Um corpo à deriva é um romance distópico. A partir de um pacto doloroso entre dois jovens, Eu e Tesfa, a trama se desdobra em fragmentos. No decorrer de uma tarde, entre a entrega amorosa e os desencontros, os jovens recordam fatos de suas experiências atravessadas por fatos da história do Brasil. Confinados no pequeno apartamento, eles recebem a “visitas” do Velho angular (uma voz ancestral), do amigo Chagas (artista plástico) e de Fin (outra enigmática voz do passado). Através de uma teia de antinarrativas, os personagens desvelam a solidão e o horror como guias da vida contemporânea. Os versos de Derek Walcott (“Há uma luz nova vindo depois da tempestade/ no mar ainda em desordem ...”), encimados como epígrafe, antecipam o que é, para os personagens, conhecimento da história e desamparo ante as incertezas do futuro. Mas Um corpo à deriva é também um romance utópico. No discurso de Tesfa desponta um caminho de redenção para o Eu, o Chagas e o Fin. Ao denunciar a violência, a personagem recupera outra palavra, ainda não enunciada, por isso capaz de reinaugurar o mundo. A obra analisa temas como o autoaniquilamento, a solidão, a amizade, a história oficial e a própria linguagem como suporte de enunciação. Um corpo à deriva, embalado pelo pathos musical de várias vozes negras, dança à beira do abismo, arriscando-se como só é possível a quem vive.
Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1963. É poeta, ensaísta e professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Possui uma obra extensa e múltipla, com publicações nas áreas de poesia, literatura infanto-juvenil e ensaio, na qual se destacam: Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003), Relva (2015), maginot, o (2015) e Guelras (2016) - poesia; Os reizinhos de Congo (2004) e O primeiro menino (2013) - infanto-juvenil; Malungos na escola: questões sobre culturas afrodescendentes e educação (2007) e Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma estética de base afrodiaspórica na literatura brasileira (2017) - ensaio.
Como tudo o que nos impuseram, a guerra deles os protege. A nossa quer dessangrá-los [...] Em seu território, vamos com um livro e nos sentamos sob as árvores. À distância de um braço, algum abraço se desdobra. E nos regeneramos, ainda que cindidos pela consciência que temos da história.
Ou morres saltando da janela ou saltas para dentro da vida. Eu te agradeço. Espero que a minha humanidade estilhaçada me devolva ao cerne dos acontecimentos.
Tu e eu e os sobreviventes: os que se recusaram a ser iludidos porque se descobriram linguagem.
esse foi uma luta pra terminar pq não entendia nada….. mas tem passagens lindíssimas!!!! li pra uma cadeira de pesquisa da escrita e foi muito especial ler em conjunto anotando no diário de borda e depois conversar com o autor. edimilson acessível até me seguiu no insta!!
“quanto a nós, fiquemos com o paradoxo da linguagem. por ser um vazio, uma página à espera, ela é solidária. não é de sua natureza apropriar-se de nada, quando muito se dispõe na praça: o que quereis de mim? — ela nos interroga. o que queremos, afinal, da linguagem? tudo, tudo que nos permita ser no mundo sem que nossas costas se curvem.”