'A história dos ossos', do poeta e artista plástico Alberto Martins, é um livro singular. Trata-se de dois contos ou novelas curtas que, se por um lado são perfeitamente acabadas em si e podem ser lidas independentemente, juntas já compõem um outro gênero de texto, espécie de mini-romance formado por duas histórias com enredos distintos mas unidas por um mesmo narrador. Na primeira, 'O cão no sótão', após um breve prólogo de apresentação, o narrador cede a palavra ao irmão adolescente que, trancafiado no cartório onde trabalha, atravessa um surto de 'furor literário' no qual ensaia, diante de um cão, um 'monólogo a muitas vozes'. Já em 'A história dos ossos', o mesmo narrador retorna anos depois a sua cidade natal para dar um novo destino aos ossos do pai, que precisam ser removidos do cemitério prestes a ser privatizado e transformado em terminal de containers. No conjunto, as histórias compõem uma crônica familiar (o irmão, o pai) envolta numa atmosfera insólita, reforçada pelo constante deslocamento ou condensação do dado temporal, que parece mover-se ao sabor da memória. Essas idas e vindas no tempo, que se desdobram em diferentes planos narrativos, vão criando múltiplas camadas de sentido que fazem deste livro uma peça literária de rara intensidade e força criativa.
Natural de Santos, onde nasceu em 1958, Alberto Martins formou-se em letras na Universidade de São Paulo, onde também iniciou seus estudos de gravura, técnica que aperfeiçoou em Nova York e lecionou de 1990 a 1998 no Museu Lasar Segall de São Paulo. Autor de livros juvenis como Goeldi – História de horizonte (prêmio Jabuti de 1996) e O estrangeiro e a floresta (2000), Martins reuniu sua poesia nos volumes Poemas, de 1990, e Cais, de 2002, ambos ilustrados com suas próprias gravuras.
"Olhei em volta - as palafitas se alastravam pela beira do estuário. Então era ali que a cidade começava. O lado de dentro do mar". Duas pequenas novelas, "O cão no sótão" e "A história dos ossos", cordão umbilical entre mar e mangue, infância e maturidade, dor e saudade. Textos de Alberto Martins com aroma de café e maresia que valem a pena serem descobertos.