Carlos Drummond de Andrade inaugura este volume contemplando uma moça esparramada na grama: "Eu vi e achei lindo. Fiquei repetindo para meu deleite pessoal: 'Moça deitada na grama. Moça deitada na grama. Deitada na grama. Na grama'. Pois o espetáculo me embevecia. Não é qualquer coisa que me embevece, a esta altura da vida". Essa e outras situações irrompem nas crônicas de Drummond para provar que a realidade também é feita de lirismo -- e vice-versa.
Derradeiro livro entregue à editora, em 1987, Moça deitada na grama é uma seleção das últimas crônicas escritas pelo poeta, que por décadas colaborou para os jornais mais relevantes do país. O insólito e o lírico são faces de uma mesma moeda nestes textos que descrevem o Rio de Janeiro e seus moradores, em situações cômicas e despretensiosas, com boas doses de filosofia.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
É engraçado ler Drummond sem ser poesia, assim como é engraçado ver um dos maiores nomes da literatura brasileira sendo divertido mais do que qualquer coisa. É um livro muito simpático, mesmo sendo feito sob a sombra da ditadura.
Comprei este livro em um sebo alguns anos atrás, movida pela curiosidade de ler Drummond numa época em que ainda não conhecia nada da escrita dele além de uma ou outra citação espalhada por aí. Publicado nos anos 1980, "Moça deitada na grama" reúne uma seleção de crônicas publicadas pelo autor ao longo do tempo em jornais brasileiros e tratam tanto de assuntos cotidianos quanto de assuntos sociais e políticos. Muitas das crônicas têm um tom bem-humorado ou filosófico, e há outras também que se assemelham a contos porque são construídas a partir de diálogos, nas quais vemos interações do autor com seu público. Muitas delas, entretanto, são datadas, o que torna difícil a identificação com o assunto ou o entendimento de um trocadilho ou uma frase divertida. Gosto bastante do gênero crônica, mas com este livro, fiz uma leitura bem arrastada. Muitos dos textos não me inspiraram nenhum pensamento ou reflexão depois de concluídos e fiz poucas marcações no livro. Apesar disso, as poucas crônicas que me divertiram ou interessaram foram boas à sua maneira. Foi uma leitura estranha. Eu não diria que Drummond não é pra mim, porque gostei bastante de sua poesia em "Sentimento do mundo", mas talvez ler uma seleção antiga de crônicas não tenha sido uma boa escolha.
Da delicadeza cotidiana da aparição de uma borboleta à política do congresso, Drummond consegue cronear de uma forma muito bonita, respirada e cativante (?). As vezes os últimos parágrafos são meio bregas (tanto quanto a palavra cativante), mas o caminho até lá vale a pena (rs)