TW: Referência a Violência e Suicídio, Drogas, Doença e Morte
Náufrago. Talvez seja a palavra que marcará a minha memória desta história, porque há uma constante sensação de ir ao fundo, nem sempre com a capacidade de emergir - pela força das circunstâncias ou pela falta de vontade. Por oposição, há um traço de permanente sobrevivência, muito por culpa da amizade que se manifesta como principal fonte de salvação. A escrita da autora envolve-nos na sua simplicidade e no seu ritmo fluído, proximal, que nos desperta o desejo de saber mais, de descobrir o depois. E enquanto deambulava por esta história a duas vozes, oscilando entre a angustia e um salto de fé, comovi-me, ri-me, senti-me a afundar nesta tristeza que, ironicamente, tem algo de belo. Pelo meio, como se a vida fosse um jogo de sombras e perdas subtis, mas com um impacto barulhento no quotidiano, é fácil perceber que nem sempre é evidente o momento em que nos perdemos; que, se calhar, nos vamos perdendo aos poucos, até já não ser mais possível colarmos todos os cacos. Ainda assim, faltou-me algo, porque gostaria de ter mais momentos de interação entre os protagonistas - creio que a narrativa ficaria com outro brilho. Preferências à parte, é uma história que nos desarma, que nos transporta para os anos 80 e que nos deixa a refletir sobre problemas sociais graves, até porque não deixa de tecer um retrato da sociedade portuguesa.