Voltou a chorar, mas desta vez uivando num si sustenido, humano. Pegou no coração laxo, esmagado por ela e por deus, e voltou-lhe a apertar o nó de encapeladura que era seu e era certo, e que desde a mais tenra infância lhe tinha sustido a alma no sítio certo.
Cláudia Andrade impressionou-me com os contos de “Quartos de Finais e Outras Histórias” e essa estrutura pode transplantar-se um pouco para este romance na forma de capítulos curtos, rodando a perspectiva pelos habitantes de uma aldeia sitiada, a partir de subtítulos que parecem versos, como por exemplo, “A virgindade é um furúnculo reluzente entre as minhas unhas”, “Pastam placidamente as algas da eternidade”, “Os corações são coisas subterrâneas”, “A criação, uma cacofonia que ninguém ouviu”, “A espera é um caracol sonhando asas”, “São fúnebres as cores do silêncio”, todos eles dando o mote para o negrume que grassa em “Um Pouco de Cinza e Glória”.
Os soldados invasores mantinham-se ao largo. Eram constituídos na sua esmagadora maioria por uma fornada de jovens que não haviam visto guerra ainda, e que provavelmente não chegariam a vê-la. (…) No entanto, com guerra ou sem ela, aqueles rapazes iriam sem dúvida amadurecer e fazer-se homens a sério, gerados a partir da conhecida dieta simples nos intervalos de opíparas crueldades.
Num lugarejo sem identificação temporal ou espacial, a população aguarda a entrada do exército inimigo. Apesar de o alcaide estar prestes a selar a capitulação, há homens que receiam a chegada das forças hostis, tanto por si, pertencendo à guerrilha, como pelas suas mulheres, presas fáceis para os soldados. À espera dos bárbaros, são alguns dos próprios habitantes que optam pela brutalidade e cometem inesperados actos de selvajaria.
Não é impunemente que Fredo reflecte, sobretudo à noite quando reflectir é tão triste. Rememorando, percorre a passos largos os espinhaços e as planícies do seu rumo, mas para no limiar da cancela para o desgosto, achando supérfluo atravessá-la. Cata na almofada, como pulgas, com sinceridade e paciência, os seus erros, e esmaga-os um a um com a unha do bom senso.