Lido em grupo, com o grupo que começou no início da quarentena lendo Genealogia da Moral, passando depois pela Interpretação dos Sonhos e entrando então num estudo aprofundado d'O anti-Édipo, que durou cerca de seis meses.
O primeiro volume de Mil platôs é brilhante. Em geral, representa um rompimento ainda mais radical que O anti-Édipo em relação ao 'estruturalismo' ainda presente em Diferença e Repetição (um estruturalismo demasiado pós-estruturalista, é claro).
O Rizoma é bastante interessante para analisar essa ruptura: a crítica ao 'decalque' é frontal em relação ao conceito de estrutura do capítulo 4 de Diferença e Repetição. Além disso, a questão política do Rizoma me intriga, numa fase que me questiono demais sobre práxis (desde 2020, com meu progressivo afastamento do leninismo e crescente influência dos pós-estruturalistas). A questão ontológica também apresenta um grande enigma para mim.
Um Lobo ou Vários Lobos é extensão da discussão psicanalítica d'O anti-Édipo, radicalizando as análises e atingindo novas profundidades. A questão linguística, já presente no Rizoma, é brilhante.
Geologia da Moral é sem dúvidas o melhor platô do livro. O filme de terror (obrigado, Vereza) combinado com a grande Genealogia é intrigante. Aqui temos mais um momento claro de ruptura com o estruturalismo de D&R, aprofundando questões e revisando pontos também d'O anti-Édipo. Há inclusive uma crítica implícita à Althusser, sobre a determinação em última instância (algo explicitamente defendido em D&R). Em geral, a discussão sobre os estratos e o plano de consistência em seus diversos níveis (químico, biológico, linguístico, social, etc) é riquíssima; a conclusão é sinistra e brutal. Não tenho bem como resumir, é uma experiência difícil de descrever. Mas é, sem dúvidas, o momento mais característico de qual filosofia está sendo mobilizada em Mil platôs: se entre Diferença e Repetição e O anti-Édipo há algumas rupturas (foco bastante nesse ponto sobre Althusser e o estruturalismo pois é o filósofo que mais me influencia e a questão é importantíssima para mim), em Mil platôs as rachaduras se alargam. Não proponho um corte epistemológico nem uma discontinuidade absoluta (Vereza levanta um bom ponto: a mudança de objeto já promove tais distâncias), mas vejo aqui a culminação de um movimento já-presente em D&R, desenvolvido em AE e elevado à enésima potência aqui.
Movimento descontínuo, sem início nem fim.