«Sendo as autoras aqui representadas nascidas entre 1831 e 1982, ou seja, separadas entre si por mais de um século e meio, e, como tal, apresentando-nos narrativas que se inserem em diversos estilos e sujeitas a diversos dogmas sócio-histórico-culturais, seria expectável que encontrássemos uma variedade temática que representasse a distância temporal entre estas. Surpreendentemente, podemos identificar dois temas constantes em todos os textos, de forma implícita ou explícita: um deles refere-se à incapacidade masculina de corresponder ao amor feminino. O segundo, de certa forma relacionado com o primeiro, aborda a violência e a subjectivação do espaço feminino, seja este físico ou cultural.» Da introdução de Deolinda M. Adão Autoras: Ana Plácido, Ana de Castro Osório, Florbela Espanca, Maria Judite de Carvalho, Natália Nunes, Maria Ondina Braga, Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta, Teolinda Gersão, Mónica Baldaque, Lídia Jorge, Hélia Correia, Cristina Carvalho, Luísa Costa Gomes, Rita Ferro, Maria Manuel Viana, Inês Pedrosa, Ana Margarida de Carvalho, Patrícia Reis, Joana Bértholo.
Esta colectânea reúne por ordem cronológica 20 contos de autoras portuguesas, desde Ana Plácido a Joana Bértholo. Apreciei a variedade e a oportunidade de conhecer escritoras de quem ainda não tinha lido nada, mas o meu gosto está bastante distante do de Inês Pedrosa, e não há mal nenhum nisso, mas também senti falta de boas contistas, como Ana Teresa Pereira, Teresa Veiga e a incontornável Graça Pina de Morais. Florbela Espanca, Maria Teresa Horta e Maria Judite de Carvalho são autoras preferidas há muito e estão aqui bem representadas, há três surpresas boas e dois contos que me custaram a digerir. Não costumo policiar a ficção no que toca a incapacidades e ao lugar de fala, mas sinto vergonha alheia quando se usa uma condição como enredo e para demonizar as personagens, como acontece em “Clastomina”, e que se recorra ao relato na primeira pessoa para se narrar um crime hediondo cometido por um homem racializado, como em “Overbooking”. Além da falta de sensibilidade do primeiro e da pretensão do segundo, há algo transversal a várias histórias mais actuais que é o recurso ao cliché, o que empobrece automaticamente um texto. Numa das poucas recensões desta obra, diz o leitor que ela foca o feminismo “mas sem exageros”, o que quer que isso seja, mas, tal como a beleza, o feminismo está nos olhos de quem o vê. Frases como esta, por exemplo, mesmo em jeito de paródia, não dignificam ninguém.
O que eu queria era ser cabeleireira, aliás. Mas não podia ser, era voltar atrás do trajeto da família, eu era a primeira da geração dos cursos superiores. Acabei por escolher História por causa dos penteados das gravuras do século XVIII que havia num livro lá em casa. Se houvesse um curso superior de cabeleireira já escusava de ter dado tantas voltas para ter aqui chegado.
- As Portas da Eternidade, de Ana Plácido - 2* - Solteirão, de Ana de Castro Osório - 2* - À Margem de um Soneto, de Florbela Espanca - 4,5* - Carta Aberta à Família, de Maria Judite de Carvalho - 5* - Clastomina, de Natália Nunes --------- - A China fica ao lado, de Maria Ondina Braga - 4* - Dominga, de Agustina Bessa-Luís - 3* - Lápis-Lazúli, de Maria Teresa Horta - 4* - Pequena Biografia, de Teolinda Gersão - 2* - O Olhar da Serpente, de Mónica Baldaque – 2* - "Overbooking", de Lídia Jorge -------- - O Poder, de Hélia Correia - 2* - Os construtores da paz, de Cristina Carvalho – DNF - Baía da Alumbrada, de Luísa Costa Gomes – 2* - Não há peixes, de Rita Ferro - 4* - Somos osso, somos?!? Osso somos, de Maria Manuel Viana - 2* - A Cabeleireira, de Inês Pedrosa – 3* - Em Maninhos Dedos, de Ana Margarida de Carvalho – 4* - Fúria, de Patrícia Reis -3* - A rapariga do hotel de cinco estrelas, de Joana Bértholo - 3*
3,7👩🔧 Vinte contos de outras tantas escritoras portuguesas, do ponto de vista feminino do mundo mas sem feminismos exagerados e tendenciosos. Gostei muito do conto A Cabeleireira, de Inês Pedrosa.