«Dois dias depois, Luís Gregório surgiu com um casaco preto e umas calças amarelas. Rapara o cabelo. Trazia um alfinete-de-dama na camisa, junto à garganta. A tiracolo transportava uma guitarra portuguesa. Talvez deste modo alguém se metesse com ele e lhe perguntasse se tocava nalgum conjunto ou se andaria a estudar música no conservatório. Ninguém anda na rua com uma guitarra que não seja para ir tocar. Dá um ar de talento a quem a traz, basta fazer a cara séria de quem anda a compor uma partitura, sem sequer notar que uma velha foi atropelada mesmo à sua frente. Fora uma coisa do género que acontecera nesse dia. Toda a gente falava do assunto. Um homem cuja idade ainda não se sabia acabava de cair de um quarto andar e morrera instantaneamente. Havia dúvidas sobre a sua morte. Uns diziam que fora suicídio, outros adiantavam que não, que ninguém se suicida hoje em dia atirando-se de um quarto andar. Houve até quem dissesse que o homem havia caído após ter sido acometido com um ataque de asma. Luís escutou tudo isto, mas fez semblante de nada ouvir, como se se tivesse concentrado a conceber a partitura. Era a sua maneira de se sentir igual aos grandes génios da música.»
JAIME ROCHA nasceu a 7 de Abril de 1949. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. Aos 21 anos exilou-se em Paris, onde trabalhou como porteiro da noite de um hotel. Regressou a Portugal depois da revolução de 25 Abril de 1974. Publicou o seu primeiro livro de poemas, Melânquico, em 1970. Foi editor de Cultura do jornal Público. Tem editadas várias obras no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Recebeu este ano o Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos com a peça «Seis Mulheres Sob Escuta» e o prémio APE de Teatro referente a 1998, com «O Terceiro Andar».
Ainda bem que sou uma selvagem, no que se relaciona com os livros. Leio os livros de que todos gostam e leio livros de que ninguém gosta; leio o que toda a gente lê e leio o que ninguém lê. E, por ser assim, li Jaime Rocha que, no Goodreads para este livro, tem apenas três "clientes". É uma pena...
Um excursionista doido, apaixonado por uma boneca insuflável, que trouxe da famosa excursão a Toulouse; uma mulher vingativa que rapta a boneca e se torna proxeneta aliciando um médico solitário a "brincar" com ela; um engenheiro com ambições políticas; uma mãe que quer bem casar a filha; um cão suicida; uma noiva com atração por abismos; e mais umas quantas personagens bem portuguesas e bem loucas. Este leque de personagens, uma escrita cativante e um enredo trepidante e surreal, tornaram esta leitura uma experiência muito divertida.