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O sequestro da Independência: Uma história da construção do mito do Sete de Setembro

A construção histórica do Sete de Setembro como marco da Independência a partir de profundo estudo da cultura visual em torno do tema.A emancipação política brasileira decorreu de um longo e conflituoso processo, desenvolvido em várias regiões do país e que teve diversos atores. Episódios esses escamoteados em favor de uma história oficial ainda muito europeia, pacífica, masculina e unificadora, que encontrou no Sete de Setembro seu mito fundador.
Tomando como ponto de partida farta coleção imagética, que tem como elemento central o famoso quadro de Pedro Américo sobre o "Grito do Ipiranga", Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Junior analisam a formação complexa de nossa identidade nacional e a transformação do motivo retratado na obra de Américo em símbolo do rompimento com a Coroa portuguesa.
Das tensões do Segundo Reinado e rivalidades entre Rio e São Paulo à ditadura, chegando ao governo bolsonarista, este livro evidencia o percurso histórico que contribuiu para silenciar outras narrativas possíveis para a Independência, suscitando o que os autores chamam de "uma política de sequestros", que tem como origem o Sudeste, os paulistas e, posteriormente, os militares.

577 pages, Kindle Edition

Published August 5, 2022

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Profile Image for Harvey Hênio.
708 reviews3 followers
May 19, 2024
“O sequestro da independência” é um ótimo livro escrito a seis mãos por Carlos Lima Junior, docente do curso de especialização em Museologia, Cultura e Educação pela PUC-SP e pesquisador pós-doutorando pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP e doutor em estética e história da arte pelo Museu de arte Contemporânea da USP, Lilia Moritz Schwarcz, professora titular no departamento de antropologia da USP e Global Schlolar da Universidade Princeton e Lúcia Klück Stumpf, professora na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e pesquisadora pós-doutoranda pelo departamento de artes plásticas da ECA-USP e doutora em antropologia social pela USP.
A proposta do trio de autores é bastante clara no subtítulo da obra; “Uma história da construção do mito do Sete de Setembro”, ou seja: partindo de uma análise acurada do quadro “O brado do Ipiranga” (também e talvez mais conhecido como “Independência ou Morte”) pintado em 1888 pelo artista Pedro Américo (1843/1905) os autores questionam e problematizam questões ligadas às escolhas feitas pelo autor da obra e que, a primeira vista, passam desapercebidas. Esse quadro traz uma imagem emblemática e por demais conhecida: no alto da colina do Ipiranga no dia 07/09/1822 o então príncipe regente D. Pedro, montado num belo alazão, ergue a sua espada, cercado por colaboradores e soldados e solta o “brado retumbante”: “Independência ou Morte!” rompendo com as amarras coloniais com a metrópole Portugal e dando o pontapé inicial em nossa trajetória como nação emancipada.
Os autores elaboram um muito bem montado e embasado raciocínio no sentido de mostrar como essa imagem, ao contrário do discurso oficial que a quer como a “imagem definitiva da independência”, é na verdade uma construção feita pelo autor em consonância com um Brasil patriarcal, elitista e excludente em que mulheres, classes trabalhadoras, indígenas e negros não são representados e, ou considerados. O próprio autor a respeito das escolhas que fez para compor uma imagem de um fato histórico ocorrido 66 anos antes fez uma emblemática afirmação: “A realidade inspira mas não escraviza o artista”.
A partir desse tema central – a denúncia de como a independência teria sido “sequestrada” pelos grupos dirigentes de uma nação desigual como o Brasil – os autores enriquecem a narrativa mostrando como a historiografia oficial silenciou visões alternativas da independência do Brasil e esmiúçam essas visões alternativas que desvelam uma história muito mais rica, diversificada e representativa do que revela a obra de Pedro Américo.
Chama a atenção como os autores demonstram de forma muito bem
embasada o “sequestro da independência” levado a cabo, de forma muito mais intensa, organizada e mal intencionada que seus predecessores, pelo governo Bolsonaro. Vale a pena reproduzir um trecho da obra para ilustrar a questão do uso do quadro de Pedro Américo pelo governo do “capitão”:

“De um lado, na narrativa oficial do governo Bolsonaro, a tela aparece como a tradução perfeita do protagonismo para os heróis europeus, sendo que o povo – representado pelos africanos e indígenas – ganha sempre um lugar passivo. Até aí, essa poderia ser considerada uma revisão adequada ao espírito da composição. Mas há, por outro lado, um extremismo na análise do evento que foi convertido numa sorte de ato militar, no sentido de que o Exército surge como a única instituição capaz de “pôr as coisas em ordem” – manter o status quo e a estrutura vigente. Há também um “sequestro” ainda mais abrangente em curso. Termos como “liberdade de expressão”, “democracia”, “república”, “cidadania” têm seus significados alterados – sequestrados – para agora fazerem sentido numa pauta de extrema direita que pretende tolher direitos: não governar sob a égide deles” (Pág. 284)

Belamente e ricamente ilustrado (mais uma excelente edição a cargo da Editora Cia das Letras) a obra cumpre o seu papel de demonstrar como a história de um país não pode se reduzir a uma visão preestabelecida por um grupo reduzido e como essa mesma história se enriquece quanto mais representativa, diversa e plural ela for.
Para concluir essa humilde resenha nada mais adequado do que a conclusão feita pelos próprios autores:

“Independência é processo aberto, e não data fixa no calendário. Por isso, é preciso conquistar a nossa emancipação a todo momento: mais uma vez e sempre”.

Excelente, principalmente para todos aqueles e aquelas interessados em se informar melhor acerca dos meandros de nosso rico processo histórico.

83 reviews2 followers
October 26, 2022
A história da construção da história de nossa independência, contatada de forma original e fascinante com foco no quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo. Uma abordagem de como os relatos históricos são construídos, por meio de imagens e "contos", ao interesse do poder. Excelentes menções dos demais movimentos que contribuíram para nossa independência, mas foram relegados, passados para trás pela história oficial. Arte é política, essa a grande mensagem. É preciso saber interpretar cada quadro, cada música, cada versão oficial. Minha única crítica é o capítulo final, um pouco panfletário demais (os fatos relatados podem até justificar o emocional carregado do autor), prejudicando o tom acadêmico e sério do restante do livro.
12 reviews
September 25, 2024
Uma excelente análise sobre a construção do mito da independência por diferentes governos e como eles usaram esse mito para reforçar as suas políticas governo
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