Planta Oração, de Calila das Mercês, é livro-poema-conto que faz a junção da oralidade com a ancestralidade. São as aberturas dos contos, criadas a partir de um som ritmado, que nos lembram de mantras ou ladainhas e vão se apresentando em repetições, que acolhem o ouvido e nos preparam para um novo conto-oração. Cada texto forma um galho desse tronco-texto carregado de memórias-palavras da autora.
Baiana de Berimbau (Conceição do Jacuípe) morando atualmente em Brasília. Escritora, comunicóloga/jornalista (UFRB), pesquisadora do Grupo de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (Gelbc) e doutoranda em Literatura (UnB). Atualmente realiza estudos sobre movimentos, deslocamentos, representações e (re)mapeamentos de mulheres negras e grupos invisibilizados na literatura contemporânea. Desenvolveu o projeto “Publicações da Bahia: Mapeamento e diagnóstico da cadeia produtiva do livro da Bahia” (CNPq/Capes/SEC). Recebeu o Prêmio Pesquisa Literária da Fundação Biblioteca Nacional (2015) pelo projeto de dissertação e o Prêmio Antonieta de Barros – Jovens Comunicadores Negros e Negras, pelo projeto Escritoras Negras da Bahia (2016). Publicou “Notas de um interior circundante e outros afetos” (2019, Editora Padê).
tá tudo na linguagem. senti falta do Brasil, e me senti abraçada nesses personagens, que não passam por coisas boas, mas que refletem a riqueza de experiências dessa terra, terra mesmo, com árvores e plantas que são e não são gente.
"Planta Oração", de Calila Das Mercês, com suas 144 páginas, busca entregar ao leitor uma experiência original sobre um texto que permeia o poema, conto e romance. Criando não só uma categoria quimérica nova, mas usando subterfúgios de cada uma dessas três em um enredo que mistura ancestralidade e oralidade das vidas de uma família negra. Não vou mentir, é um livro confuso de acompanhar. Não por ser dificultoso ao leitor na entrega de conhecimento, mas sim pela falta da condutividade norteada por uma ideia pré-estabelecida. O livro faz você se perder e não se importa se você se alinhou ou não à ideia principal, ele somente continua sua ideia narrativa e de entrega. A experiência beira a aprender um novo idioma, semelhante ao seu, como o espanhol, mas que ainda assim apresenta diferenças e incongruências metafísicas em sua apresentação como texto único. Vale a pena? O livro é para um público-alvo muito bem específico. É uma literatura ardilosa e que não quer saber se você dá conta, mas no final é uma leitura possível de se realizar sem grandes temores. Avalio que o melhor dos mundos seria uma leitura e, se possível, logo após, uma releitura. O livro e o enredo sendo curtos favorecem essa prática e permitem que o leitor perceba as nuances que uma brisa consegue fazer nas folhas de uma árvore antiga.
esse mundo de vida difícil parece estar dessensibilizando a todos nós, nos tirando qualquer agenciamento sobre a existência, vivendo comunicações bombardeadas por informações, sem comunidade.
aí leio um livro lindo como esse e sinto que Calila conseguiu com esses contos-poemas-palavras acalantar e abarcar tanta mas tanta e tanto do que se pode sentir e viver perder e aprender da vida. me alcançou com grande força emocional de narrativas costuradas e escritas de formas como ainda não havia lido e conhecido. terraiz. raizraio. estou de coração um tanto aberto pra esse livro e pra o que permanecerá ressoando dentro e fora de mim. "gosto quando você envia mensagens aos deuses com meu cheiro. eles escutam. quando abre semeadura com o corpo, joga as sementes com as mãos e fecha as covas com os pés". e tantos outros trechos aqui.
sou terrível pra escrever "resenha" ou comentário mas quero tanto lembrar da experiência que essa leitura causou em mim. vida triste tragédia meu deus. mas tem tanta coisa além disso, é preciso lembrar do chão cheio de folha e flor, pra saberem que não é coisa suja não, é vida. parabéns pelo livro, Calila.
Em Planta Oração, Calila das Mercês constrói uma coletânea sensível, enraizada em afetos, dores e memórias. Cada conto, nomeado por árvores, revela camadas de abandono, preconceito, família e pertencimento, sempre com delicadeza e força simbólica. Há críticas sociais sutis, ecos do meio rural e personagens profundamente humanos. Entre lágrimas e fofocas, o livro floresce como um jardim de histórias que resistem e permanecem.
“Continue com suas leituras, você não vai ficar doida de tanto estudar como praguejam. Talvez, poderá ir longe, expandir, disseminar sementes, conhecer mais os caminhos das suas raízes. Você vai perto e longe dentro de si, isso é certo. Não tenha pressa, não tenha preço, não esteja presa. Apreço, apenas.”
"Colocamos a muda de jabuticabeira no buraco. Agora era cobrir com a terra e o adubo orgânico. Cobrir com adubo de mãos que já ensinaram tanta mente a formar palavras por escrito, a formar vidas de verdade, raízes-ancestrais."