Em Deus lhe pague, Juracy Camargo escreve sobre personagens em busca de si próprias, cada qual com os seus sonhos e esperanças, os seus pesadelos e desilusões, carregando promessas por cumprir, em busca de uma felicidade eternamente adiada. Ou recorrendo às palavras do mendigo de Camargo: «por isso eu abandono a vida, essa vida complicada pelos outros. Vivo à margem, sou um espectador do sofrimento humano. Não sou conviva desse grande banquete, contento-me com os restos que vão caindo da mesa».
A propósito das peças de Joracy Camargo, um notável crítico do Brasil evocou «a arte de diálogo» de Dumas Filho e de Oscar Wilde. Esse justo louvor merece-o, decerto, o grande comediógrafo, mas é apenas um dos aspectos do seu excepcional talento, desse raro talento que Procópio Ferreira, o intérprete admirável de Joracy Camargo, não hesita em qualificar de «génio». Ouvindo representar qualquer das obras de Joracy, ou lendo-as no sossego duma hora consagrada ao espírito e à beleza, reconhecemos realmente a presença do «génio», isto é, da capacidade de criar vida, de comunicar vida e vibração a todos os personagens que surgem e se movem no palco. Joracy Camargo reúne em suas comédias a mais prestigiosa técnica aos mais elevados e nobres pensamentos sociais. O seu teatro pode e deve chamar-se, sem o menor exagero, «teatro de ideias», teatro que não contente em divertir ou distrair, mas que pretende e consegue sempre erguer a alma do ouvinte ou do leitor acima das mesquinharias e dos egoísmos quotidianos.