O sujeito se produz entre dois polos irredutíveis. O primeiro se remete ao processo de fabricação social dos indivíduos, o segundo a seu desenvolvimento psíquico” (GAULEJAC, 2009, p. 10).

Ambos os polos, o social e o psíquico, se retroalimentam de forma mútua e tal interação é incontornável: os processos psíquicos são alimentados e constituídos por elementos sociais e, de forma semelhante, os fenômenos sociais estão eivados de afetos, emoções, paixões coletivas, sentimentos que interferem igualmente nas psiques individuais e nas reverberações do social.

É particularmente interessante reparar na heterodoxia das fontes teóricas utilizadas por Gaulejac na tentativa de delimitar as especificidades do social e do psíquico, polos com autonomia relativa. A partir da leitura de Durkheim [origem coletiva dos sentimentos] e de Bourdieu [habitus], ele aponta a estrutura social e posição do indivíduo nessa estrutura como condições de produção das aspirações e de seus modos de realização. De Sartre, ele retoma a própria noção de irredutível psíquico, para postular a faculdade de improvisação do sujeito; a possibilidade latente de criar situações novas. A partir da leitura de Sartre, o sujeito aparece como “desejo de ser”.


(2) O sujeito é construído a partir dos processos de “assujeitamento” e de “subjetivação”, ele é produto e produtor

O sujeito está em constante processo de feitura. Nas palavras de Gaulejac (2009, p. 37) “não se nasce sujeito, torna-se sujeito (…). O sujeito está sempre se construindo”. Este processo de construção é descrito a partir de duas terminologias: assujeitamento e subjetivação. O uso de ambas presta-se ao objetivo de apontar que, de um lado, há uma socialização que constrange o indivíduo [neste sentido, a etimologia do termo subjectum é elucidativa, designando aquilo que está abaixo ] e, de outro lado, há a tomada de consciência de si mesmo, no qual o indivíduo “tenta se construir como ser singular capaz de pensar, de desejar, de se afirmar e de se inscrever entre esses dois registros, de um lado a psique e de outro a sociedade (GAULEJAC, 2009, p. 10). Este processo de tomada de consciência de si, como construção de um sujeito que não apenas é produto como também é produtor do social, é condição sine qua non para o aparecimento do sujeito (GAULEJAC, 2009, P. 36) cujos pilares de existência são, segundo Gaulejac, a ação, a reflexividade e a sensibilidade. Há, no entanto, graus diferentes de tomada de consciência, ou seja, de subjetivação que aparece de forma inversamente proporcional ao assujeitamento: “se o sujeito se apega apaixonadamente ao que o assujeita, é bem porque, nisso, ele encontre meios de existir como um ‘si mesmo’” (GAULEJAC, 2004-2005, p. 74). Assim, neste processo de assujeitar-se e subjetivar-se, ou seja, na própria mediação entre determinação e autodeterminação ― entre a dimensão social e a dimensão existencial ― que é “forjado” o sujeito.


(3) O sujeito é, em si mesmo, um processo cuja força motriz é um constante “querer ser sujeito” = o desejo de ser é o “motor do destino individual”

A subjetividade é uma construção que ocorre mediante o desenvolvimento da conquista de si, um constante esforço de busca por liberdade, autoconhecimento e singularização. Destarte, ao passo que o sujeito é produto de uma história, ele também produz sua história quando busca afirmar sua singularidade via desprendimento/emancipação de constrangimentos sociais: “O homem não é somente o produto da história, ele é, igualmente, portador de uma história na qual ele busca e constrói a significação” (GAULEJAC, 2004-2005, p. 73). Trata-se de um movimento dialético de desprendimento em relação a uma parte constituinte do próprio sujeito.


(4) O sujeito faz escolhas, improvisa, reflete sobre sua existência e tem capacidade autopoiética, podendo operar rupturas ou continuidades

Se é a tomada de consciência que conduz cada indivíduo a tornar-se sujeito, não é errôneo afirmar, portanto, que o sujeito ― noção central da obra de Gaulejac ― é um ser reflexivo, pensante, que confronta igualmente as condições objetivas do mundo exterior e as contradições existenciais, e faz escolhas. “Face aos eventos biográficos (…), o sujeito é convidado a fazer escolhas, a se determinar. Para fazê-lo, ele é obrigado a levar em conta o que lhe determina” (GAULEJAC, 2009, pp. 37-38). Assim, o sujeito faz escolhas, mas para tanto ele leva em consideração o conjunto de constrangimentos internos e externos, predisposições interiorizadas, aspirações mais ou menos contraditórias etc. Ele pode seguir suas inclinações ou lhes contrariar: há uma margem de manobra. Retomando a noção bourdieusiana de habitus, segundo as postulações teóricas de Gaulejac, as formas de agir e pensar não se reduzem a este esquema de disposições: há faculdade de improvisação que pode criar situações novas e inéditas.


A produção social dos indivíduos

Vincent de Gaulejac apresenta em sua obra a ideia de que o social preexiste sobre o psíquico. Afirma que a psique individual surge num contexto social, numa história que a precede. Ela é, portanto, um produto antes de ser produtora. O seu desenvolvimento se inscreve na história das relações com o meio que a engloba, com a família que tem contato, com o seu contexto social. A partir dessa percepção, o autor coloca que o indivíduo, então, tem sua existência inscrita numa temporalidade social que é o próprio fundamento das suas capacidades narrativas.

O indivíduo desconhece, inicialmente, as condições sociais de sua própria produção. Não tem consciência sobre a sua herança sociossimbólica e genealógica que recebe desde o nascimento. Sua construção acontece a partir de quadros sociais compostos por códigos pré-estabelecidos que condicionam suas relações intersubjetivas e seu desenvolvimento psíquico. Este não é uma simples reprodução das influências sociais. Há uma dinâmica própria, uma autonomia relativa e uma capacidade reativa envolvidas. Neste sentido, a sociedade produz os indivíduos que, por sua vez, produzem a sociedade. É a existência de uma relação sistêmica de interação e coprodução entre indivíduo e sociedade.

Gaulejac cita Jean-Claude Kaufmann para exemplificar a desconstrução da ideia de que o indivíduo é separado do social e a ficção de que existe um eu interior independente daquele que é exterior. Para Kaufmann, o homem é um processo intimamente definido pela sociedade de sua época. Ele não é o centro do universo, mas o artesão de um sistema complexo que o produz.
O senso comum representa o indivíduo como uma entidade homogênea, separada da sociedade, dirigida por um centro racional. Kaufmann, em oposição a essa ideia, coloca que o indivíduo é um processo, uma mudança, posto no meio de forças contraditórias. Ele aponta que há um quadro dialético com quatro polos de forças contraditórias:

I. Reflexividade individual: resulta das interiorizações que se instalam no pensamento individual. Chama de “arquitetura cognitiva”.
II. Reflexividade Social: quadros sociais que dão origem ao pensamento (classificações, operações lógicas, processos cognitivos). Uma vez interiorizada, essa reflexividade fixa os quadros de percepção que fornecem os materiais elementares do pensamento.
III. Socialização: apropriação do mundo exterior que corresponde à memória incorporada com a memória social do contexto que o cerca.
IV. Patrimônio individual dos hábitos: esquemas incorporados que regulam a ação.

Como representante da Sociologia Clínica, percebe-se que Gaulejac propõe compreender os processos revelados por esse sujeito que tem a capacidade de interferir e pensar sobre o seu real. Recobre uma atenção particular àquilo que possibilita o reconhecimento do universal através das subjetividades apreendidas pela observação do sujeito e do social. E a compreensão da interligação entre o social e o psíquico favorece uma reflexão mais analítica e crítica sobre a sociedade.

O autor tenta esclarecer a formação do indivíduo, o afirma como um ser composto por múltiplas determinações, influenciado por uma formação histórica complexa que reúne em si elementos advindos do processo de socialização primária e de outros processos que representam as relações sociais e culturais circunscritas em uma dada época. A multideterminação do indivíduo carrega a exigência de coerência, diversidade e contradição. A consideração dessa formação proporciona um questionamento mais fenomenológico sobre o indivíduo e sua historicidade. Se, então, o indivíduo compreende a si próprio e o contexto que o envolve, ele tem uma maior liberdade de ação. Trata-se de uma verdade revisitada em situação, um esforço de revisitar para compreender em que essa realidade faz sentido. Esta tomada de consciência transforma o indivíduo em sujeito, o qual é capaz de negociar, negar e transformar o real, fundamentalmente, torna-se um ator capaz de contribuir e intervir na sociedade. O sujeito é a intermediação entre o ser do homem e o ser da sociedade. Isto quer dizer que a subjetivação surge como um processo de mediação, e entre o indivíduo e o sujeito encontra-se a identidade, que quando reconhecida fornece as ferramentas para agir no social.

A identidade é uma noção complexa e contraditória que evoca unidade, reconhecimento e individualização. Sua aquisição se dá por meio de um processo dialético no qual há o confronto com os padrões internalizados da socialização primária com consequente reconfiguração das noções que sujeito tem de si. A identidade agrega uma série de significações que perpassam os processos de construção do ser e de reconhecimento, processos esses que estão relacionados com os diversos registros das relações humanas e sociais (Gaulejac, 2009, p. 58).

A Sociologia Clínica é composta por três pilares: formação, pesquisa e intervenção. Esta última designa uma prática que utiliza histórias de vida para encontrar pontos que possam contribuir com mudanças. A intervenção através de histórias surgiu num contexto de crise do sentido, no qual o vínculo social estava fragilizado pela condição hipermoderna marcada pela perda do sentido e pelo retorno a si próprio, sendo o acesso à história, que pode ser tanto individual quanto coletiva, um meio de colocar o sujeito em situação. O método deve favorecer a conscientização dos fatores históricos, culturais, sociais, econômicos e familiares que condicionam a história do sujeito.

Sobre a importância da identidade narrativa que se acessa através das histórias de vida, Gaulejac explicita que seria uma clara expressão da crise gerada entre as identificações individuais anteriores e as novas formas reflexivas que emergem no sujeito sobre suas relações sociais. A identidade narrativa é, portanto, uma construção autônoma individual a partir da utilização do discurso para exprimir uma história pessoal que faça sentido para si mesmo. Narrar sua história íntima significa demonstrar as crises, rupturas, realizações e continuidades que o sujeito vivência para acessar sua autonomia. É o distanciamento produzido por essa ação que permite uma interferência ativa em seu projeto de vida. Mas este distanciamento não implica em negação de suas heranças, ao contrário, possibilita ao sujeito ter a escolha de dar continuidade ou não as marcas que permeiam sua formação individual. Tal qual coloca Gaulejac (2004-2005), há uma dinâmica apoiada na tensão gerada entre a identidade adquirida e a identidade almejada que ampara essa possibilidade de escolha.


A história de vida como proposta metodológica

A sociologia clínica de Gaulejac procura “apreender a história dos homens como momentos de ruptura, de continuidade e/ou escolhas (…) que não são produto do livre arbítrio, nem consequência lógica de determinações estruturais, mas que são respostas que os indivíduos e os grupos produzem face às situações contraditórias” (GAULEJAC, 2004-2005, p. 72). Com isto, ele dá valor heurístico às biografias individuais, no sentido de elucidar processos de subjetivação e, ao admitir o “desejo de ser” como categoria analítica ― interessando-se em observar de que maneira tal “desejo de ser” é manifestado nas histórias de vida ―, as narrativas ganham valor empírico. Neste sentido, a identidade narrativa, termo que o autor toma de empréstimo de Dubar, seria a expressão da construção autônoma do indivíduo: em última instância, a identidade narrativa diz respeito ao discurso do sujeito sobre seu ‘projeto de si’; um discurso que faça sentido para si mesmo e que aponte crises, rupturas, realizações e continuidades que o sujeito vivencia no sentido de assujeitar-se ou subjetivar-se.

A obra Qui est je? traz um exemplo dessa estratégia metodológica logo no capítulo I. Gaulejac toma o discurso de Mireille, nome fictício para uma personagem real, para definir a expressão “vouloir être sujet”, algo como “querer ser sujeito”. Mireille tem 50 anos é professora de artes plásticas numa faculdade. De acordo com sua narrativa, durante um grupo focal orientado por Gaulejac, ela buscou durante 40 anos sua emancipação. Em sua fala, ser sujeito aparece em relação de sinonímia com fazer escolhas, decidir, exprimir a criatividade, se impor, ser inteiramente si mesma, ser autônoma.

A história de vida de Mireille é profundamente marcada por determinações sociais que a impediam de emancipar-se factualmente, sentir-se sujeito. Filha de pais divorciados, ela se via ― durante a infância e adolescência ― como mera superfície de projeção das aspirações dos pais; seus sentimentos eram condicionados por um contexto social, cultural e familiar. Ela relata um mal-estar, uma infelicidade causada pelo divórcio dos pais. Este é o pano de fundo para sua primeira tentativa de tornar-se sujeito, de autonomizar-se: era como se ela tivesse necessidade de construir uma existência em oposição à história dos/com os pais. Assim, o impulso de emancipar-se dos pais aos dezoito anos ― em uma época em que a maioridade na França era de vinte e um anos ― representa um momento no desenvolvimento da conquista de si. Ao emancipar-se dos pais e casar-se, para investir no papel de “boa mãe” e “boa esposa”, ela novamente se vê submissa, abdicando de toda e qualquer atividade extrafamiliar. Assim, o que inicialmente parecia um momento de ruptura na narrativa de Mireille mostrou-se, factualmente, como continuidade (uma escolha ou uma interiorização de um modelo familiar). Diante de situações que a assujeitavam, ela afirma “ter chorado quarenta anos”. É particularmente interessante notar que, em Gaulejac, este processo de subjetivação normalmente vem acompanhado de diversos momentos de crises e sofrimentos. A todo instante, no discurso da personagem, há uma disparidade entre o “Ego” e o “Ideal de ego” que causam sofrimento: as condições de filha de pais divorciados e de esposa e mãe de três filhos parecem ser cerceadoras de sua liberdade e de sua autonomia.

Por fim, ela divorcia-se, consegue um emprego e decide ter o quarto filho, com o um homem que ela deseja. Este momento representa uma “nova emancipação”, um novo passo em seu processo de subjetivação e desassujeitamento: “Mireille descreve perfeitamente a imbricação de elementos objetivos e subjetivos no processo de desassujeitamento: se libertar da dependência financeira, econômica e conjugal; se libertar do projeto parental e do desejo de outrem na medida em que eles a impedem de acessar seu próprio desejo” (GAULEJAC, 2009, p. 24).


Referências
GAULEJAC, Vicent. O âmago da discussão: da sociologia do indivíduo à sociologia do sujeito. In Cronos – Revista de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), volume 5-6, números 1-2, janeiro e dezembro; 2004-2005.
GAULEJAC, Vicent. Qui est “je”? Sociologie clinique du sujet. Paris: Éditions du Seuil, 2009.
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