A religiosidade do homem parece ter começado com seu temor à morte. Enterrado o corpo, sua lembrança sobrevive (p.55). Ao chefe, protetor da caça, invocavam sua experiência protetora. Nasceram daí tanto as crenças como as crendices.
E, como essas coisas não costumam andar em linha reta, foram tomando as mais diferentes configurações, como um rio, com suas curvas a depender das características do solo por onde cruza.
Fátima Quintas examina as origens das crendices, na zona do açúcar, desde a chegada dos conquistadores portugueses nessas bandas, um pé atolado no massapê, o outro na descoberta carne índia que na figura dos colonizadores reconhecia a transfiguração dos deuses.
Seu Virgílio, nessas andanças, outro não é que Gilberto Freyre, sobretudo o de Casa-Grande & Senzala.
F. Quintas valoriza o passeio porque é sua tese que o Brasil nasce de famílias, no espaço doméstico (p.49), mas o passado que ela busca é um passado cuja tônica está marcada pela reversibilidade (p.23). Interessa-lhe não um passado argumento para nossa condenação, e sim como subsídio para a construção de nosso futuro.
É dos desvãos, das sombras dos caminhos do engenho, da tagarelice das negras que surgem os fantasmas, as assombrações e as crendices. As cadeiras a balançar sozinhas, os pratos batendo nos aparadores, as madeiras do sótão rangendo. Almas a pedir rezas. A morte não liquida as contas, deixando-as em aberto para o pagamento dos culpados (ver p.79).
Por aí desfilam o Sapo-Cururu, a Mula-sem-Cabeça, o Lobisomem, o mesmo que quase fez o Luís da Câmara Cascudo perder seu emprego, o Saci-Pererê, o Boitatá, a Iara, o Curupira de pés virados e o Bicho-Papão, entre outros a enriquecer o folclore.
..esboçar os traços significativos de um povo oriundo de diversas etnias, nao eh simples - e nem poderia ser - invocam-se inúmeras variáveis que se misturam entre imagens racionais, mágicas soluções e apelos sobrenaturais. As vivências do passado projetam-se nas vivências do futuro, mediante um processo histórico-antropológico de todo expressivo. Dessa forma, pensar em Civilização do açúcar eh pensar no desenho que vem se enquadrinhando ao longo dos tempos; um desenho que origina na monocultura de cana em épocas coloniais, amplia-se, alarga-se, desenvolve-se, até desaguar numa paisagem multicultural, tropical e seguramente originalíssima. O presente livro procura,portanto, esclarecer os meandros de um ethos hibrido, eivado de muitas surpresas e orgulhoso dos seus vivos e, sobretudo, dos seus mortos. Um livro essencial para quem gosta da cultura brasileira, para quem admira e busca saber um pouco mais sobre a chamada civilização do açúcar. E isso lembra coisas doces, falo do açúcar, pois em Pernambuco, é possível conhecer os engenhos que mantêm a ambientação do período colonial. Na Paraíba, ainda há produção tradicional de cachaça, rapadura e açúcar mascavo. Já em Alagoas, destaque para o artesanato de renda filé, herança da colonização, e a gastronomia. “Na área de influência mais intensa do açúcar – a que teve por metrópole Olinda e depois o Recife: metrópole regional – foi onde a goiaba, a geléia de araçá, o doce de caju seco ou em calda, o sabongo, a cocada resistiram melhor ao pastel italiano e ao confeito francês. É que já se tornara a área brasileira de doçaria tradicional mais característica e pode-se mesmo dizer mais opulenta”, diz Gilberto Freyre.
Obrigada My, pela ternura de presentear-me com afago, por sua meiguice, pelo ser que tem todo meu respeito e admiração, só posso te dizer que fico orgulhosa em saber que temos um material nesse nível em nosso país. Ja estou fazendo propaganda dele aqui no site do goodreads. Guarde meu amor e amizade.. Obrigada, meu querido.