A literatura intitulada “noir” surgiu nos USA na primeira metade do século XX e apresenta como características basilares as histórias com elementos policiais que mesclam mistérios a algum terror, ocasionalmente, assim como muito suspense. Gênero basicamente urbano o “noir” quase sempre se passa à noite onde casas desertas, bares, ruas escuras e mansões melancólicas apresentam um aspecto algo deprimente e muitas vezes fantasmagórico.
Um grande fã da literatura noir aqui no Brasil é o guitarrista e compositor Tony Bellotto, que há anos nos presenteia com seu talento como um dos destaques da icônica banda de rock brasuca, os “indestrutíveis” “Titãs”.
Em 1995 Tony Bellotto iniciou sua carreira de escritor criando o detetive Remo Bellini, ambientando suas aventuras e desventuras na “terra da garoa” numa levada bem noir.
Depois de “Bellini e a esfinge” e “Bellini e o demônio” (1997) o detetive Remo Bellini volta ao trabalho em “Bellini e os espíritos”, publicado em 2005.
Essa terceira história em que o intrépido Bellini se apresenta como protagonista começa na corrida de São Silvestre. Um pacato advogado chamado Arlindo Galvet, também atleta dedicado acostumado a participar de corridas de longa distância, cai fulminado por um mal súbito no meio da prova. Testemunhas afirmaram que após receber um copo d´água ele se virou como se alguém tivesse lhe dito algo e logo depois caiu morto. Tudo indicava morte natural por parada cardíaca apesar da boa forma e da boa saúde do advogado. Logo depois do ocorrido, subitamente, chega às mãos de Dora Lobo, detetive dona da agência onde Bellini trabalhava, um envelope com 5.000 dólares em dinheiro com a seguinte nota com um português truncado: “Doutor Arlindo Galvet não morre de morte natural. Assassinato. Quem foi? Cinco mil dá para pagar investigação? Dia 10 eu volto”.
Dora Lobo, então, incumbe seu melhor investigador para checar a história.
Sendo assim, Bellini, um “lobo solitário” que abandonou a carreira de advogado para desgosto de seu pai com quem rompeu relações, atormentado pela lembrança de seu traumático divórcio, ouvindo muito blues clássico e, nos intervalos saboreando seu lanche favorito – sanduíche de salame com provolone no pão francês e chopp - inicia as investigações para solucionar o mistério.
Suas averiguações o levam a se aproximar de uma “fauna” muito diversa. Um japonês bom de briga e fã de Elvis Presley e Abba, uma japonesa sexy, espertinha e massagista das boas, uma secretária carente a algo ninfomaníaca, um dentista kardecista praticante, uma carismática senhora que prestava serviços numa associação espírita, um dedicado taxista chamado “Elvispreslei” (isso mesmo) além da máfia chinesa em São Paulo.
Não creio que, com seus três livros centrados em Remo Bellini, Tony Bellotto tivesse a pretensão de entrar em algum cânone literário ou chegar às finais de algum prêmio de prestígio. Provavelmente seu objetivo era “apenas” criar boas histórias que prendem a atenção e divertem e isso ele entrega com galhardia.
O primeiro terço de “Bellini e os espíritos” é muito bom. Já o segundo terço é um tanto cansativo mas o terço final, com direito a final surpreendente e a uma grande tragédia na vida de Remo Bellini é empolgante e emocionante.
Ótima pedida!