“Crescer é isto. Desapegarmo-nos das nossas narrativas antigas, dos rótulos que nos impusemos e trabalharmos para a vida que gostaríamos de ter, com as pessoas que merecemos que nos tenham. Dói. Talvez sejam as dores de crescimento.”
No início deste ano descobri o projecto "Banana Papaia" da Joana Gama e da Rita Camarneiro e tenho de confessar que não fui além dos três episódios. Não só porque os episódios não me estavam a acrescentar nada mas principalmente porque não conseguia ouvir a Joana, parecia-me que só dizia disparates e promiscuidades.
Mas, por algum motivo, quando ela lançou o seu podcast "Psychoterapia", decidi dar-lhe nova oportunidade, e ainda bem que o fiz. Afinal, eu e ela temos mais em comum do que à partida poderia parecer, embora lidemos com isso de maneira diferentes. Para além disso, a vida da Joana tem sido muito mais conturbada do que a da maioria, o que consequentemente a torna muito mais interessante do que o resto (por muito mórbido que este pensamento possa parecer).
"Alguém que me cale" não é mais do que um conjunto de pensamentos da própria Joana Gama. Nem sempre há um encadeamento lógico entre eles, nem o texto está escrito com intenções de se candidatar um Nobel da Literatura. São só os devaneios e desabafos de uma pessoa que sofreu, que sofre e que ainda está a tentar lidar com isso.
De certeza que todos nos identificaremos com alguma coisa no livro, mas só recomendo este livro a quem de facto já acompanhe a Joana e que tenha o mínimo interesse em conhecê-la melhor. Mas acho que isso é óbvio.
Comprei este livro porque sigo o percurso da Joana, o artístico, e não o que ela faz todos os dias do trabalho para casa, já há alguns anos. Após a leitura do dito cujo, posso afirmar que não estou arrependido da compra. Esta obra expõe a nu os pensamentos de uma mulher que não sabe ser, que não nasceu com manual de instruções e teve de viver a vida por ela mesma, descobrindo tudo da única maneira que há para descobrir: vivendo intensamente cada segundo. Primeiro, enquanto criança, depois como mulher e finalmente como mãe. A obra leva-nos numa viagem pelos momentos-chave da vida da autora, os momentos que a marcaram para sempre e influenciam tudo o que fez e faz. Fica mais fácil também perceber o que está por detrás das suas escolhas, das suas atitudes, das suas batalhas. Não que este livro nos transforme automaticamente em especialistas da sua vida, mas porque 90% do que escreve é incrivelmente empático. Quem partilhou algum dos traumas das experiências que descreve vai, com toda a certeza, gostar ainda mais do ser humano que é Joana Gama. Somos todos Joana Gama.
Escrita super descontraída e íntima, ao abordar tópicos que são um pouco tabu, mas necessários. Muitos pensamentos intrusivos por parte do autor o que roubou uma boa risada da minha parte e alguns com os quais me identifiquei.
Alguns tópicos sensíveis também como depressão e morte, mas no geral é um livro super fácil de ler e lê-se muito rapidamente.
O final foi um pouco abrupto, como se algo tivesse ficado por dizer, mas foi uma boa revisão ou biografia ou análise, como quiserem chamá-la, dos primeiros trinta e três anos da vida de Joana.