«Escolhemos para este número o tema Rússia antes de começar a invasão da Ucrânia. O que fazer perante um acontecimento tão grave e intolerável? O pior seria cancelar. A Rússia não se confunde com os regimes que tem em cada momento, ainda que as tentações imperiais e despóticas venham de longa data. Esta edição tem presente o último século, o czarismo, a revolução, o estalinismo, o fim da URSS, mas também os extraordinários escritores de Oitocentos, a nação‑continente, as missões espaciais ou as vanguardas artísticas.» — Pedro Mexia
«Aquilo que a Rússia nos deu e continuará nos dando não vem apenas dos russos, mas também dos muitos criadores de outras terras que nela se inspiraram, como mostram os textos desta edição. Da cadela Laika às matrioskas, do czar Nicolau II a Vladimir Putin, das estepes em brasa à Moscou dos oligarcas contemporâneos, aqui há Rússias para todos os gostos e apetites.» — Gustavo Pacheco
PEDRO MEXIA nasceu em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1972. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Foi crítico e cronista no Diário de Notícias (1998-2007) e no Público (2007-2011). Escreve actualmente no Expresso. Assina também uma coluna mensal na revista LER.
É conselheiro cultural do Presidente de República, desde 2016. Foi subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa (2008-2010). Tem colaborado regularmente em projectos das Produções Fictícias (É a Cultura, Estúpido, O Eixo do Mal, O Inimigo Público, Canal Q). É um dos membros do Governo Sombra (na TSF, desde 2008, e também na TVI24, desde 2012).
Publicou seis livros de poemas: Duplo Império (1999), Em Memória (2000), Avalanche (2001), Eliot e Outras Observações (2003), Vida Oculta (2004), Senhor Fantasma (2007) e Menos por Menos - Poemas Escolhidos (2011) e Uma Vez Que Tudo se Perdeu (2015).
Editou quatro colectâneas de crónicas, Primeira Pessoa (2006), Nada de Melancolia (2008), As Vidas dos Outros (2010) e O Mundo dos Vivos (2012).
Manteve os blogues A Coluna Infame (com João Pereira Coutinho e Pedro Lomba), 2002-2003; Dicionário do Diabo, 2003-2004, Fora do Mundo (com Francisco José Viegas e Pedro Lomba), 2004-2005; Estado Civil, 2005-2009; e Lei Seca, 2009-2012. Desses blogues nasceram três volumes de diários: Fora do Mundo (2004), Prova de Vida (2007) e Estado Civil (2009).
Está representado em 366 Poemas que Falam de Amor (2003), org. Vasco Graça Moura; Antologia do Humor Português (2008), org. Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos; Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage (2009); Alma Minha Gentil: Antologia general de la poesía portuguesa, org. Carlos Clementson (Espanha, 2009); e Poemas com Cinema, org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo (2010).
Organizou e prefaciou o volume de ensaios de Agustina Bessa-Luís Contemplação Carinhosa da Angústia. Traduziu Notas sobre o Cinematógrafo, do cineasta francês Robert Bresson. Publicou uma versão de uma peça de Tom Stoppard (Agora a Sério, 2010).
Escreveu a letra de uma canção ("Lixo") do álbum Equilíbrio (2010), de Balla.
Colaborou com dois projectos de peças curtas: Urgências (Teatro Maria Matos, 2004 e 2006) e Panos (Culturgest, 2012). Adaptou para teatro (com Ricardo Araújo Pereira) Como Fazer Coisas com Palavras, do filósofo inglês John Austin (Teatro São Luiz, 2008). Publicou a peça Nada de Dois (2009, encenada no Brasil em 2010 e no Canadá em 2011) e escreveu Pigmalião, a partir de Ovídio (Teatro Oficina, Guimarães, 2010). Encenou Agora a Sério, de Tom Stoppard (Teatro Aberto, 2010).
Escreveu o argumento do telefilme Bloqueio (realização de Henrique Oliveira, RTP, 2012).
Primeira vez que leio esta prestigiada revista, que, na verdade, ao menos nesta edição, é um livro. Não sei o formato de outras edições, esta é a única que tive em mãos.
Neste especial sobre a Rússia os contos e ensaios fotográficos são, em geral, excelentes e os textos que se aproximam do formato ensaio/reportagem podem ser de alto quilate, mas pecam por ser um tanto quanto maçantes.
Vou comentar um por um, na ordem. São minhas meras impressões e não pretendo elaborá-las com profundidade.
Após as apresentações dos editores português e brasileiro, as quais pouco guardei na memória, vem um conto acachapante: A História da Rússia, do André Sant’Anna, com uma prosa em chamas. Um amigo e conterrâneo, o revisor Huendel Viana, já havia elogiado-o para mim. Aí está um autor a quem preciso prestar atenção.
Os dois ensaios seguintes, O Enterro das Ossadas, do afamado Orlando Figes, e O Quadrado, de Tatiana Tolstaya, são enfadonhos, ainda que muito bem escritos.
O conto que vem a seguir, Boneca Russa, de Camila Chaves, é bom e animou-me a prosseguir com a leitura.
Após o ensaio fotográfico Rússia em Dois Tempos, todo em P&B, de Mauro Restiffe, vem um conto de um autor que desconhecia completamente, Amor Towles, e que impressionou-me com a força de sua escrita e as imagens que cria. A Fila é ótimo, ainda que ao final, não sei o porquê, seu elã dilua-se.
O Século de Nadejda Mandelstam, de Ana Matoso, é o melhor ensaio deste especial. Talvez porque, além de ser denso, também tem muito carinho pela mulher do poeta caído em desgraça no stalinismo.
Segue-se o conto A Pobre, Feliz Kolivânova, cuja frieza não me convenceu, mas talvez seja o tom correto para a narrativa num ambiente reificado. Valeu a leitura para conhecer uma autora russa: Ludmila Ulitskaya.
Então vem o melhor conto da coletânea, ao lado de A História da Rússia: Rezarei Bastante Para Que Ela Volte Viva, de Reginaldo Pujol Filho, outro autor que desconhecia, que escreveu uma história simultaneamente sensível e brutal tomando por base uma história conhecidíssima. Brilhante!
Minha Avó, a Censora, é um texto de memórias interessante da Masha Gessen, mas não muito memorável.
A grande decepção para mim foi Incêndio na Estepe. Admiro muito o Pepetela, mas este conto é tíbio.
Diário Russo, Azeri, Georgiano e Ucraniano, de José Pacheco Pereira, é uma maçada de viés liberal.
Renúncia, de Clara Drummond, pareceu-me um bom conto quando o li, mas meio que já o esqueci.
Aleksandr Púchkin, um Poeta Célebre e Desconhecido, de António Pescada, foi uma boa introdução à poética dele para mim.
Quem Matou Tolstói?, da Elif Batuman, é inconvincente, mas ao menos serve de boa introdução para um conto instigante: A Posse, de Hélia Correia.
Por fim, após mais um belo ensaio fotográfico, desta vez colorido (Tofolaria, de Mariana Viegas), vem a cereja do bolo: o relato de viagem Sibéria, de Colin Thubron. Um primor nas descrições; lê-lo é como estar lá. Ele escreve magnificamente e este é o ponto alto desta revista/livro, junto aos textos de Sant’Anna e Pujol Filho.