Desafiando a autoajudaUm dos mais populares e polêmicos pensadores da atualidade, o filósofo Luiz Felipe Pondé não é, exatamente, um otimista. Pelo contrá sabe como poucos apontar as mazelas da sociedade e as contradições do comportamento humano. Escrever um livro sobre felicidade poderia, portanto, parecer uma incongruência. Poderia, mas não é. Apesar do debate sobre felicidade existir há quase dois mil anos, o filósofo busca inspiração em algumas dezenas de pensadores para versar sobre a lógica da felicidade e da infelicidade. Nada que se assemelhe a um manual de autoajuda. Pondé não oferece uma receita. Ele estimula o leitor a fazer exercícios filosóficos. Discute, questiona mas também oferece a sua opinião Argumenta, por exemplo, que ser bom não garante nada e que a ambição desmedida é um motor poderoso para a infelicidade. E afirma ser difícil pensar em parâmetros da felicidade no século o século da mentira que, segundo o filósofo, está sendo definido pelo marketing e pela psiquiatria. Talvez o leitor não termine (in)Felicidade para corajosos exatamente feliz – mas terá alimentado a cabeça e o espírito pensando a respeito.
Pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
Uma pessoa que diz que é "pós-doutorada" já começa mal. Fazer estágio pós-doutoral não dá título nenhum. O livro começou bem, escrevendo sobre o papel da contingência em nossas vidas. A página 40 já dá um resumo do ponto principal do livro: "Simples: em nosso mundo entendemos a felicidade como a conquista do controle sobre a contingência, coisa que nossos ancestrais tinham muito menos. Ser feliz é controlar os efeitos indesejáveis da contingência. Mas, como na essência ela é incontrolável, acabamos por fracassar, uma vez que o próprio projeto de controle sistemático da contingência - a modernindade - gerou inúmeras contingências históricas, sociais, políticas e biológicas" (p. 40). Mas depois virou um veículo para as visões preconceituosas e machistas do autor. Um livro de filosofia no qual o autor tem frases como "mais mulheres jovens e gostosas no meu colo", "delírios fanáticos dos veganos regredidos mentalmente", "equivocados veganos" não é para corajosos. Não devia ser para ninguém. Mais algumas pérolas: "Bom, até aqui, se o mundo ainda fosse um lugar de bom senso, qualquer um reconheceria que uma mulher deliciosa, de calcinha e lingerie consegue o que quiser do marido enlouquecido de tesão. Desde a pré-história sabe-se disso" (p. 148). O cara ainda vive na pré-história. "Pois bem, uma das formas de felicidade pregada pelo 'campo progressista' é a ideia de que o desejo deve ser o que elas, feministas azedas e infelizes com sua experiência amorosa, acham que deve ser." (p. 149). Que visão de mundo deste sujeito! E que visão do feminismo! Professor da PUC-SP. Imagina. A PUC está mal mesmo. Tenho vergonha de, desconhecendo este autor, ter caído na armadilha do marketing e comprado este livro. Vai direto para a lixeira. Nem para doação serve.
Às vezes é necessário fazermos o luto da felicidade para sermos alegres.” Thibault de Montaigu, La Grâce
Nenhuma criatura é suficiente por si mesma, não é causa de si mesma, nem se mantém por si mesma. Essa é a insuficiência estrutural da condição de criatura. Nós somos a única criatura que sabe disso e tenta esquecer o tempo todo.
a busca pelo significado é um problema autorreferencial da espécie Homo sapiens e morrerá com ela.
desistir da busca enlouquecida pela felicidade, e saber que ela é algo que normalmente acontece quando você está ocupado fazendo outra coisa, pode ajudar a conseguir um pouco de paz, coisa que todo mundo procura, e pouquíssimos encontrarão um dia. A ordem das coisas do mundo de hoje desconhece essa condição: desistir da felicidade é uma forma de chegar mais perto dela,
Coragem, humildade, misericórdia, perdão, reconhecimento do desamparo são da família da felicidade, muito mais do que ideias comuns hoje em dia, como assertividade, metas, métricas e foco. O marketing é uma das ciências dedicadas ao desespero.
seria a vida um drama narrado por um idiota
só o fracasso nos faz adultos.
A vida pautada por metas e métricas é um roteiro, seguramente, escrito por um idiota
Uma das maiores formas de infelicidade de nossa época é viver sob métricas. Sejam elas alimentares, de peso, de beleza, de likes ou de grana.
A verdadeira commodity do mercado da felicidade é a infelicidade sendo gerada em alta escala.
o objetivo de estar vivo é conduzir os processos vitais, sociais, políticos, psicológicos e espirituais de forma tal que a resultante seja um crescimento constante e acelerado em direção ao aperfeiçoamento contínuo e acumulado.
Como é justamente o fracasso que nos humaniza, a insistência no controle sistemático do fracasso gera uma desumanização em escala social e psicológica. O nome disso é infelicidade
Procurar o tempo todo no cotidiano algo que faça você relevante é um mal infinito.
Querer ser celebridade é indício de que você não tem mesmo vocação pra nada.
O tédio é, em si, uma vivência do vazio de significado que se espalha pelas horas infinitamente.
a experiência do conhecimento é, basicamente, uma vivência das nossas falhas de repertório, por isso todo mundo sabe que sem humildade não há conhecimento.
A misericórdia salva a vida, vendo nela o desespero e apontando a possibilidade de que nem só do mal vive o homem.
O encontro com a misericórdia no mundo resgata nossa possibilidade de confiar no mundo. A confiança no mundo é essencial se quisermos enfrentar a infelicidade que nos assola sem misericórdia.
Filha da velocidade e da perda de raiz do mundo antigo e medieval, a moda é a beleza condenada a envelhecer em público.
todos querem ser reconhecidos em suas pequenas identidades irrelevantes. E o marketing é a sua oração.
Velhice é uma forma de empobrecimento fisiológico. E a pobreza é sempre uma forma de condenação.
a humanização é a capacidade de convivermos com nossa insuficiência estrutural da melhor forma possível em vez de negá-la,
Viver o presente, sem nostalgias ou obsessões com metas futuras (tão comum entre nós), pode nos dar mais fôlego para usufruir o que é bom à nossa volta, na concretude do cotidiano.
só os que erram veriam a verdade, mesmo que a distância, e sem nunca tocá-la de fato, e de modo reverente.
A saúde é aquilo que existe antes de a insuficiência se manifestar.
Muitas vezes o que sobra a quem não quer mentir o tempo todo é o ódio à santidade na sua recente forma de marketing de produtos.
A ideia de que a moral não nos faz sofrer é para iniciantes. Aí reside sempre a grande falsidade dos bons.
o marketing é, por excelência, a ciência da covardia no mundo contemporâneo.
O mundo corporativo é gerador de infelicidade de modo estrutural. Não fosse por isso, não estaríamos montando um circo nele a cada dia para fazer com que os macaquinhos se sintam amados, antes da eliminação.
espero nunca ser uma boa pessoa. Nunca ter uma causa, e nunca fingir que sofro pelo sofrimento de quem não conheço.
“Contemplar as coisas, as estudar, a elas se consagrar, nelas se absorver, não é isso mesmo ultrapassar a condição mortal e ter acesso a uma condição superior? Qual ganho, me diz você, que poderás tirar de tais estudos? Se não há nenhum outro, certamente há este aqui: saberei que tudo é pequeno, quando aprendermos a medida do olhar de Deus.” Sêneca, Questões naturais.
o essencial é desistir de si mesmo como centro do universo, ou supor que o Logos seja você, e com isso ser capaz de ascender a um caminho tortuoso, mas possível, de saber que não somos o protagonista do roteiro do mundo, mas que, justamente, desistir de ser esse protagonista é que nos devolve a chance de descobrirmos a justa medida de nosso personagem num drama que nos ultrapassa e que encontra, nesse movimento, sua beleza maior, da qual fazemos parte.