A denúncia de um crime no noticiário da televisão, o acerto de contas seguido de um massacre no bar de periferia, a tocaia do delegado para prender um bandido, o justiçamento de um pivete, o contrato de espancadores para dar uma lição no sócio, o filho marginal que tem tudo para acabar morto e acaba mesmo morto. Qualquer habitante de uma cidade brasileira estará mais ou menos em casa ao ler o Marçal Aquino dos contos de Faroestes.
Em onze relatos breves e potentes, vagamos por ruas em que "as pessoas, mesmo quando estão alegres, evitam sorrir, para que ninguém desconfie", por bairros lembrados "por coisas e gentes que ficavam mais à vontade na página policial do jornal". Amigos, conhecidos e vizinhos se encontram para tomar cerveja, papear, jogar sinuca em locais como "o boteco onde aconteceu a chacina na sexta-feira". A miséria humana leva os personagens a serem confrontados com situações tão semelhantes às das páginas de crime dos jornais. E nada parece acabar bem para essa "gente áspera".
Marçal Aquino nasceu em Amparo, no interior paulista. É jornalista, escritor e roteirista de cinema e de televisão. Publicou, entre outros livros, o volume de contos O amor e outros objetos pontiagudos, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti, e o romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Atuou como roteirista de filmes, como Os matadores, O invasor e O cheiro do ralo. Seu trabalho está publicado na Alemanha, Espanha, França, México, Portugal e Suíça. É autor do conto “Balaio” na coletânea Eu sou favela, título inaugural da Editora Nós.
livro de bruno que ficou sob minha guarda. não conhecia esse moço mas realmente muito maneiro a maneira de escrever. ns a que ponto eu to on pra esse tipo de tema mas sempre interessante ler
Surpresa dupla com esse daqui. Primeiro que não sabia que era um livro de contos, coisa que teria me afastado da leitura já que tenho poucas experiencias positivas com esse gênero. Segundo que, após a leitura mediana de seus dois romances, não estava entusiasmado em ler esse novo livro do autor. Como disse, gratas surpresas.
Como visitar um amigo íntimo, ouvir as mesmas histórias de sempre, continuar entretido e, mesmo antes do encontro acabar, já estar ansioso para vê-lo novamente.
Uma leitura brusca, séria e inimiga do freio, afinal, é impossível parar de ler. Me surpreendi com o conteúdo do livro, esperava algo mais imaginário e encontrei, por fim, um retrato nu e cru do Brasil. O autor nos apresentou o Brasil no seu estado “natural” ou pelo menos o que se entende por natural. Uma representação sincera do submundo brasileiro e todas as sujeitas que podemos encontrar quando adentramos nos mais e mais fundo.
A escrita é satisfatória e nos leva durante a narrativa de forma confortável e fluida, apesar da dificuldade de se retratar tais temas de forma a não romantizar crueldades. Existem problemas, não direi que não existem, alguns exemplos poderiam ter sido feitos de outras formas a fim de evitar estereótipos racistas que avassalam tanto o nosso país e só reforçam e incentivam a desigualdade no nosso país. Somos um país continental com uma diversidade absurda, não precisamos utilizar do mesmo exemplo sempre.
A escrita de Marçal Aquino adapta-se particularmente bem ao formato do conto. Os relatos tornam-se mais diretos, mais incisivos, mais apropriados ao estilo e aos temas preferidos de Aquino, e que ele conhece tão bem. A escrita salta do livro e ganha uma terceira dimensão, a dos cheiros, das texturas, dos ambientes cinzentos. Difícil encontrar um livrinho mais interessante do que este, lê-se de um fôlego. Para quem gosta do estilo, claro. Eu gosto!
Eu sou uma grande fã da escrita do Marçal Aquino, sempre rápida, afiada, seca, certeira. Todos os contos são bons e o livro acaba sem você nem perceber.