Descobri esta revista totalmente por acaso, ao visitar uma loja especializada de revistas. Além de ser uma revista literária, o que só por si já era motivo para me atrair, este número dá destaque de capa a uma das atrizes que mais aprecio - Tilda Swinton - cuja entrevista ocupa metade das páginas. A outra metade é ocupada com textos de temáticas variadas mas relacionadas com a obra Odisseia, de Homero. Tendo visitado recentemente a Grécia e sendo eu grande apreciador da cultura clássica, a combinação Tilda Swinton-Odisseia foi muito oportuna.
A entrevista a Tilda é conduzida pela escritora britânica Deborah Levy e nela fala-se do percurso da atriz, dos seus gostos literários, da sua ligação à escrita, sempre num tom de conversa tão informal que me senti como se estivesse num café, rendido, a ouvir a conversa da mesa ao lado.
Dos textos sobre a obra em destaque, senti especial prazer na leitura de uma pequena história sobre a apanha e fiação do "byssus", uma matéria produzida por uns bivalves na costa da Sardenha e que já conta com poucos artesãos. A narração descreve o encontro entre a autora e a uma artesã que lembra uma Penélope dedicada e, ao mesmo tempo, uma feiticeira guardiã de uma arte mágica quase desaparecida.
O texto de Rob Doyle, um romancista irlandês, conta a experiência de leitura de Odisseia, em grande parte partilhada e em voz alta com um amigo, ao longo de um verão criativo e boémio em Berlim. Os vislumbres do quotidiano destes protagonistas entremeados nas reflexões sobre a própria obra não só revelam a intemporalidade da obra como me avivaram a memória do prazer dos períodos de languidez estival, como o que estava precisamente a começar.
Fico com pena que a revista entre agora num hiato, porque estava desejoso que repetir com números futuros, o prazer que este me proporcionou, mas este número basta-se bem por si só.