A mulher negra é a síntese de duas opressões, de duas contradições essenciais a opressão de gênero e a da raça. Isso resulta no tipo mais perverso de confinamento. Se a questão da mulher avança, o racismo vem e barra as negras. Se o racismo é burlado, geralmente quem se beneficia é o homem negro. Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social.
Sueli é uma das mais expressivas filósofas, ativistas e autoras do feminismo negro no Brasil e seus artigos abordam temáticas imprescindíveis para refletir sobre a sociedade e moldar o pensamento. Sueli fala sobre gênero, raça e ascensão social, o poder feminino no culto aos orixás, tempo feminino, expectativas de ação das empresas para superar a discriminação racial, novos e velhos desafios do movimento negro no Brasil, além de outros temas fundamentais para a compreensão histórica e política da luta das mulheres negras brasileiras.
Filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro. Sueli Carneiro é fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil. Possui doutorado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).
Sueli Carneiro é GIGANTE! Escritos de uma vida reúne textos da filósofa, publicados ao longo de sua carreira, que descrevem a realidade brasileira de, principalmente, mulheres negras. Vários dos textos trazem dados que, para quem vive a realidade de uma pessoa pobre e não-branca, não são tão surpreendentes, mas que são importantes para aqueles momentos de "entendeu ou precisa que desenhe?". Eu demorei para terminar, porque optei por ler os capítulos aos poucos, e acho que foi a melhor forma de absorver as informações, mas tenho a impressão que sempre vou voltar em algum capítulo para reler. Com certeza, é o tipo de livro que, para quem gosta de estudar pautas raciais e feminismo negro, se torna uma referência indispensável.
“[...] Para nós, mulheres negras, a conjugação das discriminações de raça, sexo e classe implica em tríplice militância, visto que nenhuma solução efetiva para os problemas que nos afligem pode advir da alienação de qualquer desses três fatores. [...]”
Vivo minha vida sem preconceitos porque busco me relacionar, intimamente, com pessoas com quem tenho algum tipo de afinidade, que tenham semelhanças de valores comigo, que gostem de falar mais de projetos de vida do que da vida dos outros, enfim, pessoas que admiro, respeito e quero perto de mim porque a existência delas é valiosa para mim, e viver sem um conceito antecipado com base em cor, classe social, opção sexual e gênero, me fez encontrar amigas e amigos maravilhosos, que, como eu, e todos nós, são apenas seres humanos de passagem por aqui.
Me pergunto: por que tanto barulho injusto para deixar de saborear o delicioso bolo da vida feito com diversos ingredientes humanos, que são distintos em cor, classe, gênero e opção sexual, para, no fim, acabarmos todos iguaizinhos no silêncio da eternidade?
Escritos de Uma Vida, de Sueli Carneiro, é uma obra que carrega força, urgência e uma inteligência afiada. Mais do que um livro, é um testemunho da luta antirracista e feminista no Brasil, trazendo textos que atravessam décadas sem perder a relevância. A escrita de Sueli é direta, sem concessões, e nos faz enxergar — sem filtros — as estruturas de opressão que insistem em se perpetuar.
O que mais me impactou foi a maneira como ela articula pensamento e militância, conectando história, política e experiência pessoal de um jeito que não dá para ignorar. Cada ensaio é um convite à reflexão, um chamado à ação e, ao mesmo tempo, um resgate da memória e da resistência negra no país. É um livro necessário para entender o Brasil e, mais ainda, para transformá-lo.
Ler Escritos de Uma Vida é sair diferente do que se entrou. É se sentir provocada, inspirada e, acima de tudo, ciente de que a luta continua e precisa ser coletiva. Sueli Carneiro é gigante, e esse livro é a prova viva disso.
"Existe, sim, um racismo brasileiro, um tipo de racismo e de intolerância próprios, que causam miséria e exclusão. Esse tipo de racismo se assemelha a um animal perigoso, que ataca à noite, silenciosamente, e cuja existência se denuncia apenas pelos rastros, pelas vítimas que se encontram pela manhã." (p. 106).
Embora muito tenha sido produzido desde a publicação de Escritos de Uma Vida, ela segue sendo um marco. Isso se deve à potência argumentativa de Carneiro, que articula dados e dialoga com diversas esferas da realidade para tecer denúncias ao racismo entranhado nas mais variadas esferas sociais, no empenho por uma sociedade mais igualitária. Mais do que fazer uma leitura maestral de indicadores empíricos, Sueli foi também ativa na busca por índices que refletissem de fato a realidade de pessoas negras e, sobretudo, de mulheres negras, no Brasil. Exemplo disso é a demanda pela desagregação dos critérios por gênero e cor nas pesquisas estatísticas a nível nacional. Esta permitiu interseccionalizar as análises das experiências de mulheres no país, o que possibilitou elaborar políticas efetivas, abrangendo lutas diversas.
Ademais, a autora proporcionou uma mudança drástica na forma de fazer teoria, a partir do conceito de epistemicídio. Este critica o alijamento de pessoas negras dos processos hegemônicos de produção de conhecimento, tanto ao restringir o acesso à educação formal para esse segmento da população, quanto ao desconsiderar as contribuições intelectuais, culturais e históricas da diáspora africana como aportes epistemológicos válidos, ou até mesmo ao coibir e aniquilar essas produções. Isso significa um duplo assassinato, pois, segundo a autora: "O que significa não ter direito ao próprio passado? Sem memória não é possível construir projeto, pensar futuro." (p. 181).
Desta maneira, a partir da obra, é possível observar como alguns aspectos da vida em sociedade transformaram-se a partir dessa luta, ao passo que outros permaneceram similares ou sofreram retrocessos. De fato, a autora trata de temas que são em essência políticos, para os quais teoria e ação estão imbricados na construção intencional de condições de vida mais igualitárias e justas. Isso implica mudanças a níveis econômico, ocupacional, jurídico, de estruturas de poder, educacional, epistemológico, ambiental, cultural, midiático, simbólico, identitário, interrelacional, dentre outros, porque o racismo é pervasivo na estrutura social brasileira.
Efetivamente, a autora cita Joaquim Nabuco, afirmando que a escravidão não foi erradicada no Brasil à medida que sua "abolição" não promoveu a integração das pessoas negras no país e manteve uma hierarquia racial no molde escravocrata. Ela conecta isso à ideia de Bobbio (1992) de igualdade substantiva, ou seja, de que a igualdade de fato só será possível a partir da identificação e do combate direto às desigualdades e às diversas formas de opressão existentes. É nesse sentido que ela emprega as palavras de Calligaris (1997), de que: "Corrigir a desigualdade, que é herdeira direta, ou melhor, continuação da escravatura, no Brasil, não significa corrigir os restos da escravatura. Significa finalmente aboli-la." (p.231).
Por fim, embora criticasse o mito da democracia racial, Carneiro não excluiu por completo o horizonte de uma realidade onde relações harmônicas entre grupos raciais sejam possíveis. Para ela, essa possibilidade parte do reconhecimento de que, ainda que a raça não exista enquanto fato biológico ou cultural, o racismo pauta relações de poder que determinam privilégios e opressões. Logo, é necessário que pessoas brancas deixem uma ilusão de conforto nessas relações, compreendendo que este só é possível para elas por estarem em posição dominante e passem a se esforçar para promover condições justas para todos. Nesse sentido, Sueli Carneiro apostou na possibilidade de estabelecimento de alianças, intra e intergrupo, dentro de diversas instituições sociais, como empresas, instâncias governamentais, jurídicas, educacionais, dentre outras, visando promover uma mudança real no interior das mesmas, ampliando direitos e oportunidades para mulheres negras e para outros grupos que foram marginalizados por tempo demais.
O livro só veio para comprovar o que eu já sabia: Sueli Carneiro merece muito mais reconhecimento. Ela tira onda e esfrega na cara da sociedade todos os problemas relacionados a raça e a gênero. É uma leitura que recomendo muito.