Raquel Paiva é atualmente uma das principais pensadoras sobre Comunicação Comunitária. Com o seu livro referência O Espírito Comum – mídia, globalismo e comunidade (Mauad Editora) e diversos artigos sobre o tema em congressos e publicações no País e no exterior, ela agora reúne nesta coletânea, O Retorno da Comunidade, autores referenciais sobre as novas reflexões/inquietações da Comunicação Comunitária.
Artigos seminais para o entendimento da noção de comunidade e seus desdobramentos em pensadores como Agamben, Nancy e Esposito. Ótima introdução aos livros 'communitas' e 'a comunidade que vem'.
O retorno da comunidade: os novos caminhos do social. Org. Raquel Paiva. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. comunidades. comunidades - desenvolvimento. participação social. comunicação no desenvolvimento da comunidade.
Prefácio, 7-11 Muniz Sodré
8 [...] Esposito deixa bem claro que a comunidade não é um ente, nem um sujeito coletivo, mas uma relação, o limiar em que se encontram sujeitos individuais. Sua formulação é preciosa: "A comunidade não é o entre do ser, mas o ser como entre: não é uma relação que modela o ser, mas o próprio ser como relação".
9 Mas esse 'outro' de que se fala não é um outro sujeito, e sim, como precisa Esposito, "uma cadeia de alterações que não se fixa nunca em uma nova identidade"
O ser-em-comum da communitas, como diz Esposito, é a partilha de uma realização, e não a comunidade de uma substância.
Niilismo e comunidade, 15-30 Roberto Esposito
16-17 niilismo x comunidade, constitutivo de ambos, o nada é isto o que a comunidade e o niilismo têm em comum, numa forma que paremaneceu até agora como uma questão não investigada.
18 a comunidade não é o lugar da contraposição, mas da superposição entre a coisa e o nada.
munus - > communitas
...que a comunidade esteja vinculada não a um mais e sim a um menos de subjetividade, quer dizer que os seus membros não são mais idênticos a si mesmos, porém constitutivamente expostos a uma tendência que os leva a forçar os próprios limites individuais para encararem o seu 'fora'
...se a comunidade é sempre do outro e nunca de si mesma, significa que sua presença é constitutivamente habitada por uma ausência - de subjetividade, de identidade, de propriedade.
18-19 O nada da communitas não se interpreta como aquilo que ela ainda não pode ser, como o momento negativo de uma contradição destinada a ser resolvida dialeticamente pela identidade dos opostos.
19 Em resumo, o nada não é a condição ou o êxito da comunidade - o pressuposto que a libera para a sua 'verdadeira' possibilidade - e sim o seu único modo de ser. Em outras palavras, a comunidade não é interdita, ofuscada, velada - mas constituída pelo nada. Isso quer dizer simplesmente que ela não é um ente. Nem um sujeito coletivo, nem mesmo um conjunto de sujeitos. Mas é a relação que não a faz mais ser isso - sujeitos individuais - porque interrompe a sua identidade com uma barra que a atravessa, alterando-a: o 'com', o 'entre', o limiar sobre os quais eles se encontram, em um contato que a relaciona com os outros, na medida em que os separa de si mesma.
...a comunidade não é o entre do ser, mas o ser entre: não uma relação que modela o ser, mas o próprio ser como relação.
...o ser da comunidade é o afastamento, o espacejamento, que nos relaciona com os outros em um comum não-pertencimento. Numa perda de si mesmo que não chega nunca a se transformar em 'bem' comum: comum é apenas a falta, não a posse, a propriedade, a apropriação.
munus = dádiva
20 A comunidade é a exteriorização, ou, principalmente, de internamento - o entre da comunidade só pode ligar exterioridades ou 'exílios', sujeitos debruçados sobre o seu próprio fora.
...a comunidade não é nunca um lugar de chegada, mas sempre de partida.
Isto significa que se dão ao menos dois significados - ou dois níveis - do nada que se mantêm distintos, apesar e dentro de sua aparente coincidência. Enquanto o primeiro, como já foi visto, é o da relação - a lacuna, o afastamento, que faz do ser comum não um ente, mas uma relação -, o segundo, ao contrário, é o da sua dissolução: a dissolução da relação no absolutismo da sem-relação.
24 O primeiro pensador a buscar a comunidade no nada da coisa foi Hidegger. A conferência 'A coisa', 1950.
25 Heidegger, thing e ding, significado originário de reunião. O ato de dar expresso no vazio do jarro é também e acima de tudo um reunir.
26 O único autor a medir-se com a questão aberta por Heidegger - a relação entre comunidade e o nada no tempo do niilismo realizado - é Georges Bataille: 'A 'comunicação' não pode acontecer a partir de um ser pleno e intacto para um outro: ela precisa estar naquele em que se encontre posto em jogo o ser - em si mesmo - no limite da morte, do nada (néant).
27 ...o niilismo não se busca a partir da falta, e sim a partir de sua substração. É a falta da falta...
Aqui fica claro o duplo nível da semântica do nada e, contemporaneamente, a passagem que Bataille promove do primeiro ao segundo: do nado do indivíduo, do si mesmo, do interior ao nada-em-comum exterior. Também este segundo é um nada, mas é aquele nada que nos arrebata do absoluto nada - o nada do absoluto - porque é o nada da relação.
O fato de que Bataille - aqui como em outra parte - fale sobre o 'ser', aludindo à nossa existência, não se interpreta apenas como uma imprecisão terminológica, devida ao caráter não profissionalmente filosófico do seu pensamento, e sim como o efeito desejado de uma superposição entre antropologia e ontologia dentro da figura comum da falta, ou, mais exatamente, do rasgão (déchirure).
29 ...só puderam pensar a comunidade a partir do problema colocado, e não resolvido, por Heidegger e Bataille.
Filósofos em comunidade. Nancy, Esposito, Agamben 31-62 Davide Tarizzo
Nancy = O imperativo categórico, artigo o ser abandonado
33 E é esta lei do abandono, uma lei que corresponde à lógica do banimento: o ser é banido no sentido de que não corresponde a nenhuma lei, a nenhum nome, a nenhuma definição, mas é abandonado a cada uma delas. E, ao mesmo tempo, o ser não contesta nem mesmo a lei do abandono no sentido de que tal lei fica entendida como a menor parte a surgir de cada lei do ser: o ser é, a saber, a exceção, aquilo que faz exceção a cada lei, a cada definição, autorizando a cada lei, às leis mais diversas, e a qualquer nome, de aplicar-se ao simples estar-aí.
Assim mesmo, enfim,o ser é abandonado a si mesmo, mas reencontrando-se ao mesmo tempo sem um Si, sem uma identidade, sem um nome que o individualize e o identifique, sem uma lei que dele formule o ordenamento.
34 Nancy: "Seria preciso enfim deixar-se abandonar. E é isto que talvez queira dizer, ao exagero da palavra, pensar"
O ser desemparado e, por isso, não se domina. Não tem nenhuma soberania sobre si mesmo, porque não tem alguém consigo. E ninguém pode, portanto, reclamar a soberania sobre o ser.
*******obra de Nancy: lógica do abandono.
-> comunidade inativa
a comunidade désoeuvrée quer significar de fato a comunidade não ativa, a comunidade desativada, desmobilizada, neutralizada, a comunidade com motor extinto...É uma comunidade que não tem qualquer idéia de si mesma, que não tem a mínima idéia do que significa o termo 'comunidade'.
36 O que é a 'liberdade' de que ele fala? É a liberdade da existência: de uma existência que não possui alguma essência ou que não corresponde a uma idéia. 'A existência é a essência de si mesma'.
...o discurso de Nancy não obedece mais a um paradigma teórico, mas a um paradigma experimental da filosofia; não se formulam mais teorias, em essência, mas se realizam, ao invés, experimentos de pensamento ou experiências de liberdade.
A existência sem essência é, em suma, a existência imprevisível, que toda vez sobrevive a si mesma...
38 a singularidade do ser é sua pluralidade
40 Nancy: Corpus
41 Nancy: o problema do sujeito
43 Esposito = Nancy
ainda é possível acreditar na política, é ainda possível uma filosofia política?
44 como fazemos para conhecer o impolítico (contrário a boa política), ou tudo o que escapa à representação da política?
45 bataille
Bataille é também o verdadeiro vínculo que liga Esposito a Nancy e a Derrida *************
46 Por que, todavia, Bataille? A resposta à primeira vista é simples: o pensamento de Bataille é um pensamento do limite - e esta precisa lógica do limite, do qual se pode encontrar uma formulação para mais versos exemplares em A experiência interior, é a mesma que, através de Derrida, sobressai e volta à tona depois em Nancy...a crítica da representação é desviada do mesmo Bataille em nome da 'comunidade', ou seja, em nome de um conceito-chave da filosofia política...feroz crítica da representação...
É exatamente 'esta representação do irrepresentável é aquilo que Bataille chama comunidade' [esposito]
...o limite, de fato, não apenas divide, mas une ao mesmo tempo.
46-7 O limite coloca em comunicação aquilo que divide, exprimindo de tal modo a divisão uma co-divisão. E é exatamente este o sentido da comunidade: a comunicação (e a coexistência) daquilo que é co-dividido por uma parte e pela outra do limite. Neste preciso sentido, a representação do irrepresentável é então uma comunidade ou uma comunicação entre a representação e o irrepresentável - reunidos pelo mesmo limite. E a lógica do limite pode, portanto, ser definida como uma lógica da comunidade.
47 E é esta a razão pela qual o pensamento da comunidade é um pensamento que, como ocorre em Bataille, se dissolve em um não-saber. A representação da comunidade é, em outros termos, uma representação que se decompõe no mesmo ato de compor-se: é um 'desoeuvrement' da representação.
A comunidade equivale a uma experiência de limitação da subjetividade individual (do sujeito da representação).
48 A morte é o faltar a nós mesmos, é aquilo que nos separa de nós mesmos: é aquilo 'que nos coloca em comunicação com aquilo que nós não somos: com o nosso outro e com o outro de nós' [esposito].
A experiência da morte - entendida como 'abandono de cada uma identidade não a uma identidade comum, mas a uma comum ausência de identidade' [esposito].
49 comunidade = qualidade de nada, cum munus, vazio, dádiva, presente
a comunidade é um 'nada em comum'
50
a comunidade é de fato a representacão do irrepresentável porque é a representação de um vazio - daquele intervalo de perfeição, do qual 'nada em comum' que instituísse a comunidade. E que, instituindo-a, a torna impossível.
52 teleologia (que se representa o final0 x escatologia (que se representa como irrepresentável)
'essa finitude exprime a impossibilidade da comunidade: é mesmo frente à sua realização que somos irremediavelmente finitos'...aquilo que abre a possibilidade de imaginá-la pela primeira vez. Ou, ainda melhor, aquilo que na comunidade se deixa pensar' 52
53 a comunidade que vem é uma comunidade de singularidade qualquer
é uma comunidade que não dispõe de uma essência e de uma identidade própria, e é composta de indivíduos sem identidade e sem essência
'Em última instância, de fato, o Estado pode reconhecer qualquer reivindicação de identidade - até mesmo a de uma identidade estatal ao seu interior; mas o fato de que singularidades façam comunidade sem reivindicar uma identidade, que homens co-pertençam sem uma condição de pertencimento representável - eis o que o Estado não pode em nenhum caso tolerar' [agamben]
54 'o ser exemplar é o ser puramente linguístico. Exemplar é, a saber, aquilo que não é definido por alguma propriedade, exceto o ser-dito' [agamben]
56-7 Aquilo que nos interessa, em suma, não é a classe em si, mas a classificação; não é a identidade em si, mas a identificação' [agamben]
58 resto = limite
'O tempo messiânico, o tempo que o apóstolo vive e que só lhe interessa, não é nem o 'olam hazzeh' nem o 'olam habba', nem o tempo cronológico nem o 'eskaton' apocalíptico: é, mais uma vez, um resto, o tempo que fica entre estes dois tempos...o tempo que resta' [agamben]
59 O tempo messiânico é o tempo da nossa impropriedade, da espera de nós mesmos. O tempo de um limite, de um fim, que continua a ocorrer.
Mas o que é a soberania? É o reverso do pertencimento.