Lisboa, nas últimas décadas do século. Clama-se pelo direito à opinião. À Liberdade. 25 de Abril: solta-se a Utopia. Todos na rua, a cantar. Fim de Festa. Sobe a violência social. Cruza-se com racismo. Com agressão política. «Vais ficar assim, caído ao fundo de um beco?» «Bute daí, Zé!»
FILOMENA MARONA BEJA nasceu em Lisboa, a 9 de Junho de 1944. Frequentou o Liceu Francês e licenciou-se na Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa. Exerceu a actividade de documentarista técnica no Ministério das Obras Públicas e no Ministério da Educação entre 1970 e 2004. É autora dos romances As Cidadãs (1998), Betânia (2001), A Sopa (Grande Prémio de Literatura DST, 2004), A Duração dos Crepúsculos (2006), A Cova do Lagarto (Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLB, 2007), Bute Daí, Zé (2010), Eléctrico 16 (2013), Franceses, Marinheiros e Republicanos... (2014), Um Rasto de Alfazema (2015) e da colectânea de contos Histórias Vinda a Contos (2011). Participou nas antologias Histórias em Língua Portuguesa (Âmbar, 2007) e De la Saudade a la Magua (Baile del sol, 2009).
A Revolução dos Cravos é um dos marcos históricos recentes na nossa história que mais me fascina, e por esse motivo conheço com relativa profundidade personagens, factos, motivações que rodeiam os acontecimentos que tiveram lugar a 25 Abril de ’74. Foi por isso com alguma curiosidade que parti para esta leitura, cujo enredo decorre e é influenciado pelo contexto tumultuoso desse período; também senti curiosidade por experimentar uma autora portuguesa da qual confesso nunca ter ouvido falar antes de este livro me chegar às mãos.
Bute Daí, Zé! segue a vida de vários jovens marcados, de uma ou outra forma, pelas diferenças sociais (muitas vezes, radicais) que marcaram o antes e o depois do 25 de Abril. Um deles José Carvalho, ou Zé da Messa, um dos políticos mais influentes do PSR (Partido Social Revolucionário), cuja morte, em 1989, às mãos de um skinhead, é também um dos acontecimentos centrais deste livro – apesar de ser o que lhe dá o seu fim.
Penso que a autora consegue criar bem o ambiente pós-Revolução, com todos os extremismos que o marcaram. No entanto, Filomena Marona Beja tem uma forma de escrita muito peculiar – ou pelo menos neste livro é isso que demonstra. Frases curtas, muitas vezes misturando ideias, personagens e situações de uma forma vertiginosa pareceram-me, inicialmente, uma forma original de contar uma história, mas depressa este estilo se tornou cansativo para mim e fez-me perder a concentração na história, pelo que foi frequente ter de voltar um pouco atrás para tentar perceber o que estava a acontecer. Quase como se as minhas tentativas para montar este “puzzle” se tivessem revelado infrutíferas, com pena minha.
Resumindo, achei a história interessante, na maioria do tempo, mas não me consegui adaptar como desejaria ao estilo da autora.
Bute daí, Zé! É um livro sobre revoluções, sobre mudança. Filomena Marona Beja mistura o 25 de Abril com o início do século XX, aquando da vontade popular em destituir a monarquia e implantar a república. A vontade de mudança por parte da população portuguesa é inerente a este livro. Mas é sobretudo da Revolução dos Cravos e, a sequência da mesma, que mais retrata este livro. O assassinato de um dos mais destacados militantes do Partido Socialista Revolucionário (PSR), José Carvalho, serve de mote para a trama da obra. Em 1989, junto à porta do partido ao qual pertencia, na Rua da Palma, José Carvalho era esfaqueado por um grupo de “skinheads”, na altura em que decorria um concerto, promovido pelo próprio PSR. José Carvalho, ou Zé da Messa como era comummente conhecido, fez parte da Comissão de Trabalhadores da Messa, uma empresa de máquinas de escrever, que na altura, era um dos maiores empregadores no concelho de Sintra. Nos anos 80 viria a encerrar portas deixando no desemprego mais de um milhar de pessoas, que saíram com salários em atraso. Nessa altura Zé da Messa foi um dos principais activistas da luta pelos direitos dos trabalhadores. Devo confessar que não conhecia essa parte da História, e eu que gosto bastante de História. Mas também é para isso mesmo que servem os livros, para nos abrir novos horizontes e conhecimentos. O 25 de Abril, a censura, a Guerra do Ultramar, os retornados e as consequências da Revolução dos cravos como encerramento de fábricas, a nacionalização de bancos, o desemprego, a anarquia, tudo é retratado neste livro que me surpreendeu pela positiva. Não conhecia a escrita da autora, mas Bute daí, Zé! Deixou-me curiosidade para as leituras de outros livros de Filomena Marona Beja.