Esta sucessão de histórias que escolhem uma realidade áspera para melhor a retratarem na sua verdade essencial (Oscar Wilde poderia dizê-lo), tecidas ao contrário da sensualidade contemplativa e disciplinada que satisfaz o prazer estético (Roger Caillois poderia fazê-lo lembrar), corre riscos de leitura em deslizamento por emoções epidérmicas e pelos mais fáceis sorrisos do humor negro. Executa uma dança: entre o jogo intelectual e a realidade sangrenta; faz um lado-a-lado de realidades reflectidas por um espectro cruel; remete ao ser humano que se não verga sob os limites da sua moral e da sua ordem. «A crueldade tem coração humano», escreveu William Blake no primeiro verso de «A Divine Image». E por vezes a literatura assume-a — aqui, uma reverência a De Quincey — como bela-arte.
Nasceu em Angola, a uma altitude de 2000 metros. Licenciou-se em Engenharia pela Universidade do Porto. Durante 11 anos teve a seu cargo a distribuição de água à cidade de Luanda. Dez meses de independência em Angola chegaram para pressentir a Angola política, económica e social que hoje existe. Sentiu-se subitamente europeu. Traduz para ler devagar.
O Festim da Aranha é uma primorosa selecção de contos malévolos, recolhidos e traduzidos por Aníbal Fernandes, que inclui um breve resumo da vida e obra dos seus autores. Alguns são de um humor negro atroz, outros são "sérios", sem o alívio do riso, mas de todos se pode retirar uma "moral da história". São histórias medonhas que, no entanto, não me fizeram insónias, apenas porque tive a sensatez de não as ler à noite. A todos, sem excepção, avalio com cinco estrelas. Aos que gostei mais do que o "normal", marco, na descrição sumária, com faquinhas.
1. Ambrose Bierce A) Óleo de Cão (🔪) - o reino do mercantilismo B) Um Sepulcro sem Fundo - instinto de sobrevivência Em ambos, a crueldade é levada ao limite da comicidade. (Já os tinha lido em Contos Completos; fui buscar o meu exemplar e reli mais algumas das suas histórias satíricas.)
2. Léon Bloy A Salamandra-Vampiro - traumas e loucura A crueldade da guerra e as transformações físicas e mentais das vítimas sobreviventes.
3. Dino Buzzati Não Esperavam Outra Coisa (🔪) - linchamento O ódio, o poder e a impunidade da maioria sobre a minoria. De fazer suores frios.
4. Honoré de Balzac A Grande Bretèche (🔪) - emparedado vivo A lealdade e a honra levadas ao limite.
5. Guy de Maupassant A) A Mãe dos Monstros (🔪) - "amor" de mãe Quando a falta de dinheiro, dos pobres, e o culto da beleza, dos ricos, são os maiores valores. B) Um Louco - o fascínio da morte... A face perversa das pessoas justas, insuspeitas e intocáveis.
6. Stanley Ellin A Pergunta (🔪) - o carrasco inocente Por vezes, uma pergunta simples pode revelar-nos o que somos, do que gostamos e que escondemos até de nós próprios. E que dispensávamos saber.
7. Hans Heinz Ewers A) O País das Fadas - a inocência das crianças A repugnância pelos que são diferentes não é primário, aprende-se. B) Molho de Tomate (🔪) - sede de sangue A embriaguez reduz o homem aos instintos mais básicos, à sua verdadeira natureza (?): o ódio ao outro e o objetivo de vencer custe o que custar.
8. Aldous Huxley História de Crome (🔪) - anões e gigantes A crueldade dos fortes sobre os fracos.
9. Eugène Ionesco Uma Vítima do Dever - o torturador e o torturado Uma história com conteúdo político.
10. Gaston Leroux O Jantar dos Bustos (🔪) - o apetite pela xixa Amizade e canibalismo.
11. Medeiros e Albuquerque O Soldado Jacob - um pesadelo Traumas inultrapassáveis da experiência da guerra.
12. Octave Mirbeau As Bocas Inúteis - excedentes Uma pessoa ou animal velho e doente não serve para nada... e "quem não trabalha não come" e "cá se fazem cá se pagam".
13. Monteiro Lobato O Bugio Moqueado - comer e ser comido As infidelidades podem ser indigestas.
14. Saki Sredni Vashtar - fantasias de uma criança Magia, vingança e torradinhas.
15. Marcel Schwob Os Sem-Fronha (🔪) - despojos de guerra Dilemas de uma mulher que não consegue reconhecer o marido entre dois destroços.
16. Roland Topor A Aula no Abismo (🔪) - deveres de um professor Este é o conto que achei mais delirantemente cruel; pior ainda porque me fez duvidar da minha sanidade mental. Como posso eu rir de tal coisa?
17. Donaldo E. Westlake Numa Ilha Deserta (🔪) - a solidão é um descanso De como a Justiça pode ser manipulada ao gosto do freguês.
18. Tennessee Williams Desejo e o Massagista Negro - sadismo e masoquismo Gostos e prazeres não se discutem nem contestam.
Inclui, ainda, um diálogo viperino (que me parece fictício) sobre o conto de Miguel Torga, "O Alma-Grande" que a herdeira de Torga não autorizou, por respeito à memória do autor, ser incluído numa coletânea de histórias cruéis. No entanto, esse respeito exclui a obediência à intransigência de Torga sobre "a dignidade de uma livraria" e permite que "se venda agora em hipermercados num ameno convívio com chouriços e refrigerantes. E viva o vil vintém...
Nota final: Fazer esta review foi um acto de masoquismo; que estafa com o resumo mínimo, a formatação, os links para os autores. Espero ser compensada ao desfrutar do prazer sádico de ver, por aqui, outros leitores a penar com estas histórias.
Gosto muito de livros grandes, daqueles que demoram semanas a ler e dos quais acabamos por fazer parte. Mas, de vez em quando, também gosto de livros de contos, sobretudo se forem colectâneas de autores diferentes. Porque me permitem conhecer novos escritores e porque numa só noite leio histórias inteiras, por vezes mais marcantes do que alguns romances.
Este comprei-o porque o objecto me atraiu: capa toda em tons de vermelho, páginas tingidas por fora de vermelho. E depois o miolo não me desiludiu. São mais de 20 «histórias em estado de crueldade», muitas sem rodeios e com maldade pura, desde um quase linchamento gratuito até um emparedamento por um marido traído, passando por uma mulher que aperta a barriga durante a gravidez apenas para dar à luz seres que possa dispensar para feiras de curiosidades. Depois de ler O festim da aranha, quero ainda passar ao Este é o tempo dos assassinos (da mesma colecção), mas para já ficaram-me nomes como Dino Buzatti («Não esperavam outra coisa»), Saki («Sredni Vashtar»), Octave Mirbeau («As bocas inúteis»), Stanley Ellin («A pergunta»), Maupassant («A mãe dos monstros») e Balzac («A grande Bretèche»).
Não fuja deste livro quem é impressionável. Apenas duas ou três histórias me deram a volta à barriga. O que compensa tendo em conta a qualidade da generalidade do livro.