Estava à espera de uma leitura que abordasse aquilo a que o título se propõe - deuses e rituais da Antiga Lusitânia - o que aconteceu em parcas páginas desta obra. Na verdade, nem percebi bem o que autor pretendia abordar.
Ainda assim, nota-se o elevado grau de conhecimento que o autor tem, mas não acho que o autor tenha uma escrita clara; talvez por ser bastante filosófica e divaga bastante.
Quando o autor decide abordar o que se propôs, é realmente interessante perceber que em Portugal havia muitos mais santuários e templos ao ar livre (dólmens, antas, círculos de pedras) do que há, já que as populações usavam esses megálitos para as suas próprias casas e outras construções recentes (muros, por exemplo).
Por outro lado, e como o autor revela, é que os santuários celtas são a própria paisagem, pois estes povos não tinham necessidade de construir templos ou santuários, pois a própria Natureza é divina: seja os rios, árvores, montanhas...
Alguns deuses mencionados são:
- Endovélico, cujo templo, o Santuário de S. Miguel da Mota, era a antítese desta prática. Endovélico teria tido dupla natureza: Andovélico (Deus Ascendente) e Enobólico (Deus Minguante) do ano agrário e pastoral. Pensa-se que a sua etimologia esteja relacionada com o Bellenus gaulês.
- Panóias, em Vila Real dedicado a Serápis
Segundo o autor, ao contrário dos seus parentes celtas, não foram as florestas o seu principal denominador cultual, mas sim os cabeços e fragas, morros, colinas, montanhas e outeiros, sempre entre rochedos. No entanto, também os rios, ribeiros, fontes e regatos parece terem sido outras paisagens de culto para estas populações.
Outra situação interessante é o facto de ser por este motivo que S. Martinho de Dume (tão adorado aqui por Braga pelos católicos) se havia de atarefar a ameaçar com o inferno e o Diabo as populações da Galiza pelo seu culto às pedras.
O autor menciona ainda Santa Luzia (cujo radical etimológico assenta em lux, tal como Lúcifer) e a sua história assenta numa lenda pagã. Consta que a jovem cristã baptizada teria uns olhos de uma beleza perturbante que suscitaram a paixão e o assédio de um gentílico patrício romano. Perante o desespero de repulsa, ela arranca os próprios olhos e envia-os como presente ao apaixonado legionário. No entanto, no dia seguinte ela é encontrada com os seus olhos curados e perfeitos. Assim, Santa Luzia teria sido recompensada com o dom da visão sobrenatural e o poder de curar os cegos e, por isso, um dos seus símbolos é um prato com os seus dois olhos arrancados e uma coroa de luz. Desde então é padroeira das doenças dos olhos e dos invisuais. Mas também é padroeira das bruxas, que nas noites de Inverno procuram comunicar com os mortos divinizados da Arte e receber a sua Iniciação.
[Achei isto super interessante, porque afinal é neste tipo de crenças que os cristãos acreditam... E tanto perseguiram os pagãos por acreditarem nas divindades da Natureza...]