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Obras Completas. Psicanálise - Volume 1

Nesta publicação, a Editora WMF Martins Fontes optou pela utilização da organização e edição realizadas pela dra. Judith Dupont, cujo aparelho crítico é hoje paradigma para a leitura da obra de Ferenczi e é praticamente parte integrante das mais respeitadas edições em todo o mundo. Esta edição completa a Bausteine pela introdução de muitos artigos e textos diversos publicados em húngaro, francês, e mesmo em alemão e que não haviam sido incluídas na Bausteine Zur Psychoanalyse de 1939.

Volume 1 - A presente obra constitui a primeira parte das Obras completas de Sándor Ferenczi, com os textos escritos entre 1908 e 1912, abrangendo alguns clássicos da literatura analítica como "Transferência e introjeção", "Palavras obscenas", "O papel da homossexualidade na patogenia da paranoia", "Sintomas transitórios", etc.

Paperback

Published January 1, 2011

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Sándor Ferenczi

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December 16, 2023
Achei ótimo, linguagem mais simples do que na maioria dos textos de psicanálise, conceitos muuuito bem explicados e elaborados e constantemente retomados, além de considerações que me surpreenderam positivamente sobre a influência do patriarcado na sexualidade feminina.


“só o egoísmo masculino, sobrevivência do velho regime patriarcal, pôde desviar a atenção dos homens... logo, dos médicos, deste problema.Estamos habituados desde longa data a admitir que somente os homens têm direito à libido sexual e ao orgasmo; estabelecemos e impusemos às mulheres um ideal feminino que exclui a possibilidade de exprimir e de reconhecer abertamente desejos sexuais, e só tolera a aceitação passiva, ideal que classifica as tendências libidinais, por muito pouco que elas se manifestem na mulher, nas categorias patológico e "vicioso"

“Se os homens rompessem seu modo de pensar egocêntrico para imaginar uma vida em que lhes tocasse sofrer constantemente a interrupção do ato antes da resolução orgástica da tensão, dar-se-iam conta do martírio sexual suportado pelas mulheres e do desespero provocado pelo(dilema que as reduz a escolher entre o respeito a si mesmas e a plena satisfação sexual.”

“E a experiência parece confirmar, com efeito, que não se trata de uma diferença orgânica nos dois sexos mas de uma diferença de condições de vida e de pressão cultural, para explicar essa “discronia" na sexualidade dos cônjuges.”

“Breuer foi o primeiro a relacionar o conjunto dos sintomas apresentados por uma paciente histérica com traumatismos psicológicos, choques psíquicos esquecidos mas cuja lembrança, investida dos afetos correspondentes, permanece latente no inconsciente e, como um enclave estranho no psiquismo, provoca tensões contínuas ou periódicas no aparelho neuropsíquico. Com a ajuda da hipermnésia provocada pela hipnose, Breuer e Freud estabeleceram que os sintomas são, na realidade, os símbolos dessas lembranças latentes; em seguida, no estado vigil, levaram a paciente a adquirir consciência dos acontecimentos passados que foram revelados no decorrer do sono hipnótico, suscitando assim uma violenta descarga emocional; esta apaziguada, os sintomas desapareceram definitivamente. Segundo Breuer e Freud, o recalcamento da lembrança e de seu afeto, latentes no inconsciente, devia-se ao fato de que, no momento do choque psíquico, o indivíduo não estava em condições de reagir ao acontecimento, ou seja, de exprimir-se por palavras, gestos, uma mímica, pranto ou riso, cólera, irritação ou outras manifestações de uma emoção intensa, em outras palavras, em condições de elaborar suas emoções mediante associações de ideias. As emoções e as ideias, não podendo resolver-se corretamente no nível psíquico, refluíram para a esfera orgânica e converteram-se em sintomas histéricos. O tratamento, a que os autores chamaram catarse, permitiu ao paciente eliminar essa lacuna, "ab-reagir" os afetos não liquidados, suprimindo assim o efeito patogenico da lembrança privada de seu afeto e tornada consciente.”

“muitas impressões são esquecidas porque o psiquismo inclui uma instância de julgamento, a cen-sura, que recalca sob o limiar da consciência as representações insuportáveis ou dolorosas Freud designa esse processo como Verdräng-ung + rejeição, repressão, recalque demonstrou que esse mecanismo desempenha o mesmo papel nas funções mentais normais e patológicas
O recalque das lembranças desagradáveis nunca é, na prática, um processo que se conclui com inteiro sucesso;”

“compromisso mútuo. Nesse caso, nem a tendência para o recalque nem a tendência para a repetição podem realizar-se inteiramente, mas o complexo fica representado na consciência por intermédio de uma associação superficial qualquer. Segundo Freud, são esses representantes ou símbolos de complexos que constituem a maioria dessas ideias súbitas que, interrompendo bruscamente o desenrolar normal do pensamento, vêm-nos ao espírito sem razão aparente ou, como se costuma dizer, " por acaso"; com frequência, uma certa recordação da infância longínqua, parecendo anódina e insignificante, revela ser a representante de um complexo e não se poderia compreender por que a nossa memória acumulou tal lembrança se uma investigação mais profunda não descobrisse que ela dissimula a recordação de outro evento muito significativo e que nada tem de anódino. São essas lembranças que Freud chama " recordações encobridoras"

“psiconeurose nada mais é do que uma forma de com-promisso. A consciência do histérico consegue afastar o grupo de representações sexuais afetivamente investidas, mas este encontra um modo de exprimir-se pela via simbólica - a das associações - convertido em sintomas orgânicos.”

“A diferença entre a histeria e a neurose obsessiva consiste no seguinte: na histeria, a energia psíquica do complexo recalcado converte-se em sintoma orgânico; nameurose obsessiva pelo contrário, a consciência, para libertar-se do efeito deprimente de uma representação, priva-a do afeto que lhe está vinculado e investe-o numa outra representação, anódina, associada superficialmente com a original. Freud deu o nome de substituição a esse mecanismo específico de deslocamento dos afetos. O pensamento obsessivo que vem importunar a consciência de forma incessante nada mais é do que um bode expiatório injustamente perseguido pelo paciente, enquanto o pensamento efetivamente " culpado" desfruta de perfeita tranquilidade no inconsciente. E o equilíbrio psíquico só se restabelece depois de ter sido descoberta, por meio da análise, a representação recalcada.”

“ O verdadeiro agente patogênico não é o trauma em si, mas o recalque das representações que a ele se ligam.”

“também a humanidade é atualmente educada para uma cegueira introspectiva. Mas o homem assim educado, tal como o hipnotizado, retira muita energia psíquica da parte consciente de sua personalidade; portanto, mutila consideravelmente a capacidade de funcionamento desta; por um lado, alimenta em seu inconsciente uma outra personalidade, verdadeira parasita, que com o seu egoísmo natural e suas tendências para satisfazer seus desejos a todo custo é como que a sombra, o negativo de todo o belo e o bem de que se vangloria a consciência superior; por outro lado, a consciência só poderá evitar reconhecer e perceber os instintos associais dissimulados se os empurrar para trás de uma muralha de dogmas morais, religiosos e sociais, desperdiçando o melhor de suas forças para manter esses dogmas.”

“produz-se a cura dos sintomas. E ela se produz mesmo se, em consequência de dos-táculos insuperáveis, o desejo, cuja manifestação simbólica é o sintoma psiconeurotico, nao possa vir a ser ulteriormente satisfeito. A análise psicológica não resulta, portanto, no reinado desenfreado de instintos egoistas, inconscientes e eventualmente incompativeis com os interesses do indivíduo, mas na ruptura com os preconceitos que entravam o autoconhecimento, a compreensão dos motivos até então inconscientes e a possibilidade de um controle dos impulsos que se tornaram conscientes.”O recalcamento de ideias é substituído pelo julgamento consciente"

“ignorância vestida de termos eruditos é menos humilhante do que a franca confissão de ignorância.”

“É possível que a predominância da sexualidade na etiologia das doencas do psiquismo possa ser atribuida mais a nossa organizagao social do que à natureza especifica dessa causa patogênica.”

“Mas a fronteira entre as representações do ego e as representações do mundo externo é móvel; assim como, nos limites da normalidade, podemos observar a tendência para deslocar para outrem e para o exterior o que é penoso de suportar em nós mesmos, também o paranoico se alivia repelindo do eu os complexos intoleráveis, elaborando sensações a partir de sentimentos, o mundo externo a partir de uma fração do eu.”

“Compreende-se que, dos dois sexos, as mulheres sejam mais propensas à psiconeurose do que os homens, quando se pensa como é desigual a pressão social exercida sobre a sexualidade dos dois. Desde os primeiros anos da juventude permite-se aos homens coisas com que as mulheres não têm sequer o direito de sonhar. Mesmo no casamento existem duas morais - uma para uso dos maridos, a outra das esposas; e, bem entendido, a sociedade pune a transgressão dos interditos morais muito mais severamente na mulher do que no homem.”

“Não adianta dizer ao paciente que sua doença" não é orgânica" , que não está doente mas tem apenas a impressão de que está; o que conseguimos com isso é aumentar o desespero do paciente,”

“Esse procedimento é a psicanálise; ela se esforça não por fazer esquecer os conflitos, mas por torná-los conscientes, habituando o doente, por uma espécie de reeducação, a suportar corajosamente as representações penosas que contém em si, a fim de não ter que fugir delas na doença, na produção de sintomas mórbidos simbólicos.”

“considero todo amor objetal ou toda transferência como uma extensão do ego ou introjeção”

“amar a outrem equivale a integrar esse outrem no seu próprio ego.”

“É essa união entre os objetos amados e nós mesmos, essa fusão desses objetos com o nosso ego, que designamos por introjeção”

“censura tinha recalcado certos afetos dolorosos despertados pela análise (tristeza, luto), sem que, no entanto, o conseguisse inteiramente; ela só pôde deslocar o modo de expressão,”

Sobre hipnose e sugestão: “só dura enquanto se prolongar a autoridade do sugestionador, ou enquanto permanecer intata a confiança que o seu paciente lhe dedica…diminuição do campo da consciência, instruindo o paciente para manter-se cego a uma parte de suas percepções externas e internas.”

“Portanto, ao passo que a hipnose e a sugestão se contentam em negar o mal, ou em enterrá-lo mais profundamente - deixando-o na realidade latente no fundo do psiquismo como o fogo sob as cinzas -, a psicanálise exuma o mal, energicamente mas sem brutalidade, e reencontra o foco do incêndio.
E quais são esses focos de incêndio? São as lembranças, os desejos, as autoacusações”

“É preciso saber que também o luto tem duas formas: o luto fisiológico e o luto patológico. Na primeira forma, a paralisia psíquica inicial é logo seguida de uma resignação filosófica; as preocupações e os deveres do futuro permitem ao instinto de conservação retomar seus direitos. Quando anos, décadas se passam sem que o sentimento de luto se acalme, podemos estar certos de que o enlutado não chora somente a pessoa e a lembrança de que tem consciência mas de que, no fundo do inconsciente, outros motivos de depressão se aproveitam do luto atual para manifestar-se.”

“Uma delas pretende derrotar os males rechaçando-os, disfarçando-os, recalcando-os; age pela estimulação da compaixão e pela manutenção do culto à autoridade. A outra, pelo contrário, combate a "mentira vital" onde quer que ela se encontre, não abusa do peso da autoridade e seu objetivo final consiste em fazer penetrar a luz da consciência humana até as instâncias mais escondidas dos motivos de ação; sem recuar diante das tomadas de consciência dolorosas, desagradáveis ou repugnantes,”
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