O vasto acervo, legado por Vinicius de Moraes, de poemas inéditos, hoje nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa, se parece com um jogo de armar. Debruçada sobre essa montanha de versos, a romancista Ana Miranda pinçou, com a delicadeza e o rigor que os leitores já se acostumaram a encontrar em suas ficções históricas, as preciosidades que compõem este Jardim noturno. Montado o jogo, aparece não só a força de sua poesia, mas um precioso retrato do poeta. O livro deve ser lido, antes de tudo, com um olho fixado na figura de Vinicius. Se esses são poemas que ele preferiu não publicar, ou não teve tempo de publicar, é o que menos importa. São, de fato, versos de extrema intimidade. Contorções interiores, retratos das paisagens por onde circulou, homenagens a amigos mortos, sonetos moldados pelo calor do transitório, confissões cifradas como sonhos noturnos. Há preciosidades como "O haver", de 1962, poema que abriria O deve e o haver, livro em que Vinicius de Moraes trabalhou durante três décadas, e que o poeta morreu sem publicar. E que ficou perdido para sempre, já que as pistas deixadas no acervo de manuscritos da Casa de Rui não bastam para a aventura de sua reconstituição. Poemas mais remotos que traçam um perfil de mocidade, em que aparecem as fixações religiosas, as primeiras paixões intelectuais e os fantasmas de família. Versos de amor, inspirados em musas imaginárias ou em mulheres de carne e osso, igualadas pela mesma febre. E poemas, por fim, dedicados à última de todas as musas, que rondou desde a juventude - com uma incômoda força sedutora - o coração do poeta: a morte. Vinicius de Moraes se afirma, neste livro, como um poeta dos três temas fundamentais que lhe foram legados pela religião - vida, paixão e morte - e que ele soube, sem deixar que o viço se perdesse, transportar da metafísica para o mundo real. Um poeta indiferente a modismos, a escolas, a preceitos literários, a lutas de prestígio. Um poeta para quem os versos são, antes de tudo, um terreno para o cultivo da paixão. José Castello
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes (October 19, 1913 - July 9, 1980), better known as Vinicius de Moraes, nicknamed O Poetinha (the little poet), was born in Rio de Janeiro, Brazil. Son of Lydia Cruz de Moraes and Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, he was a seminal figure in contemporary Brazilian music. As a poet, he wrote lyrics for a great number of songs that became all-time classics. He was also a composer of Bossa nova, a playwright, a diplomat and, as an interpreter of his own songs, he left several important albums.
"Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos !
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ... Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber - que são meus amigos!
If you love Portuguese poetry you're gonna enjoy this book. You can find Vinicius's words in emblematic songs of the Brazilian culture as well, but is in his writing where you truly get to feel the power of his compositions. They have their own music and rhythm. Jardim Noturno is a wonderful book.