O povo do Líbano foi abandonado pelo pacto do Líbano, quando já não faltavam provas de que esse pacto é mortífero. E dentro do labirinto o país pressente a explosão geral. Ela está a acontecer já.
Eis o que me chega a cada dia dos amigos, foi chegando ao longo dos meses em que este livro se estendeu, como uma conversa que não queremos terminar.
Passámos juntos a quarentena, mortos e vivos, esses romanos, esses otomanos, esses palestinianos, esses sírios, a voz de Fairuz, o sorriso de Ali, o pão, o manjericão, o pequeno-almoço em Baalbek, a neve que até hoje Caroline me envia das montanhas, onde imagino que mais abaixo os ciclâmens estejam floridos, com as suas pétalas de pássaro, a sua cintura carmim.
ALEXANDRA LUCAS COELHO nasceu em Dezembro de 1967. Estudou teatro no I.F.I.C.T. e licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou dez anos na rádio continuando ainda hoje a colaborar com a RDP. Desde 1998 é jornalista no Público. A partir de 2001 viajou várias vezes pelo Médio Oriente / Ásia Central e esteve seis meses em Jerusalém como correspondente. Foram-lhe atribuídos prémios de reportagem do Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prémio Gazeta 2005. Mantém o blogue Atlântico-Sul, onde publica as suas crónicas que escreve para o Público.
Em 2007 publicou «Oriente Próximo» (Relógio D’Água), narrativas jornalísticas entre israelitas e palestinianos. Publicou mais quatro livros de reportagem-crónica-viagem: «Caderno Afegão» (2009), «Viva México» (2010), «Tahrir» (2011) e «Vai, Brasil» (2013). Em 2012 escreveu o seu primeiro romance, «E a Noite Roda», vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012. Publicou, recentemente, «O Meu Amante de Domingo» (2014).
Uma barreira que parece ser de betão serve de protecção à fachada do Ministério do Interior libanês. Está pintada com as cores da bandeira do país, três listas horizontais, a superior e a inferior num tom de vermelho escuro, a do meio branca. A negro, cedros desenhados em sequência despontam entre os muitos cartazes e fotografias coladas, as tags que se multiplicam, os grafitis. A palavra “REVO⅃UTION” prende a nossa atenção, as letras que formam a palavra “LOVE” inscritas a vermelho e invertidas. Na rua, as pessoas acumulam-se. Há gente que discursa de megafone na mão. Agitam-se bandeiras, erguem-se cartazes. Em muitos deles, a frase: “We want our money back”. É este o poder de uma fotografia. Uma das muitas que ilustram “Líbano, Labirinto”, o olhar de Alexandra Lucas Coelho a corroborar a narrativa, a prolongá-la, a vincá-la. Porque este livro é, para além da crónica, reportagem e ensaio que se abrigam na sua matriz, também um álbum fotográfico.
As primeiras páginas colocam o leitor no centro de um pesadelo, duas semanas e meia passadas sobre aquela que foi uma das maiores explosões não-atómicas da História. Os ponteiros marcavam as 18:07 desse fatídico 04 de Agosto de 2020 quando se deu o rebentamento das quase três mil toneladas de Nitrato de Amónio que há sete anos se encontravam armazenadas num silo gigante do Porto de Beirute. Recordo as imagens amplamente difundidas da onda de choque que avança sobre a cidade, estilhaçando tudo à sua passagem e causando mais de duzentos mortos, sete mil feridos e cerca de uma centena de desaparecidos. Agora, é ao lado de Alexandra Lucas Coelho, do seu tradutor Ali e de Aeesha, a namorada deste, que percorremos a rua Gouraud, “tão paralelos quanto perpendiculares ao mar”. Esventrados, sem portas, os andares térreos dos prédios são buracos. Rasgões insólitos nas fachadas expõem a intimidade das casas. Tapumes, improvisos, remendos, preenchem a paisagem. Das varandas restam os ferros agarrados às paredes. O entulho amontoado dificulta a progressão e único ruído é o do vidro partido sob os nossos pés a cada passada.
Ao longo de quase quinhentas páginas, Alexandra Lucas Coelho fala-nos deste Líbano e “de uma história que parece condenada a renascer das cinzas, a voltar às cinzas.” É assim há pelo menos cem anos, desde o estertor do Império Otomano. Metodicamente, a escritora dá-nos uma lição de História, começando na Grande Revolta Árabe e no acordo secreto Sykes-Picot de permeio com Lawrence da Arábia, atravessando as sucessivas ocupações israelitas, Musa al Sadr e o Movimento dos Desprovidos, a Guerra Civil que teve início em Abril de 1975 e se prolongou por quinze anos, até à Revolução de Outubro de 2019 (que Alexandra Lucas Coelho acompanhou, deixando-nos aqui nota desses dias de esperança e luta). Neste longo périplo, vamos reconhecendo algumas figuras – Arafat, Nasser, Ariel Sharon, Muamar Kadhafi, Bashar al-Assad, Ronald Reagan, Kissinger, Khomeini – e tomando contacto com outras – Hamed Sinno, Alireza Shojaian, Soha Bechara, Wajdi Mouawad, Lamid Ziadé, Charif Majdalani. Tudo isto de permeio com os compadrios e conluios, a corrupção, promessas de morte, carros bomba, massacres, Sabra e Chatila, o Hamas, a Fatah, a Jihad Islâmica, o Hezbollah, a Palestina. E Khiam.
O que “Líbano, Labirinto” tem de mais extraordinário é o desfilar de emoções que se derrama da prosa de Alexandra Lucas Coelho e contamina o leitor. Quem a conhece de livros como “E A Noite Roda”, “A Nossa Alegria Chegou”, “O Meu Amante de Domingo” ou o fabuloso “Deus-dará” sabe ao que vai sempre que abraça um novo livro seu. Uma vez mais, ela suplanta largamente as expectativas, oferecendo-nos um livro fundamental para a compreensão da questão libanesa, exemplarmente organizado num complexo puzzle de datas, locais e figuras, profusamente ilustrado com as imagens e as vozes que marcam cada momento e inspirador na medida em que nos deixa a certeza de que “quem pisa Beirute ama Beirute”. O profundo amor por esta cidade tão martirizada, pelas pessoas que não desistem dela, percebe-se em cada frase, em cada imagem que Alexandra Lucas Coelho partilha connosco. Generosa, combativa, ela faz eco daquilo que mais ouviu em todos os relatos, em todos os testemunhos: “Não parem de falar do Líbano, não nos esqueçam.” Não esquecemos. Não esqueceremos!
O Líbano, tal como a Síria, a Palestina e o Iraque são fruto dos despojos do Império Otomano, partilhados pelos vencedores na Primeira Guerra Mundial. E o passado da Antiguidade e da Época Moderna parece abafado pelos conflitos actuais. É um excelente texto que nos deixa a nós, ocidentais, com consciência pesada: desde 1949 que existem refugiados palestinianos no Líbano; as mulheres libanesas ainda são cidadãs de segunda; quem governa o Líbano não respeita os seus cidadãos, mas ninguém os incomoda. Continua-se a fingir que o Ocidente não tem nada que ver com o Próximo Oriente.
𝑳í𝒃𝒂𝒏𝒐, 𝑳𝒂𝒃𝒊𝒓𝒊𝒏𝒕𝒐 situa-se entre a revolução e a explosão de 4 de agosto de 2020, no porto de Beirute. Tendo tido pelo meio a pandemia que agravou em muito a derrocada económica do país. Em ambas as situações, Alexandra Lucas Coelho (ALC) deslocou-se ao país, como repórter. Foi a partir das múltiplas conversas que teve em Beirute que escreveu este livro.
Após a explosão no porto, ALC que se encontrava em Portugal percebeu que tinha de partir, de novo, para ver com os seus próprios olhos (não podemos esquecer que o acontecimento foi amplamente noticiado), para sentir e captar tudo. Lá, constatou a enorme devastação da cidade, completamente em ruínas, e a vida miserável da população que permaneceu na cidade, mantendo, apesar de tudo, a esperança numa recuperação.
É nesta toada de deambulação pelas ruas, de recolha de imagens e de depoimentos, de conversas com amigos, revolucionários, mulheres, homens da rua, artistas, poetas, … que ALC nos oferece a sua visão, a sua leitura sobre o Líbano, o Médio Oriente, uma paixão que já tem cerca de 20 anos. 𝑳í𝒃𝒂𝒏𝒐, 𝑳𝒂𝒃𝒊𝒓𝒊𝒏𝒕𝒐 é um excelente trabalho que põe em evidência a crise, a miséria, a destruição, os mortos, a violência, o papel da mulher, as mudanças histórico-sociais sofridas ao longo dos tempos, as seitas religiosas (18), a cultura, …
A autora recorre à crónica, à reportagem, ao testemunho e à memória difusamente ilustradas com fotografias a cores (350). Numa entrevista à Visão, ALC referiu que não encara este livro como jornalismo, mas sim como não-ficção, isto é mais próximo da literatura. Ainda, segundo ela, esta diferença permite-lhe escrever com total liberdade e assim, “o livro seguiu para onde senti que tinha de ir”.
Ao longo das páginas, o leitor percebe que a opinião de ALC sobre o labirinto que o Líbano vive, não é de agora, não se deve essencialmente a estes poucos dias que esteve no país, mas deve-se às suas vastas leituras, e sobretudo aos anos que dedicou e viveu na região (Líbano, Israel e Palestina) Concordemos ou não com a sua opinião, não permanecemos indiferentes ao “Mapa de uma história que parece condenada a renascer das cinzas, a voltar às cinzas.” (p. 13); à hospitalidade das suas gentes que partilham o pouco que têm; à esperança de quem acredita que tudo pode renascer.
ALC ganhou com este livro o Prémio Oceanos e na altura o júri referiu, entre outros aspectos, que “a autora constrói um livro poderoso sobre os afetos e a guerra, a angústia e a esperança.” Concordo perfeitamente. É um livro pleno de sensibilidade que nos faculta conhecimentos sobre um povo e um país complexo em constante convulsão, refém de uma divisão religiosa.
Nas páginas do meu livro, no final, existe um conjunto de páginas em branco. Não sei, se foram assim, deixadas por esquecimento, como um prenúncio aberto à paz. Desconheço se, imaculadas, apenas esperam que o Líbano, nos seus desencontros e abandonos, volte a ser notícia pela próxima guerra, pela próxima tragédia, pela calamidade seguinte. Talvez sejam apenas páginas de esperança escancaradas ao sonho e ao futuro... Aguardo. Fraternalmente... Aguardo.
Perde-se entre livro de memórias, retrato jornalístico conjuntural, e livro de história breve; entre análise cuidada e manifesto emocionado; entre o Líbano como país e o Líbano enquanto peça do mundo árabe. Uma grande escritora talvez conseguisse dar forma e força a esta composição; mas Lucas Coelho é uma prosadora medíocre com uma infeliz tendência para o lirismo romântico. De qualquer forma, não saio indiferente ao Líbano. Certamente não ao que tem de bom.
Excelente porta de entrada para a complexidade esquizofrénica da história do Líbano moderno. Contudo, a notória e por vezes marcada posição política da autora acaba por retirar algum prazer da leitura em determinados momentos.
4⭐️🇦🇪 um bom livro, bem escrito, com textos jornalísticos sobre uma região do mundo interessante para se conhecer não fossem as guerras constantes, as bombas, as complicações geradas pela religião, pelas crenças e por políticas absurdas.
Há poucos livros sobre o Líbano. Tirando a divisão territorial baseada na religião, eu sabia muito pouca coisa, nomeadamente sobre o campo de prisioneiros controlado por Israel, que ordenou a destruição do dito campo.
Alexandra Lucas Coelho is a Portuguese journalist who has been covering Near and Middle East events for some decades. This enthrailing book is about Lebanon and is build from her visits to that country (mainly to Beirut, with some occasional forays to other parts of the country) in 2019, to cover the "Revolution", in 2020, to cover the aftermath of the harbour explosion, and in 2021. Informed by conversations with Lebanese (and, occasionally, Palestinian and Syrian) persons and illustrated by a huge number of photographs taken by the author, the book carries an evident empathy with the country and the hard plyth of its people entraped by a fossilized political arrangement and surrounded by two unwelcoming neighbours.