« Il était une fois des reines et des princesses. Elles gouvernaient des pays, commandaient des armées et se faisaient obéir. Leur vie était remplie de possibilités, de pouvoirs et de projets. Elles s’appelaient Artémise d’Halicarnasse, Antigone, Jocaste ou Aithra. Exceptionnelles et singulières, ces femmes appartiennent à un passé aristocratique ou vivent dans un ailleurs royal. Dans ces mondes possibles, elles sont elles-mêmes possibles. Il suffit d’imaginer. Et les Grecs ont su les imaginer. Les mêmes Grecs inventent la démocratie. Et voilà que les femmes de cette trempe, en état de diriger et de défendre l’État, deviennent tout simplement inconcevables. Voilà que l’homme est un animal politique, la femme un animal domestique. C’est ainsi. C’est la nature. À bien des égards, nous en sommes encore là aujourd’hui. Dans nos démocraties, les hommes peuvent et les femmes ne peuvent toujours pas. Un soupçon fondamental plane toujours. Ne seraient-elles pas, peut-être, incompétentes ? Ne sont-elles pas, sans doute, des incapables ? » G. S.
Pourquoi et comment, enfin, rendre les femmes prêtes à pouvoir diriger ! Un livre brillant, documenté et… ultracontemporain.
A junção do direito e da aptidão e, mais precisamente, a subordinação do direito à aptidão, é essencial na história da diferença dos sexos. Porque, nesta história, as mulheres não são apenas excluídas de facto dos lugares de poder: é suposto elas não poderem poder.
A premissa de Giulia Sissa é ousada: enquanto o feminismo contemporâneo debate o uso do capitalismo como ferramenta de repressão, Sissa dobra a aposta: a democracia está na génese dessa repressão — capitalismo e patriarcado podem assim ser encarados como expressões encadeadas de uma mesma fórmula (leitura minha). O que aqui importa esclarecer é que a demokratia grega, berço da democracia ocidental, não procurava apenas excluir as mulheres dos lugares de poder, mas ia mais longe na subversão da legitimidade e assegurava que as mulheres não podiam poder, deslegitimando ontologicamente a sua autodeterminação. Esta proposição não surge como um capricho isolado. Sissa segue uma premissa histórica presente na obra de académicos como Jürgen Habermas, na qual se analisa e contesta o espaço democrático idealizado face ao espaço democrático concreto, com assimetrias e desigualdades que recaem sobre os grupos não masculinos e não elitizados. Nesse sentido, a democracia enquanto construção social, sistema jurídico, conjunto de valores, modo de vida e ainda cultura política tem um longo historial crítico. Talvez por isso não se aviste propriamente fricção entre a sua abordagem e a tradição de teoria social da qual decorre. A ser assim, onde esta obra se expande é no esgrimir de um precedente cultural original: a democracia é essencialmente androcêntrica por conta da guerra, afirma Sissa. É, pois, a justificação bélica que aliena as mulheres do corpo do demos (povo) sobre o qual a demos+kratia (governo do povo) deverá assentar. A guerra enquanto elemento legitimador do poder androcêntrico é a grande tese que sustenta a ideia de que ao início, são os reis, príncipes, nobres que, no mundo pan-helénico de Homero, praticam entre eles formas de deliberação coletiva. A seguir, são os cidadãos que instauram o governo popular em Atenas.(...) [A]o longo de toda a história da democracia, apenas estes machos são considerados capazes, e dignos, de se governarem a si mesmos. Mas, para chegar a ela, é necessário todo um desenredar de conceitos que a autora imagina a escapar ao seu público. Por conta disso, opta por um didatismo forçado que, embora não comprometendo o argumento, compromete a adesão do leitor. De todas as formas, a pedra angular desta demokratia, diz-nos Sissa, é a performatividade de género masculino, igualmente dependente da biologia como das implicações morais dos elementos físicos e corpóreos masculinos (calor, estatura, pilosidade = coragem, honra), e é precisamente pegando nesta performatividade que a autora vê evoluir o conceito de feminino. Assim, enquanto o período da tragédia grega (coetânea do nascimento da democracia) recupera figuras femininas excelsas (e monárquicas) como Artemisia, Jocasta, Etra, Antígona e Electra que brilham na cena trágica graças ao escândalo do seu saber, da sua sabedoria e da sua coragem e que deliberam não tão bem quanto os homens, mas bem melhor, o período de consolidação da democracia antiga torna estas proezas impossíveis, afirma. Na origem desta regressão, está a teorização de género de Aristóteles que atribui à fêmea a diferença entre uma faculdade decisória deficiente, por um lado, e uma inteligência discursiva e técnica superior, por outro lado, acabando por criar um sistema de exclusão estável e duradouro. O problema em O poder das mulheres surge posteriormente, quando a autora recupera a cronologia do paradigma (paradoxal) grego — capacidade intelectual e inapetência das mulheres — que, resolvido negativamente pela formulação de género judaico-cristã, apenas vem a ser ultrapassado já adentrados no século XVIII. Ora, abordar a Idade Média en passant, mencionado apenas Tomás de Aquino, Pizan e Boccacio é não só redutor como programático, e resulta num salto quântico que deixa por equacionar um período de cerca de 1000 anos que são fundamentais para a teorização feminista. Este corte enfraquece a proposta — sobretudo porque, apesar de a guerra deixar de definir directamente a cidadania nesta altura, é precisamente quando as mulheres (governantes) passam a fazer parte dela. Assim, esta opção mais não faz do que denunciar uma mudança de agenda: defensora de Condorcet e Poulain de la Barre (dois nomes profundamente associados ao proto-feminismo), Sissa parece percorrer cada um dos capítulos seguintes com apenas este intuito — defender o posicionamento democrático das Luzes:
Diz-se que nenhuma mulher fez descobertas importantes nas ciências, não deu provas de Coginio nas artes, nas letras, etc. Acrescenta-se que nenhuma mulher tem a mesma extensão de conhecimentos, a mesma força de razão de certos homens. A isto há que responder, segundo Condorcet, que a mediocridade abunda entre os homens, mas essa não é uma razão para conceder o direito de cidadania apenas aos homens de génios.
Fazendo um arco entre a democracia antiga e a sua herdeira Iluminista, Sissa insiste na necessária reformulação do ideal de género através de uma apropriação de valores antigos, (embora os associe não à democracia, mas à monarquia). A (nova) democracia deve assim desfazer a homogeneidade masculina, a qual não é um pouco menos democrática do que deveria: é contrária à inclusão igualitária, princípio que define a qualidade democrática moderna. Onde Sissa não torna a pegar é na proposta inicial de avaliar o peso da democracia antiga. A meio do caminho, depois de truncar mais de um milénio de história, algures entre Rousseau (como porta-voz dos limites da democracia) e Condorcet (como bastião da superação da democracia), a sua tese recua para uma defesa dos teóricos feministas e abandona o plano avaliativo da génese da desigualdade de género. Neste preciso sítio, onde ganhava verdadeiro alcance para abordar a problemática dos discursos limítrofes, Sissa insiste no recorte. Afirmei antes que a leitura de O poder das mulheres começou por me sugerir uma problematização alternativa: a ideia de que capitalismo e patriarcado podem ser encarados como expressões de uma mesma fórmula. A fórmula (i.e. estrutura de exclusão), neste caso, seria a democracia. Teríamos assim como "fórmula” comum: guerra (critério de pertença à polis) — define cidadania; cidadania (reconhecimento político dessa pertença) — define legitimidade; legitimidade (direito a participar no poder) — exclui mulheres. Logo, a exclusão dá-se enquanto consequência estrutural. Todavia, essa premissa nunca chega a ser totalmente fechada, sendo antes monopolizada em favor de um gesto político: Não existe modernidade sem as mulheres. Esse desfecho deixa este volume algures entre uma história da democratização ocidental (não mundial, como a autora afirma) e uma história da censura das mulheres no seio da democracia. A autora abre a possibilidade trans-histórica (aptidão — direito), mas não a sustenta nem questiona outros contextos democráticos nos quais essa cadeia possa não se aplicar. Não estará a cidadania, na atualidade, muito mais dependente da produtividade/valor do que da aptidão? A estrutura de subordinação do direito à aptidão não desaparece, mas transforma-se. E a resolução desse eixo interpretativo não chega a acontecer aqui. A par da dificuldade técnica de acompanhar este volume (Sissa não amenizou a dureza académica) acresce a incompletude da premissa. Ainda assim, O poder das mulheres não pode deixar de suscitar o nosso questionamento sobre o que implica viver numa democracia historicamente excludente. Será a democracia realmente o melhor de todos os sistemas?
a igualdade deve tornar-se um direito por princípio. Enquanto ficar presa a uma identidade qualitativa subjacente, seja ela corporal, moral ou social, a igualdade não pode ser a mesma para todos.
A democracia inventada pelos atenienses era só para homens atenienses capazes de fazer a guerra para defender a sua cidade-estado e ter agência para participar na vida política da sua comunidade. A partir daí a exclusão das mulheres foi justificada pela filosofia, pela lei e pela religião. Só no teatro havia alguma oportunidade de fuga. Os cristãos alimentaram e adicionaram camadas a esta ideia que ainda hoje nos assombra e que só alguns iluministas, como Condorcet, desafiaram o status quo. Mesmo assim, a democracia liberal, bem diferente da grega, demorou a reconhecer as capacidades, e assim aceitar a sua participação na pólis. É um ensaio um pouco repetitivo, mas muito estimulante, ao mesmo tempo história das ideias, das mentalidades, da filosofia. Leitura obrigatória para todos, especialmente para aqueles que perguntam para que serve o Dia da Mulher.
Non ho compreso la traduzione italiana del titolo (L'errore di Aristotele - donne potenti, donne possibili, dai greci a noi) anche se, in effetti, fa capire che il focus del libro è sul concetto di democrazia greco e sul perché all'epoca le donne fossero escluse dal governo (e non solo). I temi sono interessanti, come il filo conduttore che da Aristotele ci porta a Tommaso d'Aquino e a Rousseau per poi arrivare a Condorcet. Tuttavia in molte parti (specie i primi tre capitoli) è eccessivamente ripetitivo per poter essere davvero gradevole.